Lisboa em Setembro: 3 Dias Sem o Calor de Agosto
Em agosto, Lisboa cozinha e as filas dão a volta ao quarteirão. Em setembro, as máximas descem para uns confortáveis 26-27°C, os lisboetas voltam à escola e ao trabalho, e de repente há mesa livre na A Brasileira sem esperar. Este roteiro de três dias mostra como aproveitar essa janela, do Museu Nacional de Arte Antiga ao fado a sério do O Faia.
Em agosto, Lisboa cozinha. As esplanadas do Chiado ficam sem uma mesa livre até às onze da noite, o Tejo reflete um sol que bate a prumo às três da tarde e o elétrico 28 vira um forno amarelo com rodas. Setembro é outra cidade. As máximas descem para uma zona confortável, entre os 26 e os 27°C nas primeiras semanas, as mínimas rondam os 18°C e chove pouco ou nada. Mas o que realmente muda é o ritmo: as escolas portuguesas recomeçam a meio do mês, os lisboetas voltam ao trabalho e as filas que em agosto davam a volta ao quarteirão encolhem para vinte minutos, ou desaparecem de todo antes das dez da manhã.
Porque setembro bate agosto, sempre
Não é só a temperatura. É a luz, que já não é aquele branco estourado do meio do verão mas um dourado mais baixo e mais generoso a partir das seis da tarde. É o rio, ainda quente o suficiente para um mergulho em Cascais ou na Costa da Caparica num fim de semana de sol. E é o facto de conseguir sentar-se numa mesa da A Brasileira sem esperar, coisa impensável em pleno agosto. Este roteiro assume três dias cheios, a pé e de elétrico, sem alugar carro e sem pressa de ver tudo. Lisboa não se despacha em três dias, mas dá para sair de lá com uma ideia honesta do que a cidade é, para lá do postal.
Dia 1: Chiado, Baixa e Alfama, dos livros ao fado
Comece o dia cedo, antes das nove, na A Brasileira, no Chiado. Sim, é onde está a estátua do Pessoa e sim, é cheio de turistas a tirar fotos com ela, mas um café curto ao balcão custa o mesmo que em qualquer outro sítio da zona e o interior de espelhos e talha dourada de 1905 continua a valer a visita fora das horas de ponta. Peça o café simples, não o "especial da casa" inflacionado do menu turístico.
Dali, desça a pé até à Baixa e siga para o Museu Nacional de Arte Antiga, na Rua das Janelas Verdes. É o museu mais subestimado de Lisboa: tem as Tentações de Santo Antão de Bosch, um tríptico que por si só justifica a entrada, e raramente há fila. Reserve pelo menos duas horas, é grande e organizado por pisos que convidam a perder-se um pouco. A vista do café no terraço, sobre o Tejo, é um bónus que a maioria dos visitantes desconhece.
Almoço leve na zona, depois suba até Alfama a pé, devagar, pelas ruelas que sobem em degraus entre a Sé e o Castelo. Não tente ver tudo, o objetivo é chegar ao fim da tarde ao Miradouro da Senhora do Monte, o melhor miradouro de Lisboa e um dos menos falados. Fica mais alto do que a Graça e a vista abrange o castelo, o rio e a ponte 25 de Abril numa única linha de visão. Chegue por volta das sete, compre uma cerveja no quiosque ao lado e sente-se no muro. É de graça e vale mais do que qualquer bilhete de miradouro pago no centro.
Para jantar, fado a sério, não o espetáculo genérico para autocarros de turistas. O O Faia - Casa de Fados, no Bairro Alto, é uma casa histórica com fadistas que atuam há décadas e uma ementa de comida portuguesa séria, não decorativa. Reserve com antecedência, sobretudo à sexta e sábado, e conte com uma refeição mais longa: aqui não se janta depressa, ouve-se.
Dia 2: Descer até Belém, de duas rodas ou a pé
Belém em setembro, sem o calor a esmagar tudo às duas da tarde, é outra experiência. A forma mais divertida de lá chegar não é o elétrico 15, é de bicicleta, e há duas maneiras diferentes de o fazer consoante o que procura. Se quiser adrenalina e uma boa história para contar, experimente Pedalar do Topo ao Rio, um percurso descendente que sai do alto da cidade e desce até ao rio, aproveitando o desnível de Lisboa a favor das pernas em vez de contra elas. Se preferir um ritmo mais calmo, junto à água, sem subidas nem sustos, a opção é Explorar Lisboa sobre Rodas, com a Bike a Wish, que segue a marginal ribeirinha até Belém num percurso plano, ideal para quem vai com crianças ou simplesmente não quer suar antes do pequeno-almoço.
Chegado a Belém, o pastel de nata original fica na Antiga Confeitaria de Belém, mas em setembro a fila ainda assim pode passar dos trinta minutos ao meio-dia. Vá cedo, antes das dez, ou aceite a espera como parte do ritual. Depois, o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém preenchem a manhã, e a tarde pode ser passada com calma nos jardins junto ao rio, sem a urgência de fugir do sol a pique que domina o verão.
Ao final da tarde, volte ao centro de táxi, Uber ou elétrico, guardando energia para explorar Lisboa por dentro no dia seguinte, para lá dos monumentos óbvios. Se este roteiro de Belém e do rio lhe souber a pouco, o guia Cultura Local em Lisboa aprofunda os bairros e as tradições que ficam de fora de um dia só.
Dia 3: Gulbenkian, bifanas e a Lisboa que não é postal
O terceiro dia é para o Museu Calouste Gulbenkian, provavelmente a melhor coleção de arte de Portugal e, ainda assim, longe da azáfama do centro histórico. Reserve a manhã inteira: a coleção do fundador cobre desde arte egípcia a Rembrandt, Rodin e Lalique, num edifício dos anos 60 rodeado por sete hectares de jardim onde se pode simplesmente sentar à sombra depois de duas horas de museu. Em setembro, sem o calor extremo, o jardim é tão bom motivo para ir como as salas de exposição.
Para almoçar, esqueça o menu turístico e vá às As Bifanas do Afonso. É simples, é rápido, é barato e é exatamente aquilo que uma bifana deve ser: pão a absorver o molho, carne fina de porco marinada, sem enfeites desnecessários. Não peça para "personalizar", peça a clássica.
A tarde fica livre para explorar sem plano fixo, a melhor forma de conhecer Lisboa depois de dois dias de roteiro apertado. Chiado, Príncipe Real ou de volta a Alfama por ruas que ainda não viu. Se quiser mesmo entender a estrutura da cidade, os seus bairros e a diferença real entre a Lisboa dos postais e a Lisboa do dia a dia, o guia Cultura Local em Lisboa vale a leitura antes de sair do hotel nesta última tarde.
Se ficar mais um dia
Setembro é também o mês certo para uma escapadela a Sintra, porque a serra fica fresca mesmo quando Lisboa aquece, e em agosto a fila para o Palácio da Pena pode significar horas ao sol. Antes de ir, vale a pena consultar o Guia de Bairros de Sintra para escolher zonas menos óbvias do que o centro histórico, que em qualquer altura do ano fica congestionado de autocarros de turismo. Mais a norte, Mafra guarda o seu convento monumental e uma tradição doceira conventual bem documentada, mesmo fora da época pascal: o roteiro Doces de Páscoa em Mafra dá uma boa ideia da história por trás dessas receitas, ainda que a melhor altura para as provar frescas seja mesmo na Páscoa.
O essencial em números
- Transporte: compre o cartão Viva Viagem (0,50€ de emissão) e carregue-o com viagens Zapping ou o passe diário de 24h, que ronda os 6,80€ e cobre metro, elétricos e a maioria dos autocarros.
- Museus: o Museu Nacional de Arte Antiga e o Museu Calouste Gulbenkian têm entrada gratuita em determinados dias e horários, confirme localmente antes de planear o dia à volta disso.
- Fado: numa casa como a O Faia, conte com um valor mínimo de consumo e reserva antecipada, sobretudo ao fim de semana.
- Calçado: Alfama e as subidas para o Miradouro da Senhora do Monte são de calçada portuguesa irregular, leve sapatos confortáveis, não sandálias novas.
- Melhor altura do dia: entre as 8h e as 10h e depois das 18h para evitar tanto o calor como as multidões, mesmo em setembro.
Lisboa em agosto é uma cidade a sobreviver ao próprio sucesso turístico. Lisboa em setembro é a mesma cidade, mas a respirar. As mesmas ladeiras, o mesmo rio, as mesmas bifanas, só que sem ter de disputar a sombra com mais dez mil pessoas. Vá antes que todos descubram isso também.