Confeitaria Peixinho
Aveiro
Desde 1929 na Avenida Dr. Lourenço Peixinho, a Ramos é uma das casas mais antigas de ovos moles de Aveiro, e fica precisamente no troço que toda a gente atravessa sem olhar. Compre a barrica pequena se for para levar, as hóstias só se for comer no próprio dia. Dois doces e um café curto, por menos do que custa uma água num aeroporto.
Quem chega a Aveiro de comboio faz quase sempre o mesmo percurso: sai da estação, olha para os azulejos da fachada antiga, tira a fotografia da praxe e depois desce a Avenida Dr. Lourenço Peixinho a caminho do canal central, dos moliceiros e das lojas de recordações. A avenida, nesse trajecto, é tratada como corredor. Serve para atravessar, não para parar. É precisamente por isso que a Pastelaria e Confeitaria Ramos, no número 86 a 88, escapa a tanta gente que passa a três metros da montra.
A casa trabalha desde 1929. Isso não é um detalhe decorativo para folheto turístico: significa que os Ramos estavam a fazer ovos moles quando Aveiro ainda vivia da salina e da pesca do bacalhau à linha, décadas antes de a cidade descobrir que podia vender-se como "Veneza portuguesa". É uma das mais antigas produtoras de ovos moles da cidade, e continua no mesmo sítio, na mesma avenida, com um café modernizado à frente e o trabalho de doçaria a sério por trás.
Vamos ao essencial. Vai lá pelos ovos moles. Tudo o resto na vitrina, pastelaria variada, bolos, o café da manhã, é competente e barato, mas não é isso que justifica a paragem. Os ovos moles de Aveiro são um doce de Indicação Geográfica Protegida, feito de gemas e calda de açúcar, servido dentro de hóstia moldada em conchas, búzios e peixinhos, ou vendido a granel em barricas de madeira pintadas.
Conselho prático de quem já errou: compre a barrica pequena se for para levar e comer nos dias seguintes, e as hóstias se for para comer no próprio dia. A hóstia amolece com o tempo e perde aquilo que a torna interessante, o contraste seco contra o creme. Quem leva uma caixa grande de hóstias no comboio para Lisboa costuma chegar com uma massa triste. Não seja essa pessoa.
Segundo conselho: não coma seis de uma vez. Os ovos moles são densos, doces de forma quase agressiva, e o formato pequeno engana. Dois, com um café curto, é a proporção certa. É também a razão pela qual esta casa funciona melhor como paragem de meio da manhã ou de meio da tarde do que como refeição.
A parte de café foi modernizada, e quem procurar um interior intacto dos anos 30 vai sair desiludido. Isto não é um museu. É uma pastelaria de bairro que serve pastelaria, bolos e café a gente de Aveiro que trabalha na avenida e à volta dela. De manhã, o balcão é dos habituais. É um bom sítio para perceber o ritmo real da cidade fora do circuito dos moliceiros, que fica a poucos minutos a pé mas parece pertencer a outro país.
Preços na banda baixa, categoria €. Um café e um doce ficam por valores que em qualquer capital europeia dariam para pouco mais do que a água. Não há necessidade de reserva, não há código de vestuário, e não há qualquer cerimónia. Entra-se, pede-se ao balcão ou senta-se, e pronto.
Não temos horário confirmado para publicar aqui, e prefiro dizê-lo a inventar. Confirme diretamente pelo telefone +351 234 423 289 ou no site oficial, pastelariaramos.com, sobretudo se for a meio da tarde de domingo ou em época baixa. Vale o telefonema se estiver a fazer uma deslocação só para isto.
É dos endereços mais simples de Aveiro. A Avenida Dr. Lourenço Peixinho liga a estação de comboios ao centro, em linha quase recta. Da estação, são cerca de dez minutos a pé, sempre em frente, no sentido do canal. Do canal central e da Praça do Peixe, é o mesmo percurso ao contrário, à volta de sete a dez minutos. Não precisa de mapa: se estiver na avenida principal e a caminhar, vai passar pela porta.
De carro é mais chato. A avenida tem estacionamento à superfície limitado e trânsito constante em hora de ponta. Aveiro é uma cidade plana e pequena, feita para bicicleta e para os pés. Deixe o carro no parque e caminhe.
É a pergunta que aparece sempre. Aveiro tem várias casas históricas de ovos moles, e a comparação com a Confeitaria Peixinho é inevitável. A minha resposta honesta: faça as duas. Ficam perto uma da outra, os doces custam pouco, e a diferença entre casas, na doçura da calda, na espessura da hóstia, no ponto do creme, só se percebe provando lado a lado. É a melhor prova de sabor barata que Aveiro oferece.
Se estiver a montar um dia com sentido, junte isto às fachadas de azulejo que ninguém fotografa, muitas delas na própria Lourenço Peixinho e nas ruas adjacentes. É um percurso de uma hora e meia que faz mais pela compreensão da cidade do que qualquer passeio de moliceiro.
Os ovos moles têm um pico cultural claro na Páscoa aveirense, altura em que a doçaria conventual da cidade sai da rotina e entra na tradição familiar. Também há mais movimento durante o Festival do Bacalhau, quando a cidade enche. Se odeia filas, evite o fim da manhã de sábado.
Para quem fica a dormir, a avenida é uma boa base logística. Tanto o Aveiro Rossio Bed & Breakfast como o Cais do Pescador ficam em zona de caminhada, o que significa que o pequeno-almoço pode ser aqui, ao balcão, por menos do que custa um sumo de hotel.
A Ramos não vai mudar a sua vida. Vai dar-lhe quinze minutos honestos de doçaria feita no mesmo sítio há quase cem anos, por um preço ridículo, numa avenida que a maior parte dos visitantes atravessa a olhar para o telemóvel. Compre a barrica pequena, coma dois ao balcão, e continue a descer para o canal com a certeza de que já viu qualquer coisa de real.