Confeitaria Peixinho
Aveiro
Fundada em 1882 e ainda na mesma família, é a casa de ovos moles mais antiga de Aveiro a trabalhar. A morada original, na Rua D. Jorge Lencastre 37, fica fora do circuito dos moliceiros e é por isso que quase ninguém a encontra. Comprem a granel, na hóstia, e comam no próprio dia: é o único conselho que importa.
Há uma coisa que ninguém diz aos visitantes de Aveiro: a maior parte dos ovos moles que se compram na cidade sai de fábricas industriais e chega às lojas em barricas de plástico brancas. Estão longe de ser maus. Mas também não são aquilo que fez desta cidade um nome próprio na pastelaria portuguesa. Para isso é preciso procurar as casas antigas, e a Maria da Apresentação da Cruz & Herdeiros é a mais antiga que ainda trabalha: 1882, sempre na mesma família, sempre a fazer a mesma coisa.
O nome é impossível de decorar e, sinceramente, isso ajuda a manter a fila curta. Quem quiser ir à origem vai à Rua D. Jorge Lencastre 37, 3800-142 Aveiro. Não é a rua dos canais nem a rua das fotografias. É uma rua de cidade normal, a poucos minutos a pé do centro, e a maior parte das pessoas passa por ali sem perceber o que ali está. A casa tem também uma loja na Rua de Coimbra nº5, em pleno centro histórico, e é essa que a maioria dos visitantes acaba por encontrar. As duas moradas contam histórias diferentes: uma é onde se compra, a outra é onde se percebe.
Gemas de ovo e açúcar. Cozidos até formarem um creme espesso e brilhante, com aquele amarelo que não existe na natureza fora de uma gema. Depois vão para dentro de hóstia, moldada em formas de conchas, peixes, búzios, barricas. Ou para dentro de barricas de madeira pintadas, que são a versão de presente e a que se leva no comboio.
É uma receita de origem conventual, típica de um país que teve conventos a mais e gemas de ovo a mais (as claras iam para engomar hábitos e clarificar vinho, e ninguém sabia o que fazer ao resto). Os Ovos Moles de Aveiro têm hoje Indicação Geográfica Protegida, o que significa regras concretas sobre ingredientes e método. Uma casa de 1882 não precisa que lhe expliquem as regras.
Comprem a granel, na hóstia, e comam no próprio dia. É este o único conselho que importa. A hóstia amolece devagar com a humidade da gema, e a diferença entre um ovo mole comido a horas e um ovo mole comido três dias depois é a diferença entre estaladiço e mole por todos os lados. Se for para levar para casa e resistir à viagem, aí sim, a barrica de madeira faz sentido, mas assumam que estão a comprar uma recordação bonita mais do que a melhor versão do doce.
Quanto à quantidade: um ovo mole é pequeno e intensamente doce. Quatro ou cinco por pessoa é uma dose sensata. Uma dúzia é uma ambição que se paga a meio da tarde. E não os acompanhem com nada açucarado. Café simples, sem açúcar, ou um chá preto. É a única forma de chegar ao fim de meia dúzia sem desistir.
É barato, na categoria €. Ovos moles em Portugal continuam a ser um dos doces com melhor relação entre trabalho manual e preço final, o que diz mais sobre a economia da pastelaria portuguesa do que sobre esta casa em particular. Levem dinheiro vivo. Muitas casas antigas aceitam multibanco sem problemas, mas em compras pequenas há sempre a hipótese de haver mínimo de valor, e ninguém quer estar a discutir isso com dez euros de doces na mão.
Aqui vai a parte honesta: os horários desta casa não estão publicados de forma fiável. Confirmem diretamente pelo telefone +351 234 422 323 ou pelo site oficial m1882.com antes de irem, sobretudo se forem à Rua D. Jorge Lencastre em vez da loja do centro. Domingos e feriados são sempre uma aposta arriscada em produção artesanal.
Aveiro é uma cidade para andar a pé, e é essa a graça. Da estação de comboios ao centro são cerca de quinze minutos de caminhada em linha reta. Do centro até à Rua D. Jorge Lencastre são mais uns minutos, longe do circuito dos moliceiros. Se estiverem de carro, estacionem uma vez, deixem-no quieto e façam tudo a pé: Aveiro castiga quem insiste em conduzir dentro do centro.
A melhor forma de perceber os ovos moles é comparar. Numa tarde dá para visitar esta casa e a Confeitaria Peixinho, outra das referências históricas da cidade, e ainda passar pela Pastelaria e Confeitaria Ramos. Não são iguais. A doçura, a espessura do creme, a espessura da hóstia, tudo muda de casa para casa, e é aí que a coisa fica interessante. Façam a prova no mesmo dia, com o palato limpo entre paragens, e escolham a vossa.
Depois saiam da rota óbvia. Aveiro tem uma arquitetura de azulejo que quase ninguém fotografa porque toda a gente está virada para os canais, e vale a pena seguir o roteiro das fachadas de azulejo esquecidas com um saco de doces na mão. Se vierem na primavera, a cidade muda de ritmo: a Páscoa em Aveiro é quando estas casas trabalham mais e melhor, e quando as filas justificam a espera.
Aveiro faz-se bem em dois dias, e dormir dentro da cidade é o que permite estas voltas a pé sem stress. O Cais do Pescador e o Aveiro Rossio Bed & Breakfast deixam-vos a distância de caminhada de tudo o que interessa. Se quiserem esticar a viagem, encaixem Aveiro num percurso maior: funciona bem como paragem no roteiro de sete dias entre o Tejo e o Douro.
Há uma diferença entre comprar uma lembrança e comprar comida. Uma casa que trabalha desde 1882 e continua na mesma família sobreviveu ao turismo de massas, à industrialização do doce e a três ou quatro gerações de gostos a mudar. Isso não é romantismo, é um facto de gestão. Quando comprarem meia dúzia de ovos moles na Rua D. Jorge Lencastre, estão a pagar por essa continuidade tanto como pelo açúcar. É dinheiro bem gasto e é, provavelmente, a coisa mais barata que vão fazer em Aveiro.