Pastelaria de Santa Clara
Santarém
Aberta desde 1947, a Pastelaria Bijou em Santarém é uma das últimas casas a fazer doces conventuais com disciplina e sem concessões. Os pampilhos são obrigatórios, os celestes pedem café forte ao lado.
Há pastelarias em Portugal que sobrevivem de nostalgia. Põem fotografias antigas na parede, mudam o menu para agradar a turistas e cobram três euros por um café com vista. A Pastelaria Bijou, na Rua Capelo e Ivens 135, em Santarém, não faz nada disso. Está aberta desde 1947, continua a fazer doces conventuais como se fazia antes de alguém inventar o Instagram, e os preços continuam acessíveis. É uma casa de categoria €, o que em Santarém significa que sai de lá satisfeito sem precisar de verificar o saldo.
Santarém é a capital do gótico português, mas também é, e sempre foi, uma cidade de doçaria conventual séria. Os conventos que marcam a rota da arquitectura monástica da cidade deixaram um legado que vai muito além da pedra: receitas de ovos, açúcar e amêndoa que passaram das freiras para as pastelarias locais. A Bijou é talvez a guardiã mais fiel dessa tradição.
Os pampilhos são a especialidade da casa e o doce mais associado a Santarém. Se nunca provou, imagine uma massa fina e crocante recheada com ovos moles, com um toque de canela. Não peça só um, peça dois, porque o primeiro vai desaparecer antes de se sentar. Os celestes são outra referência: doces conventuais com aquela doçura intensa que só funciona com um café forte ao lado. Há também pastéis tradicionais que variam, mas que mantêm sempre a linha conventual.
A minha sugestão: comece pelos pampilhos, prove um celeste, e se ainda tiver espaço, peça o que estiver no balcão que lhe pareça mais estranho. Numa casa destas, o que não conhece é quase sempre o mais interessante.
A Rua Capelo e Ivens fica no centro histórico de Santarém, a poucos minutos a pé do Jardim da Liberdade e das principais igrejas góticas. Se vier de carro, estacione junto ao Jardim das Portas do Sol, que é o parque mais acessível, e desça a pé. Se vier de comboio, a estação fica na parte baixa da cidade, e terá de subir, seja de autocarro urbano ou a pé (a subida é honesta, mas compensa).
O espaço é o que se espera de uma pastelaria portuguesa de meados do século XX: balcão de vidro com os doces expostos, mesas simples, e um ambiente que favorece a conversa rápida ao balcão ou a pausa mais lenta sentado. Não espere design de revista. Espere autenticidade funcional.
A maioria das pessoas passa por Santarém na A1 a caminho do Norte ou do Algarve. É um erro. A cidade tem um dos centros históricos mais interessantes do país, com igrejas góticas que rivalizam com as de qualquer cidade europeia, miradouros sobre a lezíria do Tejo, e uma cena gastronómica local que funciona sem precisar de validação lisboeta. Se quiser saber onde os locais comem de verdade, temos um guia dedicado. E se tiver tempo, os museus da cidade também merecem uma triagem honesta.
Se precisar de onde ficar, o Santarem Hostel é uma opção prática e central.
A Bijou não tenta ser moderna. Não tem brunch, não tem açaí bowls, não tem música ambiente. Tem quase oito décadas de doçaria conventual feita com método e repetição. E isso, em 2026, vale mais do que qualquer tendência.