Santarém à Mesa: Onde os Locais Comem de Verdade
Santarém é a capital gastronómica que ninguém visita, e isso é a melhor coisa que lhe podia acontecer. Na Taberna do Quinzena, aberta há mais de 150 anos na Rua Pedro de Santarém, um almoço de bacalhau com castanhas e sopa da pedra custa menos de 20€. Este é o guia para comer como os locais.
Santarém tem um problema. É a autoproclamada "capital da gastronomia" portuguesa, sede da Feira Nacional de Gastronomia todos os outonos, e no entanto a maioria dos visitantes passa pela cidade a caminho de outro sítio. É um erro. Porque se há cidade em Portugal onde a relação entre o que se come e o que se paga ainda faz sentido, é esta. A cozinha ribatejana não tem a fama da alentejana nem o marketing da lisboeta, e é exactamente por isso que ainda funciona.
O que é a cozinha ribatejana, afinal
Antes de falar de restaurantes, convém perceber o terreno. Santarém está plantada num planalto acima do Tejo, rodeada pela lezíria mais fértil do país. Isso significa duas coisas: carne de toiro bravo (dos que pastam nos campos à volta) e peixe de rio. A cozinha daqui é de gente que trabalha a terra, robusta, sem floreados, com porções que foram desenhadas para alimentar campinos, não turistas de Instagram.
Os pratos-bandeira são a sopa da pedra (na verdade mais associada a Almeirim, a vinte minutos, mas omnipresente na região), o torricado, pão tostado na brasa com azeite e bacalhau —, as migas de espargos, e a carne de toiro. Nos doces, o pampilho é o rei, um enrolado de massa fina com recheio de gemas e canela que os turistas quase nunca conhecem. Se gosta da tradição doceira portuguesa como a que encontra em Mafra, em Santarém vai encontrar outra camada, os celestes de Santa Clara e os arrepiados são herança conventual directa.
Taberna do Quinzena: comece aqui
Se só tiver tempo para um restaurante em Santarém, vá à Taberna do Quinzena. Ponto final. Este sítio existe há mais de 150 anos na Rua Pedro de Santarém e é, sem exagero, uma aula de cozinha ribatejana num único almoço. O bacalhau assado com castanhas é extraordinário, o arroz de miúdos de pato é daqueles pratos que não encontra em mais lado nenhum, e a sopa da pedra deles é densa, honesta, cheia de enchidos e feijão.
O espaço é simples. Não há design de interiores, não há playlist curada. Há toalhas de papel, barulho de conversa, e uma carta de vinhos do Tejo que acompanha tudo isto na perfeição. Conte com 15-20€ por pessoa para comer bem e sair a rolar. Ao almoço durante a semana é quando encontra mais locais, evite fins de semana se quer fugir a excursões.
Taberna Ó Balcão: quando quer impressionar
Se o Quinzena é o clássico inabalável, o Ó Balcão é o que acontece quando um chef com formação a sério pega nos ingredientes ribatejanos e os eleva. Também na Rua Pedro de Santarém (que é basicamente a rua onde se come em Santarém, aceitem), o chef Rodrigo Castelo trabalha com peixe de rio, lúcio, barbo, enguia, de uma forma que respeita a tradição mas não tem medo de a torcer. É o único restaurante da cidade com reconhecimento Michelin, e os preços reflectem isso, mas não são absurdos para o que se recebe.
Reserve. Especialmente ao jantar. E peça o que tiver peixe de rio, é ali que a cozinha brilha.
Chapa 7: para quem quer marisco
Sim, Santarém está no interior. Não, isso não impede que haja marisco fresco a sério. A Chapa 7 é o sítio onde os santarenos vão quando querem percebes, sapateira e gambas sem fazer a viagem até à costa. Mais de 300 referências de vinho, incluindo dezenas de Portos, fazem deste sítio um caso sério. O bife à Chapa 7, prato de assinatura, é a escolha segura se o marisco não for o seu forte. Não é barato, é marisco, não há milagres, mas a qualidade é consistente.
Para petiscar sem cerimónia
Nem todo o almoço precisa de ser uma produção. A TasCÁ é uma tasca moderna no centro que faz petiscos bem executados sem pretensões. Bom para uma cerveja ao fim da tarde com umas pataniscas ou uns peixinhos da horta. O Dois Petiscos segue a mesma lógica, porções para partilhar, conta amigável, zero formalidade.
Se prefere algo mais contemporâneo, o OH!VARGAS tem uma abordagem mais urbana à cozinha portuguesa, com boas opções vegetarianas (raridade nesta terra de carne e enchidos).
Os doces que ninguém vos conta
A Pastelaria Bijou está aberta desde 1946 e é onde os santarenos vão buscar pampilhos. Este é o doce regional por excelência, um rolo fino de massa com recheio de gemas e canela que homenageia a cultura campina. Não é bonito, não é instagramável, é simplesmente bom. A Pastelaria Rei e a Panitejo também os fazem, mas o Bijou é a referência.
Não saia de Santarém sem provar os celestes de Santa Clara, um doce conventual com amêndoa, açúcar, ovos e hóstia fina que é praticamente impossível de encontrar fora da cidade. Os arrepiados, à base de amêndoa e claras, são o outro segredo bem guardado da doçaria local.
O Mercado Municipal: vá de manhã
O Mercado Municipal de Santarém, desenhado pelo arquitecto Cassiano Branco nos anos 30, é bonito por fora, os painéis de azulejo são notáveis, mas o que interessa é o que está dentro. Fruta da lezíria, queijos da região, enchidos, e peixe do rio. Vá entre as 8h e as 11h de um sábado e vai ver a cidade a fazer compras a sério, não turistas a tirar fotos. É o melhor sítio para comprar provisões se estiver alojado na cidade, por exemplo, no Santarem Hostel, que é uma base funcional e económica para explorar a região.
Sopa da pedra: a viagem a Almeirim
Vou ser honesto: a melhor sopa da pedra não se come em Santarém. Come-se em Almeirim, a vinte minutos para sul. É uma excursão que vale a pena, porque em Almeirim a sopa da pedra é instituição, há dezenas de restaurantes dedicados e a competição mantém a qualidade alta. A sopa é uma refeição inteira: feijão, chouriço, morcela, orelha de porco, coentros, batata. Leva literalmente uma pedra quente dentro da tigela, que ajuda a manter tudo a ferver. Duas pessoas partilham uma terrina e saem alimentadas para o resto do dia.
Vinhos do Tejo: o segredo mais mal guardado
A região do Tejo produz vinhos excelentes a preços que fazem chorar quem compra Douro ou Alentejo. Nos restaurantes de Santarém, peça sempre vinho da região, os tintos são encorpados mas bebíveis, os brancos têm frescura que surpreende. Não vou recomendar marcas específicas porque a oferta muda, mas diga ao empregado que quer vinho do Tejo e confie. A relação qualidade-preço é provavelmente a melhor do país.
Quando ir e como chegar
Santarém está a uma hora de comboio de Lisboa (Santa Apolónia ou Oriente), o que a torna perfeita para um dia fora da capital. Mas merece mais, duas noites permitem explorar a gastronomia com calma, visitar Almeirim, e ainda fazer algo como a meditação caminhada na Quinta Carvalhas para digerir tudo.
A melhor altura para ir é outubro, durante a Feira Nacional de Gastronomia, que transforma o Jardim das Portas do Sol num festival de comida regional de todo o país. Mas atenção: a cidade enche, os restaurantes lotam, e os preços sobem ligeiramente. Se prefere calma, setembro ou início de novembro são ideais, o tempo ainda está bom e os restaurantes estão a meio gás.
A Feira da Agricultura em junho é outra opção, mais focada na cultura campina mas com muita comida pelo meio.
O contexto que importa
Santarém faz parte de uma região, Lisboa e Vale do Tejo, que tem muito mais para oferecer do que a capital. Se já explorou a cultura local de Lisboa e os seus bairros, Santarém é o passo lógico seguinte: mesma região, outra realidade. E se está a planear explorar mais a zona, o guia de bairros de Sintra complementa bem um roteiro pela região.
Mas Santarém não precisa de ser complemento de nada. Vá pela comida. Fique pela vista do Tejo ao pôr do sol a partir do Jardim das Portas do Sol. E volte porque uma ida nunca é suficiente para provar tudo.