Santarém Além do Miradouro: O Que Ninguém Lhe Conta
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Santarém Além do Miradouro: O Que Ninguém Lhe Conta

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Santarém fica a menos de uma hora de Lisboa, mas quase ninguém a inclui no roteiro. Erro. Entre igrejas góticas que se visitam sem filas, ensopado de enguias à beira-rio e o maior festival gastronómico do país, a capital do Ribatejo merece mais do que uma paragem de meia hora no miradouro.

Toda a gente que visita Santarém faz a mesma coisa: sobe ao Jardim das Portas do Sol, tira a fotografia ao Tejo com a Lezíria ao fundo, come qualquer coisa num restaurante junto à praça e vai-se embora. Com sorte, espreita a Igreja da Graça. É o roteiro de uma hora e meia, repetido ad nauseam em todos os blogs de viagem. E não está errado, a vista é, de facto, absurda de bonita. Mas Santarém é muito mais do que um miradouro com bom enquadramento para o Instagram.

O problema é que a cidade não se promove bem. Está a menos de uma hora de Lisboa, mas nunca aparece nas listas de "escapadinhas" ao lado de Sintra ou Óbidos. Talvez porque não tem um castelo fotogénico com torres de conto de fadas, nem uma pastelaria com fila à porta. O que Santarém tem é outra coisa: uma densidade de igrejas góticas que envergonha cidades com o triplo do turismo, uma tradição gastronómica que lhe valeu o Festival Nacional de Gastronomia (todos os anos, em outubro), e um rio que definiu séculos de vida local mas que quase ninguém desce para ver.

A Capital do Gótico Que Ninguém Visita a Sério

Santarém autoproclamou-se "Capital do Gótico" e, por uma vez, a designação não é exagero municipal. Numa área que se percorre a pé em vinte minutos, há meia dúzia de igrejas góticas que mereciam cada uma o seu próprio folheto turístico.

Comece pela Igreja da Graça, no Largo Pedro Álvares Cabral. É aqui que está sepultado o homem que "descobriu" o Brasil, ou pelo menos é o que diz a tradição, e a placa confirma. A rosácea da fachada é uma das mais elaboradas do gótico português. Lá dentro, o silêncio e a luz filtrada fazem o trabalho que nenhuma audioguia consegue.

Depois, desça à Igreja de São João do Alporão, que hoje funciona como núcleo museológico. O edifício mistura elementos românicos e góticos, e no interior encontra-se o túmulo de Duarte de Meneses, ou melhor, um dente dele, que segundo a lenda foi a única coisa que restou após a batalha em que morreu no Norte de África. É o tipo de detalhe macabro que nenhum guia turístico deveria omitir.

Mas a peça de resistência, para mim, é o Convento de São Francisco. A igreja do convento é considerada a maior sala gótica de Portugal, três naves amplas que, mesmo em ruína parcial, transmitem uma escala que surpreende. Está fora do circuito principal e, numa visita numa terça-feira de manhã, é provável que esteja sozinho lá dentro.

Desça ao Rio: Alfange e Ribeira de Santarém

Aqui está o verdadeiro teste de quem quer conhecer Santarém a sério: descer do planalto onde se concentra o centro histórico até à beira do Tejo. A maioria dos visitantes nunca o faz, porque o declive é íngreme e porque ninguém lhes diz que vale a pena.

O bairro de Alfange, encostado ao rio, tem um ritmo completamente diferente do centro. Casas baixas, roupa estendida, gatos que atravessam a rua sem pressa. Não é pitoresco de postal, é real, e é exactamente por isso que interessa. A Ribeira de Santarém, ligeiramente mais a norte, mantém vestígios da sua importância histórica como porto fluvial. Nos séculos XIII e XIV, era daqui que partia boa parte do comércio ribatejano.

A cerca de cinco quilómetros do centro, a aldeia de Caneiras merece o desvio. É uma das últimas aldeias avieiras do Tejo, comunidades de pescadores que construíam casas de madeira sobre estacas, com tradições próprias que pouco têm a ver com o resto da região. Algumas dessas casas ainda existem, pintadas em cores vivas, e a aldeia mantém um ar de fim-do-mundo que contrasta com a proximidade à cidade.

Se procura uma forma diferente de se ligar a esta paisagem ribatejana, a Meditação Caminhada na Quinta Carvalhas oferece exactamente isso, um percurso a pé num ambiente rural nos arredores de Santarém, sem a pressão de um roteiro turístico convencional.

Comer em Santarém: Esqueça os Menus Turísticos

A gastronomia é, talvez, a melhor razão para vir a Santarém, e a mais ignorada pelo visitante de passagem que almoça uma sopa e um bife no primeiro restaurante que encontra.

O prato que define a cidade é o ensopado de enguias. Não é bonito, uma mistura densa de enguia cozinhada com cebola, tomate, pimento, vinho branco e ervas aromáticas, servida sobre fatias de pão frito. Parece comida de pescador (e é), mas tem uma profundidade de sabor que surpreende. Procure restaurantes que o sirvam como prato do dia, não como curiosidade turística, a diferença é abismal.

Outros pratos que vale a pena encomendar: a açorda de sável (quando é época, entre janeiro e abril), a sopa de peixe do rio, e a cachola de porco. São pratos de tradição ribatejana, robustos e sem pretensões. Não espere apresentações de fine dining, espere sabor.

Para os doces, Santarém tem uma tradição conventual que rivaliza com qualquer cidade do país. Os queijinhos do céu são provavelmente os mais conhecidos, pequenos doces de amêndoa e ovos que parecem simples mas exigem mão certa. Os celestes de Santa Clara e os pampilhos (bolos rectangulares com recheio de ovos e canela) são igualmente bons e mais difíceis de encontrar fora da região. Procure-os nas pastelarias do centro, não nos restaurantes.

Quem se interessa pela tradição doceira da região de Lisboa e Vale do Tejo encontra em Santarém um capítulo à parte, menos turístico que Belém, mais autêntico que a maioria.

O Festival Nacional de Gastronomia

Se puder escolher a data, venha em outubro. O Festival Nacional de Gastronomia acontece anualmente no Campo Infante da Câmara e é, sem exagero, o evento gastronómico mais importante do país que não acontece em Lisboa. Restaurantes de todas as regiões portuguesas montam bancas, há demonstrações de cozinha e, sobretudo, come-se muito e bem a preços razoáveis. É também a melhor forma de ver Santarém cheia de vida, durante o resto do ano, a cidade pode parecer adormecida.

Onde Ficar e Como Chegar

Santarém não tem uma grande oferta hoteleira, o que é parte do seu charme e parte do seu problema. Para quem procura uma base acessível e bem localizada, o Santarem Hostel é uma opção prática no centro da cidade, ideal para quem quer explorar tudo a pé sem gastar uma fortuna em alojamento.

De comboio, a ligação desde Lisboa-Santa Apolónia ou Lisboa-Oriente demora cerca de uma hora nos serviços regionais. A estação de Santarém fica na parte baixa da cidade, junto ao rio, o que significa que terá de subir (a pé ou de táxi) até ao centro histórico. De carro, são cerca de 80 km pela A1, estacionamento gratuito é relativamente fácil de encontrar nas ruas à volta do centro.

Um dia chega para o roteiro turístico padrão. Mas se quer fazer a versão completa, igrejas, rio, gastronomia, dois dias são o mínimo. E, honestamente, a cidade merece-os.

Santarém no Contexto: O Que Está à Volta

Uma das vantagens de Santarém é a sua posição central. A Lezíria ribatejana estende-se para sul, com campos de arroz, cavalos e touros, é o coração da cultura campina portuguesa. Almeirim, a cidade vizinha, é famosa pela sopa da pedra, e vale a parada para almoço.

Para quem está a construir um roteiro pela região de Lisboa e Vale do Tejo, Santarém funciona bem como contraponto às escolhas mais óbvias. Já conhece Sintra? Se sim, considere trocar o próximo regresso por algo diferente, o nosso guia de bairros de Sintra ajuda a explorar os cantos menos batidos, mas mesmo assim, Santarém oferece um contraste radical. Aqui não há turistas com selfie sticks nem filas de duas horas. Há pedra gótica, comida de tradição e uma relação com o rio que a maioria das cidades portuguesas já perdeu.

Da mesma forma, se está a explorar a cultura local de Lisboa e quer perceber como vivem os portugueses fora da capital, uma tarde em Santarém diz mais do que uma semana em bairros já gentrificados.

O Que Realmente Interessa

Santarém não precisa de ser salva pelo turismo, precisa é de ser visitada por quem a merece. Não é uma cidade para quem quer tick boxes numa lista. É para quem quer sentar-se numa esplanada na Praça Sá da Bandeira às onze da manhã, pedir um café e um pampilho, e perceber que a velha senhora da mesa ao lado está a fazer exactamente o mesmo há quarenta anos.

É para quem quer entrar numa igreja gótica sem bilhete, sem fila, sem audioguia, e sentir o peso de setecentos anos de pedra sobre a cabeça. É para quem quer descer ao Tejo, ao bairro de Alfange, onde o rio corre devagar e as casas parecem ter crescido do chão sem pedir licença a ninguém.

Não é espetacular. É melhor que isso, é genuíno.

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