Santarém à Mesa: Onde os Locais Comem de Verdade
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Santarém à Mesa: Onde os Locais Comem de Verdade

· · Santarém

Santarém é a capital da gastronomia portuguesa desde 1980, mas os melhores sítios para comer não estão nos guias. Do torricado na Casa dos Torricados aos grelhados do O Fábio, passando pela Taberna do Quinzena com quatro gerações de história, este é o roteiro para comeres como um local.

Santarém autointitula-se capital da gastronomia portuguesa desde 1980. Normalmente, quando uma cidade se atribui um título desses, é publicidade exagerada. Neste caso, não. Santarém é provavelmente o único sítio em Portugal onde podes entrar num restaurante às cegas, apontar para qualquer prato do menu e sair satisfeito. O problema é que a maioria dos visitantes nunca chega aos sítios certos, ficam presos nas esplanadas do centro histórico a comer bifanas genéricas enquanto os locais almoçam duas ruas abaixo por metade do preço.

Isto é o guia para comeres como quem vive aqui.

O Torricado: O Prato Que Ninguém Conhece (e Devia)

Se só puderes comer uma coisa em Santarém, esquece a sopa de pedra, essa é de Almeirim, e os escalabitanos fazem questão de te corrigir. O prato de Santarém é o torricado. Na sua forma mais pura, é pão de trigo grelhado sobre brasas, esfregado com alho, encharcado em azeite e coberto com ingredientes da região: bacalhau desfiado, sardinhas, enchidos. Era a refeição dos trabalhadores do campo ribatejano, comida de sobrevivência que se transformou em conforto.

A Casa dos Torricados, perto do Mercado Municipal, pegou nesta tradição e deu-lhe dignidade sem a transformar em fine dining. Servem o torricado clássico com bacalhau, mas também versões com polvo, porco preto e alheira. Os preços são acessíveis e as porções generosas, confirma localmente os valores exactos, mas conta com uma refeição completa por menos de 15€.

Taberna do Quinzena: Quatro Gerações de Fazer a Mesma Coisa Bem

Se existe um restaurante em Santarém que define o conceito de "onde os locais comem", é a Taberna do Quinzena. Está na família de Fernando Batista há quatro gerações. Quatro. Quando um negócio sobrevive assim tanto tempo numa cidade pequena, não é por acaso, é porque a qualidade é consistente e os preços justos.

O ambiente é de tasca a sério: mesas apertadas, barulho, televisão ligada, vinhos da região servidos em jarros. A carta muda conforme o que há de bom no mercado, mas espera pratos de carne, borrego, vitela, porco, cozinhados de forma directa, sem floreados. Aqui ninguém te vai servir uma redução de qualquer coisa com espuma de coisa nenhuma. O que vais encontrar é um prato com porções sérias, sabor honesto e um preço que te faz perguntar como é que em Lisboa pedem o triplo pelo mesmo.

Vai ao almoço. Ao jantar também é bom, mas ao meio-dia é quando apanhas os trabalhadores locais, os advogados do tribunal, o tipo de multidão misturada que te diz que o sítio é genuíno.

O Mercado Municipal e a Arte de Comprar Bem

Antes de comer fora, faz o que os escalabitanos fazem: passa pelo Mercado Municipal. Não é particularmente bonito nem instagramável, e é exactamente por isso que funciona. As bancas vendem fruta do Ribatejo, queijos da região, enchidos de produção local. Se trouxeres um canivete e um bocado de pão, tens um almoço por dois ou três euros sentado num banco do Jardim da Liberdade com vista para a lezíria do Tejo.

O mercado funciona de manhã, chega antes das 11h, porque depois das 12h as melhores bancas já fecharam.

O Fábio: Para Carnívoros Sem Complexos

Perto do mercado, na Rua Dr. Jaime Figueiredo, o O Fábio é o tipo de restaurante que não existe em guias turísticos e que provavelmente nunca terá página de Instagram. As porções são absurdamente generosas, os grelhados são a especialidade, e os preços fazem-te duvidar se a conta está certa. Se gostas de carne e não tens paciência para menus degustação, é aqui.

Pede o que o vizinho do lado está a comer. A sério, é a melhor estratégia em sítios como este. Se parecer bom na mesa ao lado, vai ser bom na tua.

Doces Conventuais: O Segredo Mais Bem Guardado do Ribatejo

Portugal é obcecado com doçaria conventual, e com razão. Mas enquanto toda a gente vai a Belém ou a Tentúgal, poucos pensam em Santarém, o que é um erro. Os conventos de Santarém produziram durante séculos receitas que sobreviveram à extinção das ordens religiosas e chegaram às pastelarias locais.

Procura os Queijinhos do Céu (não são queijo, são doces de amêndoa e ovos, com uma textura que lembra queijadas em miniatura), os Celestes de Santa Clara e o Pampilho. Em qualquer pastelaria do centro vais encontrar pelo menos dois destes. Os Arrepiados de Almoster, da vila vizinha com o mesmo nome, também aparecem com frequência e valem cada caloria. Se a doçaria conventual te fascina, o nosso roteiro de doces tradicionais em Mafra mostra como esta tradição se estende por toda a região de Lisboa.

O Balcão: Para Quem Quer Surpreender-se

Se a Taberna do Quinzena é tradição pura, o O Balcão é o seu contraponto contemporâneo. O chef Rodrigo Castelo trabalha com ingredientes locais, especialmente peixes de rio do Tejo, e faz algo que poucos restaurantes na região tentam: dar protagonismo a produtos frequentemente ignorados da cozinha ribatejana. Não é caro para o que oferece, e a abordagem é menos "cozinha de autor" e mais "cozinhamos o que o rio e a terra nos dão, mas com atenção".

Reserva. O espaço é pequeno e os locais já descobriram o sítio.

Sopa da Pedra: A Verdade Sobre o Prato Mais Famoso da Região

Vou ser honesto: a sopa da pedra é de Almeirim, não de Santarém. São cidades vizinhas, a cerca de 10 minutos de carro, e os almeirinenses ficam genuinamente irritados quando confundes as duas. Dito isto, encontras boas versões em Santarém, mas se queres a experiência autêntica, vale a deslocação até Almeirim.

É uma sopa densa de feijão encarnado com enchidos (chouriço, presunto, orelha de porco, morcela), batata, coentros e, sim, uma pedra no fundo da tigela. A lenda do frade que convenceu aldeões a contribuírem ingredientes para uma "sopa de pedra" é folclore europeu, mas em Almeirim tratam-na como história local e sagrada. Cada restaurante tem a sua versão e jura que a sua é a original.

Onde Ficar e o Que Mais Fazer

Para base em Santarém, o Santarem Hostel é uma opção prática no centro da cidade, ideal se o orçamento for para gastar em comida e não em alojamento, que é francamente a decisão correcta nesta cidade.

Se precisares de descomprimir entre refeições (e vais precisar), a caminhada meditativa na Quinta das Carvalhas é uma forma inesperada de conhecer os arredores da cidade fora do circuito turístico habitual.

Santarém funciona bem como paragem numa viagem mais ampla pela região. Fica a menos de uma hora de Lisboa, e se estiveres a explorar a capital, o nosso guia de cultura e tradições locais em Lisboa complementa bem esta experiência gastronómica com o lado cultural da região.

Quando Ir

Qualquer altura é boa para comer em Santarém, mas se quiseres o evento máximo, o Festival Nacional de Gastronomia acontece em Outubro na Casa do Campino. Durante cerca de dez dias, restaurantes de todo o país montam bancas, há demonstrações de cozinha, concursos e mais comida do que qualquer ser humano consegue processar. É caótico, cheio de gente e absolutamente recomendável.

Fora do festival, os meses de Primavera e início de Outono são ideais, temperaturas agradáveis para caminhar entre restaurantes e a produção agrícola local no pico.

O Veredicto

Santarém não é uma cidade onde vais tirar fotos bonitas para as redes sociais. Os miradouros existem e a vista sobre a lezíria é espectacular, mas não é por isso que deves vir aqui. Vem porque queres comer de verdade, sem pretensão, sem listas de espera de duas semanas, sem menus a 80€. Vem porque um torricado com bacalhau e um copo de vinho tinto do Ribatejo, numa tasca com toalhas de papel, é uma das melhores refeições que vais ter em Portugal. E custa-te menos do que um cocktail no Chiado.

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