Santarém: Museus Que Valem a Pena e os Dispensáveis
Santarém tem um museu diocesano que vale cada cêntimo dos 4€ de entrada, uma torre medieval com entrada gratuita e vista panorâmica, e pelo menos um espaço que provavelmente vai estar fechado quando lá chegar. Aqui fica o roteiro honesto.
Santarém autoproclamou-se capital do gótico português e, para ser justo, não está a exagerar muito. O problema é que esse título grandioso cria expectativas de uma cidade repleta de museus extraordinários, e a realidade é mais interessante, mais estranha, e mais desigual do que isso. Há espaços que merecem uma tarde inteira, outros que se veem em vinte minutos, e pelo menos um que provavelmente vai estar fechado quando lá chegar.
Passei tempo suficiente a percorrer as ruas entre o Largo Sá da Bandeira e o miradouro de São Bento para ter opinião. Aqui fica.
O Museu Diocesano: O Melhor Museu da Cidade, Ponto Final
Se tiver tempo para um único museu em Santarém, vá ao Museu Diocesano. Está instalado na ala norte do antigo Colégio dos Jesuítas, na Praça Sá da Bandeira, um edifício que foi construído sobre as ruínas do Paço Real, o que já diz bastante sobre a ambição do projecto. A igreja cuja construção começou em 1575 e só ficou pronta em 1711 dá o tom: isto não é uma colecção modesta.
O espólio reúne centenas de peças das 111 paróquias da diocese, pintura, escultura, têxteis, ourivesaria e peças litúrgicas que vão do período medieval ao barroco. Não é um museu onde tudo é extraordinário, mas há meia dúzia de pinturas e esculturas que justificam sozinhas a visita. A curadoria é competente e os painéis explicativos existem e são legíveis, o que em Portugal já é um elogio.
Está aberto de segunda a sexta das 10h às 13h e das 14h às 18h, sábados e feriados das 10h às 13h e das 14h às 19h, domingos das 14h às 19h. A entrada custa 4€ para adultos, 3€ para séniores e 2€ para jovens dos 10 aos 17 anos. Crianças até aos 9 não pagam. Para o que se vê, é um preço honesto.
Dica prática: vá de manhã durante a semana. Ao sábado, especialmente durante a Feira de Outubro, pode ficar apinhado de excursões.
Torre das Cabaças: Pequeno, Gratuito e Estranhamente Encantador
A Torre das Cabaças, no Largo Zeferino Sarmento, é uma torre medieval de cerca de 30 metros que fazia parte da antiga muralha e servia como relógio público da cidade. O nome vem das oito cabaças de barro colocadas à volta do sino do século XVII para amplificar o som, uma solução engenhosa e deliciosamente prática.
Lá dentro, o Núcleo Museológico do Tempo ocupa os quatro pisos da torre com uma colecção de relógios antigos e uma explicação sobre a história da medição do tempo. É um museu pequeno, vinte, trinta minutos bastam, mas tem uma qualidade rara: não tenta ser mais do que é. A subida pela escadaria estreita até ao topo recompensa com uma vista panorâmica sobre os telhados de Santarém e a lezíria do Tejo que, num dia limpo, vale mais do que metade dos museus da cidade.
Entrada gratuita. Aberto de quarta a domingo, das 9h às 12h30 e das 14h às 17h30. Fecha à segunda e terça. Se já está na zona do miradouro e tem meia hora, não há razão para não entrar.
Igreja de São João do Alporão: Magnífico Edifício, Museu Incerto
Aqui é onde as coisas ficam complicadas. A Igreja de São João do Alporão, construída no século XII durante a Reconquista, é um dos edifícios mais bonitos de Santarém, uma fusão de elementos românicos e góticos que funciona surpreendentemente bem. Desde 1889 que alberga o Núcleo Museológico de Arte e Arqueologia, com peças de tumulária notáveis, incluindo o túmulo de D. Duarte de Menezes, um dos melhores exemplares do século XV, além de aras romanas e um relógio de sol medieval.
O problema? Encontra-se encerrado temporariamente. E em Portugal, «temporariamente» pode significar seis meses ou seis anos, confirme localmente antes de incluir na sua rota. Mesmo fechado, vale a pena ver o exterior do edifício, que fica na mesma rua da Torre das Cabaças.
Igreja da Graça: Não É Um Museu, Mas Merece Mais Tempo Que Alguns
Tecnicamente, a Igreja de Nossa Senhora da Graça não é um museu. Mas como é o sítio de Santarém que mais turistas visitam por razões culturais, merece menção, e uma opinião honesta.
Construída no século XIV, é monumento nacional desde 1910 e um dos melhores exemplos do gótico flamejante em Portugal. A rosácea da fachada, esculpida num único bloco de pedra, é genuinamente impressionante. No interior, sob o pavimento da capela sul, está o túmulo de Pedro Álvares Cabral e da sua mulher, D. Isabel de Castro. Uma laje de mármore no chão marca o local, é mais modesto do que se espera para o homem que chegou ao Brasil em 1500, mas há algo de autêntico nessa simplicidade.
À frente da igreja, uma estátua de Domingos Soares Branco homenageia Cabral. Se está interessado na história dos Descobrimentos, isto é paragem obrigatória. Se não, a fachada sozinha justifica os cinco minutos de desvio.
Veredicto: vale a pena
A Igreja da Graça não cobra entrada e vê-se em quinze a vinte minutos. Para contexto histórico, é mais interessante do que metade dos museus pagos da cidade.
O Que Pode Dispensar
Santarém tem outros espaços museológicos menores, pequenos núcleos interpretativos associados a igrejas, que variam entre o razoável e o dispensável. A maioria sofre do mesmo problema: informação datada, horários imprevisíveis, e um ar de abandono que desanima. Se o tempo for limitado, concentre-se no Museu Diocesano e na Torre das Cabaças, passe pela Igreja da Graça, e não sinta culpa por ignorar o resto.
Além dos Museus: O Que Mais Fazer em Santarém
Uma das melhores coisas de Santarém é que a cidade não vive só de museus. O miradouro das Portas do Sol oferece uma das vistas mais espectaculares do Ribatejo, o Tejo a serpentear pela lezíria, as hortas, a planície. Leve um café e fique.
Se procura uma experiência diferente fora do centro histórico, a meditação caminhada na Quinta Carvalhas é uma forma surpreendente de desacelerar depois de um dia a percorrer igrejas e museus. Não é para todos, mas se está receptivo, o contraste entre o gótico e o silêncio da quinta funciona bem.
Para dormir, o Santarem Hostel é uma opção prática e central, não espere luxo, mas a localização permite fazer tudo a pé.
Santarém no Contexto: Vale a Viagem?
Santarém não é Lisboa nem Sintra. Não tem a densidade de oferta cultural dessas cidades, se procura isso, o nosso guia sobre a cultura local em Lisboa ou o guia de bairros de Sintra são melhores pontos de partida. Mas Santarém tem algo que essas cidades perderam: escala humana. Consegue ver o essencial num dia sem correr, almoçar com calma, e ainda ter tempo para ficar sentado no miradouro a ver o rio.
A cidade fica a cerca de uma hora de Lisboa de comboio ou carro. Se estiver a explorar a região e tiver interesse por tradições gastronómicas do Ribatejo e arredores, Santarém encaixa perfeitamente numa rota que inclua Mafra ou Tomar.
Roteiro Prático: Meio Dia nos Museus de Santarém
- 9h30: Comece pela Torre das Cabaças assim que abre. Vinte minutos lá dentro, mais dez para apreciar a vista do topo.
- 10h15: Passe pela Igreja de São João do Alporão ao lado, mesmo fechada, o exterior merece atenção.
- 10h30: Caminhe até à Igreja da Graça (cinco minutos a pé). Veja a rosácea, o túmulo de Cabral, saia.
- 11h: Museu Diocesano. Reserve pelo menos uma hora, hora e meia se gostar de arte sacra.
- 12h30: Almoço. Procure um restaurante na zona do Largo Sá da Bandeira e peça o que a região faz bem: uma sopa da pedra ribatejana ou carne do Ribatejo.
Com este roteiro, vê o que importa sem desperdiçar tempo no que não merece. Santarém recompensa quem escolhe bem, não quem tenta ver tudo.