Vila Real de Santo António: Vinho e Petiscos ao Anoitecer
Vila Real de Santo António não é cidade de passagem. É de ficar: um itinerário hora a hora pelas tascas onde se come atum de cebolada, conservas locais e estupeta com vinho do Alentejo, sem pressa e sem turistas a tirar fotos.
Vila Real de Santo António tem um problema de imagem. Quem passa pela A22 a caminho de Tavira ou de Espanha vê uma cidade de quadrícula pombalina, o rio Guadiana à direita, e segue caminho. Erro. A cidade fundada por ordem do Marquês de Pombal em 1774, e construída em apenas cinco meses, é uma das mais bem desenhadas do país, e tem uma vida nocturna gastronómica que ninguém anuncia em folhetos. É lá que mora a graça: numa rede de tascas, adegas e restaurantes de bairro que abrem às sete da tarde e fecham quando o último cliente decide ir embora.
Este artigo é um itinerário, não uma lista. Comece-o com fome a sério, sapatos confortáveis (a praça é em calçada portuguesa, e ao fim da noite vai sentir cada pedra) e disposição para ficar uma hora a discutir se o atum de cebolada estava melhor há vinte anos. Porque é isso que se faz aqui. Come-se devagar, bebe-se Monte Velho ou um copo de tinto da Tapada do Chaves se houver sorte, e fala-se até às tantas.
Antes de jantar: o ritual do fim de tarde
Em Vila Real de Santo António, a noite começa cedo. Por volta das seis da tarde, especialmente entre Maio e Setembro, o sol bate na fachada amarela da Câmara Municipal e a Praça Marquês de Pombal enche-se de gente que não tem destino. Sentam-se nas esplanadas, pedem uma imperial, ficam. É um ritual que não tem nome oficial mas tem regras: ninguém olha para o telemóvel, ninguém tem pressa, e a conversa é maioritariamente sobre o tempo, futebol, ou quem morreu na semana passada.
Se está em modo turista responsável e quer começar a noite com perspectiva, faça uma escapadela rápida ao Miradouro de Cacela Velha. Fica a cerca de 15 minutos de carro, o pôr do sol sobre a Ria Formosa é dos melhores do Algarve oriental, e tem uma vantagem prática: abre o apetite. Olhar para os bancos de areia ao crepúsculo faz com que a primeira azeitona da noite seja sempre a melhor. Voltar a tempo do jantar é fácil, basta sair de Cacela por volta das oito.
Em alternativa, e se quiser começar a noite no rio em vez de em terra, o passeio de barco ao pôr do sol no Guadiana é uma das poucas experiências organizadas que valem mesmo o dinheiro. Vê-se Ayamonte do lado espanhol, vê-se a barra a abrir-se para o oceano, e desembarca-se com aquela fome justa, a que se cura com vinho e pão.
O que é petisco e o que não é (importante)
Aviso para evitar mal-entendidos: petisco não é tapa. A tapa espanhola é um aperitivo. O petisco português é uma refeição inteira disfarçada de aperitivo. Pede-se uma travessa de carapau alimado, outra de favas com chouriço, mais uma de orelha de porco vinagrete, e ao fim de três pratos já se está a desabotoar o cinto. Em Vila Real de Santo António isto é levado a sério, e por uma razão simples: a cidade está há séculos a meio caminho entre o Alentejo (que manda os enchidos e o pão) e o mar (que manda o atum, a cavala, a amêijoa).
O que deve experimentar, sem desculpas:
- Atum de cebolada: a estrela local, e ainda mais relevante porque Vila Real foi durante décadas a capital portuguesa da pesca e conserva do atum. Procure-o em postas grossas, com cebola caramelizada e um fio de azeite. Se vier desfiado e em pouca quantidade, mude de tasca.
- Conservas de Vila Real: a tradição conserveira nunca morreu de todo. Peça uma tábua com filetes de cavala em azeite e atum em escabeche, com pão de mistura. Cinco euros e meia hora de prazer.
- Carapaus alimados: grelhados, depois marinados em alho e vinagre. Comem-se frios, com batata cozida.
- Estupeta de atum: uma salada feita com atum cru curado, tomate, cebola, pimento e azeite. É praticamente uma assinatura do Sotavento Algarvio.
- Amêijoas à Bulhão Pato: não é exclusivo daqui, mas está-se mesmo ao lado da Ria Formosa. Pedir noutro sítio do país é aceitável; pedir aqui é obrigatório.
Sobre vinho: esqueça os pedidos eruditos. A maioria das tascas tem um tinto da casa que custa entre cinco e oito euros a garrafa, e está perfeitamente bem para acompanhar atum. Se quiser melhorar, peça um Monte Velho tinto ou um Esporão Reserva, ambos alentejanos e ambos quase sempre disponíveis. Para vinhos brancos, um Casal Garcia frio com mariscos é cliché por uma razão: funciona.
Onde dormir para fazer isto bem
Esta é a parte prática que ninguém lhe diz: para um itinerário de vinho e petiscos funcionar, não pode estar a conduzir. A cidade é pequena, plana, fácil de andar a pé, e tem alojamento simples e bem localizado. Para quem viaja sem grandes pretensões, mas quer estar a cinco minutos a pé das tascas, The Sun Hostel é uma escolha honesta. Quartos limpos, ambiente descontraído, pessoal que sabe indicar onde se come bem (e onde não), e o preço deixa orçamento para uma garrafa extra de vinho.
Dito isto: se decidir ficar duas noites, e tem feito, divida o tempo. Uma noite na cidade, outra a meia hora dali, em Castro Marim ou em Tavira. A região do Sotavento muda muito em poucos quilómetros e seria pena ver só um lado.
O itinerário, hora a hora
19h00: a primeira paragem é leve
Comece com qualquer coisa pequena. Uma cerveja, duas azeitonas, talvez um pratinho de queijo. A ideia é abrir o apetite, não fechá-lo. As esplanadas em redor da Praça Marquês de Pombal são todas mais ou menos equivalentes a esta hora; escolha uma com sol ainda na cara e fique meia hora.
Não se esqueça: em Portugal, o couvert (pão, manteiga, azeitonas, às vezes paté) não é grátis. Custa tipicamente entre 2 e 4 euros por pessoa. Se não quiser, devolva. Não é falta de educação.
20h00: a verdadeira primeira refeição
Esta é a hora dos petiscos sérios. Procure tascas pequenas, com toalhas de papel, ementa em folha A4 fotocopiada, e televisão ligada num canto. Quanto mais lenta a iluminação, melhor a comida. Peça três ou quatro pratinhos para partilhar entre duas pessoas, uma garrafa de tinto, e fique uma hora e meia.
Sugestão prática: nunca peça tudo de uma vez. Peça dois pratos, prove, e depois decida o resto. Quem chega e atira oito pratos para a mesa fica com comida fria à frente em quinze minutos.
22h00: o segundo tempo
Se ainda tem espaço, troque de sítio. A graça do petisco é precisamente essa: não é uma refeição completa num restaurante, é uma rota. Atravesse duas ou três ruas, encontre outra tasca, peça mais uma coisa. Pode ser ameijoas, pode ser uma tábua de enchidos, pode ser apenas mais uma garrafa de vinho com pão.
23h30: a sobremesa que não está na ementa
Acabe com um café e uma aguardente velha. A maioria das tascas tem uma garrafa de Macieira ou de medronho atrás do balcão. Custa um euro e meio, dois euros, e fecha a noite como deve ser. Se for fim-de-semana, há sempre um sítio aberto até à uma da manhã.
Pequena ronda fora da cidade
A noite é bonita em Vila Real, mas o jantar não tem que começar lá. A meio caminho entre Vila Real e Castro Marim, vale a pena considerar uma noite alternativa: a prova de cervejas artesanais na Senescal Brewery. É uma cervejaria pequena, profissional, com cervejas que ganham facilmente a média do que bebe num bar normal. Para quem está farto de tinto, é uma alternativa real, e Castro Marim, com o castelo iluminado à noite, é um cenário difícil de bater.
Se ficar uma noite extra na região, o passeio até ao interior do Sotavento muda completamente o ritmo. Castro Marim, Alcoutim, e o Guadiana acima são outro Algarve, sem ruído, sem multidões, com uma gastronomia mais terrestre, mais alentejana, mais de caça.
Logística sem dramas
- Como chegar: de carro, A22 até à última saída. De comboio, há ligação directa Faro-Vila Real de Santo António, cerca de 90 minutos, com vista para a Ria Formosa em quase todo o trajecto. Vale o bilhete só pela viagem.
- Onde estacionar: a praça é parcialmente pedonal. Há parques gratuitos na zona ribeirinha, junto à estação fluvial. Cinco minutos a pé até ao centro.
- Quando ir: evite Agosto, é quando a cidade enche e os preços sobem. Maio, Junho, Setembro e Outubro são ideais. O Inverno tem o seu charme, com tascas cheias de habitantes locais e quase nenhum turista, mas algumas casas fecham um dia a meio da semana.
- Quanto custa: uma noite completa de petiscos e vinho para duas pessoas, em tascas locais, fica facilmente entre 35 e 50 euros. Em restaurantes mais formais, conte com 70 a 100 euros.
- Reservas: nas tascas pequenas raramente se reserva, chega-se e espera-se à porta se for preciso. Em restaurantes, vale a pena ligar à tarde.
Se quiser continuar pelo Algarve
Vila Real é uma boa porta de entrada para o Algarve menos óbvio. Se está a fazer uma viagem mais longa, considere completar com uma incursão a Faro, onde a cultura local de Faro tem tradições e vivências bastante próprias, longe da imagem turística da capital algarvia. Para oeste, Lagos é outra cidade que merece tempo: o nosso guia de bairros de Lagos ajuda a navegar a cidade sem cair nas armadilhas habituais. E se viaja com crianças, o detour por Silves vale a pena, e o nosso guia honesto de Silves para famílias diz exactamente o que vale e o que não vale a pena.
Uma última opinião
Vila Real de Santo António não é uma cidade para passar por ela. É uma cidade para ficar uma noite, comer devagar, beber sem pressa, e perceber que o Algarve oriental tem uma identidade própria, diferente da do oeste turístico. Não tem praia de cartaz, não tem hotel de cinco estrelas em frente ao mar, não tem campo de golfe famoso. Tem uma quadrícula pombalina perfeita, um rio que separa dois países, e um conjunto de tascas onde se come melhor por 25 euros por pessoa do que em metade dos restaurantes de Lisboa por 60. Isto não é folclore, é matemática. Vá com tempo, vá com fome, e leve apetite para o pequeno-almoço do dia seguinte. É num pão com queijo da Serra e café no Largo do Mercado que a noite anterior faz finalmente sentido.