Vila Real de Santo António com Pouco: Guia Sem Cortes
Cinquenta euros por dia, a praça pombalina, o miradouro de Cacela ao pôr do sol e camarão fresco do mercado cozinhado no hostel. Três dias em Vila Real de Santo António sem perder o que importa, e sem hipotecar nada.
Há uma ideia preguiçosa de que o Algarve só funciona para quem tem cartão de crédito sem limite. Em Vila Real de Santo António, essa ideia desfaz-se à primeira esplanada: um galão custa o que custa em Bragança, o peixe grelhado no almoço sai por menos de doze euros em vários sítios da Avenida da República, e a praia, essa, continua a ser de borla. A cidade pombalina mais a sul de Portugal, planeada à régua e esquadro pelo Marquês de Pombal em 1774, é uma das poucas no Algarve onde se pode passar três dias sem gastar uma fortuna e sair com a sensação de ter visto qualquer coisa que importa.
Este guia é para quem chega de comboio, de autocarro, ou no carro de um amigo, com cinquenta euros por dia no bolso e a teimosia de não querer comer mal por causa disso. Vou dizer-lhe onde dormir sem hipotecar a casa, onde comer como come quem cá vive, o que ver de graça, e quando vale a pena gastar os quinze euros que farão diferença na viagem.
Como chegar sem gastar o orçamento todo
O comboio regional de Faro até Vila Real de Santo António custa pouco mais de sete euros e demora cerca de hora e meia. É lento, é antiquado, atravessa Tavira e Cacela, e é a melhor forma de chegar. O autocarro da Eva é semelhante no preço. Se vier do Sul de Espanha, o ferry desde Ayamonte custa menos de três euros e atraca mesmo em frente à praça pombalina, o que é provavelmente a chegada mais cinematográfica que existe em Portugal por esse dinheiro.
Uma vez dentro da cidade, esqueça o carro. Vila Real cabe inteira a pé. A grelha pombalina foi desenhada para se andar, e a marginal do Guadiana é plana como uma mesa. Aluguer de bicicleta ronda os dez euros por dia em várias lojas da zona da estação, e é tudo o que precisa para chegar a Monte Gordo, à Mata Nacional, ou à Reserva Natural do Sapal de Castro Marim.
Onde dormir por vinte e poucos euros
Se está com o orçamento apertado, a resposta começa e acaba quase sempre n'The Sun Hostel. É um hostel decente, central, com cozinha partilhada que vai poupar-lhe pequenos-almoços e jantares se quiser, e com aquela qualidade fundamental que distingue os bons hostéis dos maus: as pessoas que lá trabalham sabem onde se come bem por sete euros e dizem-lhe sem inveja. Em época baixa, uma cama em dormitório anda pelos quinze a vinte euros. Em Agosto, suba para vinte e cinco. Reserve com antecedência se vier em Julho ou Agosto, porque o turismo espanhol também sabe contas.
Quem não dispensa quarto privado, há pequenas pensões na zona do Centro Comercial Apolo e na Rua de São Sebastião que cobram entre quarenta e cinquenta euros pelo duplo em época baixa. Não são luxo, são camas honestas com pequeno-almoço básico. É o que precisa.
O pequeno-almoço que custa três euros e o resto
O pequeno-almoço de pasteleria local, com café, sumo e tosta mista ou meia torrada com manteiga, sai por menos de quatro euros em qualquer pastelaria da Praça Marquês de Pombal. Evite os cafés directamente na praça com vista para o pelourinho, onde o preço sobe um euro pela vista. Vá uma rua mais para dentro: o café é o mesmo, vem da mesma máquina, e o pão é o mesmo padeiro a entregar.
Para almoço, a regra é simples: prato do dia. Quase todos os restaurantes da Avenida da República e das ruas paralelas servem pratos do dia entre oito e doze euros, com sopa, prato e café incluídos. Peça o peixe do dia se houver, especialmente se for safio, sardinha em época, ou besugo. Em alternativa, há sempre cataplana de tamboril ou de marisco em versão individual em alguns sítios por menos de quinze euros: pergunte antes de se sentar.
Para jantar barato a sério, faça o que fazem os locais: vá ao mercado municipal antes das treze horas, compre meio quilo de camarão da costa, um maço de coentros, alho, um pão alentejano, e cozinhe no hostel. Quinze euros para duas pessoas, e come-se melhor do que em metade dos restaurantes da marginal.
O que ver de graça (que é quase tudo)
A grande verdade de Vila Real é que a cidade em si é o monumento. A Praça Marquês de Pombal, com o seu pavimento radial em calçada preta e branca à volta do obelisco, foi desenhada para impressionar e ainda impressiona. Pode passar lá uma manhã inteira sem gastar nada, a observar como a luz muda nas fachadas brancas com cercaduras ocres das casas pombalinas. À tarde, o sol entra pela praça num ângulo que faz tudo parecer um cenário cinematográfico de Wim Wenders.
A Igreja Matriz, a Capela de Nossa Senhora da Encarnação, e o Centro Cultural António Aleixo (na antiga Casa do Despacho) são todos de entrada gratuita ou quase. O Museu Manuel Cabanas, dedicado ao mestre xilogravador local, costuma ter entrada simbólica, e é uma das melhores visitas que pode fazer na cidade se gostar de arte gráfica. Confirme horários localmente, porque mudam consoante a estação.
A marginal do Guadiana é gratuita e infinita. Caminhe até ao forte de Santo António da Anta da Areia, depois suba para a Mata Nacional das Dunas Litorais, que é um pinhal manso plantado em areia onde se pode fazer um piquenique sem ver mais de três pessoas em hora nenhuma do dia.
A praia de Monte Gordo, a sério
Monte Gordo fica a quatro quilómetros e tem o melhor areal da zona oriental do Algarve: largo, plano, virado a sul. Vá a pé pela ciclovia ou apanhe o autocarro local que custa pouco mais de dois euros ida e volta. A praia é gratuita, óbvio. O que custa é o chapéu e a espreguiçadeira, oito a dez euros por dia em época alta. Solução: leve toalha grande, chapéu seu, e instale-se a meio do areal, longe dos restaurantes. A areia em Agosto às onze da manhã ainda tem espaço.
Para almoço de praia, a opção barata é levar uma sandes feita em casa do hostel e uma garrafa de água. A opção média é entrar num dos snack-bares de segunda linha (não os primeiros à beira-mar) e pedir uma sardinha assada com salada, oito euros e uma cerveja.
O passeio que vale o desvio: Cacela Velha
Cacela Velha fica a quinze quilómetros e o autocarro custa cerca de três euros ida. Ou alugue uma bicicleta e faça o caminho pela ciclovia, que é plano e bonito. Cacela Velha é um aldeão com uma fortaleza, uma igreja, dois ou três cafés, e o Miradouro de Cacela Velha, que é provavelmente o melhor terraço gratuito do Algarve oriental. De cima, vê-se a Ria Formosa a fazer braços de água a perder de vista, com a ilha da Fábrica como uma virgula no meio. Vá ao fim da tarde. Leve uma cerveja comprada no café local, três euros, e fique até o sol pousar atrás de Tavira.
No verão, há quem desça a pé até à praia da ilha, atravessando a maré baixa a vau. Pergunte localmente sobre as horas das marés antes de tentar. É gratuito, é selvagem, e é um dos poucos sítios do Algarve onde ainda se sente o que era a costa antes do betão.
Quando vale a pena gastar mais
Há duas coisas em Vila Real que justificam abrir os cordões à bolsa. A primeira é o Passeio de Barco ao Pôr do Sol em Vila Real de Santo António. Custa o que custa, mas é a única forma de ver a cidade do lado do rio com a luz da hora dourada a derreter as fachadas pombalinas. Para um casal a fazer férias com pouco, é o gasto único que vão recordar dentro de cinco anos. Os outros não.
A segunda é a Cerveja Artesanal na Senescal Brewery em Castro Marim. Castro Marim fica a quatro quilómetros, sobe-se a pé em quarenta minutos pela ciclovia, e a cervejaria local serve cerveja artesanal honesta, com tábuas para acompanhar, em ambiente sem pretensão. Não é o sítio mais barato para beber, mas é o sítio mais interessante a vinte minutos de Vila Real, e o ticket médio fica abaixo do que se gasta numa esplanada turística da marginal.
Os erros que vão dar cabo do orçamento
Não almoce na primeira fila da marginal a pensar que é tudo igual. Não é. Os restaurantes com vista directa para o rio cobram entre três e cinco euros a mais pelo mesmo prato que se serve duas ruas para dentro. Veja onde estão sentados os trabalhadores das obras à uma da tarde: é lá que se come.
Não compre água em garrafa pequena nas lojas da praça. Há dois supermercados a cinco minutos a pé onde a água sai a um terço do preço.
Não alugue carro só para ir a Tavira ou Castro Marim. O comboio para Tavira custa pouco mais de dois euros, e Castro Marim faz-se de bicicleta ou de autocarro local. Carros em Agosto custam cinquenta euros por dia: poupe esse dinheiro para o jantar do último dia.
Para ler antes de ir
Se vai prolongar a viagem para outras paragens algarvias, vale a pena ler com calma três coisas que escrevemos sobre a região e que mudam a forma como se anda por cá. O nosso guia sobre cultura local em Faro ajuda a perceber porque é que o Algarve oriental, este onde está, é diferente do das brochuras. O guia de bairros de Lagos serve para quando quiser ver o outro extremo da costa sem cair nas armadilhas habituais. E se viaja com miúdos, o nosso guia honesto de Silves para famílias é a única coisa decente que encontrará em português sobre o assunto, escrita por quem efectivamente pôs lá os pés.
O que levar para casa por menos de dez euros
Esqueça os ímans de plástico. No mercado municipal, compre uma garrafa de medronho local, sete a oito euros, ou uma lata de atum em conserva da Comur ou similar, três a quatro euros. Numa das mercearias antigas da Rua Teófilo Braga, leve um pacote de figos secos com amêndoa por menos de cinco euros. É comida de verdade, é local, é o que as avós portuguesas mandam aos netos emigrados, e custa menos do que um café em qualquer aeroporto.
Três dias, cento e cinquenta euros, sem mentir
Faça as contas: duas noites no hostel, quarenta euros. Três pequenos-almoços a três euros, nove euros. Três almoços a dez euros, trinta euros. Dois jantares cozinhados, dez euros por pessoa, vinte euros. Uma ida a Cacela Velha, dez euros entre transporte e cerveja. Uma cerveja em Castro Marim, dez a quinze euros. O passeio de barco ao pôr do sol, vinte e cinco a trinta euros. Resto para imprevistos.
Está perto dos cento e cinquenta. Pode chegar aos cento e oitenta se beber mais cerveja, ou aos cento e vinte se cozinhar todos os jantares. Em qualquer dos casos, sai daqui sem ter perdido nada do que importa: a praça, a luz, a Ria Formosa de cima, o Guadiana ao entardecer, e um par de pratos honestos que vão lembrar-lhe que o Algarve não é só Vilamoura.
Vila Real de Santo António não é a cidade mais glamorosa do Algarve. É talvez por isso que ainda funciona para quem viaja com pouco. Aproveite enquanto assim for.