Vila Real Além do Mateus: Jardins e Miradouros Secretos
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Vila Real Além do Mateus: Jardins e Miradouros Secretos

· · Vila Real

Toda a gente conhece o Palácio de Mateus, mas Vila Real esconde 130 hectares de jardim botânico gratuito, um miradouro de 1871 quase sempre vazio, e os melhores covilhetes de Trás-os-Montes. Saia da avenida principal e desça ao rio.

Toda a gente conhece o Palácio de Mateus. Está na garrafa de rosé, nos postais, no imaginário colectivo de quem nunca pôs os pés em Vila Real. E não é que não mereça a visita, porque merece. Mas se a sua experiência de Vila Real se limitar ao palácio e ao caminho de volta para a autoestrada, está a perder uma cidade que vive num socalco dramático entre dois rios, com jardins centenários, um dos maiores jardins botânicos da Europa e miradouros que fazem esquecer qualquer palace garden.

O Miradouro da Vila Velha: Onde Tudo Começou

Comece pelo princípio. A Vila Velha é o bairro mais antigo de Vila Real, e no seu extremo, onde a terra acaba e começa o despenhadeiro, existe um jardim público desde 1871. O Miradouro da Vila Velha é daqueles sítios que os vila-realenses conhecem desde miúdos e que os visitantes raramente encontram, porque ficam presos na Avenida Carvalho Araújo sem saber que basta descer umas ruas.

O que encontra: árvores centenárias que formam uma espécie de catedral verde, uma estátua de Camilo Castelo Branco ao centro (nasceu aqui perto, em Sabrosa), e uma vista que explica porque é que alguém decidiu fundar uma cidade neste preciso sítio. Daqui vê-se a confluência dos rios Corgo e Cabril, lá em baixo, num vale profundo que corta a paisagem como uma ferida verde. Ao final da tarde, com a luz a dourar as encostas do outro lado, é dos melhores miradouros do Norte de Portugal. E está quase sempre vazio.

Dica prática: vá ao final do dia, traga algo para beber, e fique. Não há café no miradouro, mas a descida até lá é curta a partir do centro. É gratuito e está sempre aberto.

O Parque do Corgo: 33 Hectares no Coração da Cidade

Se há algo que distingue Vila Real de outras cidades transmontanas do mesmo tamanho é o Parque do Corgo. São 33 hectares de espaço verde ao longo das duas margens do Rio Corgo, inaugurados em 2005, e que transformaram completamente a relação da cidade com o seu rio. Antes, o vale do Corgo era uma espécie de terra de ninguém entre as duas partes da cidade. Hoje é onde toda a gente vai correr, passear o cão, ou simplesmente sentar-se.

O parque tem caminhos pedestres que serpenteiam ao longo da água, moinhos antigos restaurados, zonas de piquenique com churrasqueiras (sim, é permitido), piscinas municipais ao ar livre no verão, e cafés com esplanada. Mas o melhor é mesmo o percurso junto ao rio, onde se passa de paisagem urbana para mata densa em cinco minutos. De manhã cedo, antes das nove, o parque é só seu e de meia dúzia de corredores.

O Parque do Corgo liga-se ao Parque Florestal, criado nos anos 60, com mais 38 mil metros quadrados de mata. O percurso combinado dos dois parques dá facilmente para uma caminhada de hora e meia sem repetir caminhos. Leve ténis confortáveis: os trilhos junto ao rio podem ser irregulares.

O Jardim Botânico da UTAD: O Gigante que Ninguém Visita

Este é, possivelmente, o segredo mais mal guardado de Vila Real. O Jardim Botânico da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro tem 130 hectares. Cento e trinta. Para dar perspectiva, o Jardim Botânico de Lisboa tem sete. Espalhadas por este território imenso estão cerca de mil espécies de plantas, incluindo colecções de espécies nativas portuguesas que são referência a nível europeu.

A entrada é gratuita. Leia outra vez: 130 hectares de jardim botânico, entrada gratuita. Está aberto todos os dias excepto domingos. Há um Centro de Acolhimento onde pode pedir mapas e informação sobre os percursos. Visitas de grupo podem ser agendadas com antecedência através do site da UTAD.

Não espere um jardim formal com canteiros simétricos. Isto é quase uma reserva natural dentro de um campus universitário. Há zonas de floresta autóctone, colecções temáticas, e recantos onde pode passar uma hora inteira sem cruzar outra pessoa. Para quem gosta de fotografia, é um paraíso. E por falar em fotografia, se quiser levar a experiência mais longe, o Tour Fotográfico no Douro com partida de Vila Real é uma forma excelente de explorar a paisagem envolvente com olhos de profissional.

Como chegar ao Jardim Botânico

Fica na Quinta de Prados, campus da UTAD, a cerca de 10 minutos de carro do centro da cidade. Pode ir de autocarro urbano, mas de carro é mais prático para explorar o jardim todo. Estacionamento gratuito no campus.

A Avenida Carvalho Araújo e os Seus Segredos

A avenida principal de Vila Real não é propriamente um jardim, mas merece menção porque é o eixo de tudo. Larga, com calçada tradicional e casas quinhentistas com janelas manuelinas de um lado, a Sé Catedral do outro. A Sé, antiga Igreja de São Domingos, foi fundada em 1421 por monges vimaranenses e só se tornou catedral em 1922, quando Vila Real ganhou diocese própria. Por fora é sóbria, quase austera. Por dentro, os capitéis góticos merecem atenção.

Mais adiante, a Capela Nova, também conhecida como Igreja dos Clérigos, foi desenhada por Nasoni, o mesmo arquitecto da Torre dos Clérigos do Porto. A fachada barroca é inconfundível. Se está a planear viagens de um dia a partir do Porto, Vila Real é uma opção que muita gente esquece, a pouco mais de uma hora pela A4.

Comer em Vila Real: Os Covilhetes e Tudo o Resto

Não se pode escrever sobre Vila Real sem falar de covilhetes. Estas empadas de carne, originalmente cozidas em formas de barro preto de Bisalhães (olaria tradicional da região, hoje classificada pela UNESCO), são o ex-líbris gastronómico da cidade. A tradição liga-se às festas de Santo António e ao Senhor do Calvário, mas hoje comem-se o ano inteiro.

A Pastelaria Gomes é a referência incontornável. Foi aqui que Dona Maria da Conceição de Sousa Magalhães Gomes teve a ideia de substituir a massa tradicional por massa folhada, criando a versão que hoje toda a gente conhece. O resultado é uma empada leve, estaladiça, com recheio de vitela bem temperado. Peça os covilhetes e um café. É o pequeno-almoço vila-realense por excelência.

Para além dos covilhetes, não ignore a doçaria conventual: as Cristas de Galo (pastéis de toucinho do céu com uma crosta fina e crocante, herança do Convento de Santa Clara) e os Pitos de Santa Luzia, recheados com doce de abóbora transmontano. Se tiver sorte, encontra cavacórios, outro clássico local.

Nos pratos salgados, Vila Real é terra de cabrito assado com arroz de forno, vitela maronesa, e enchidos que não precisam de apresentação. As alheiras e os salpicões daqui são dos melhores de Trás-os-Montes, o que é dizer muito.

Para Além da Cidade: O Alvão e as Fisgas de Ermelo

A menos de 20 quilómetros de Vila Real, o Parque Natural do Alvão é uma extensão natural de qualquer visita à cidade. As Fisgas de Ermelo, uma cascata que se despenha por 450 metros de desnível escalonado, são um dos espectáculos naturais mais impressionantes do Norte. Pode vê-las de cima e de baixo, dependendo do trilho que escolher. No inverno e na primavera, quando a água corre com mais força, o impacto visual é brutal.

O acesso faz-se de carro até à aldeia de Ermelo, e depois a pé. Os trilhos estão razoavelmente marcados, mas leve calçado de caminhada a sério. Confirme localmente as condições do percurso, especialmente nos meses mais húmidos.

E se o tema das tradições locais o fascina, a experiência de tecelagem de linho em Limões é uma imersão genuína no saber-fazer transmontano, a uma curta distância de Vila Real.

Informação Prática

Como chegar

Vila Real está a cerca de 100 km do Porto, pela A4 (autoestrada transmontana). O percurso demora pouco mais de uma hora. Há também ligações regulares de autocarro a partir do Porto e de outras cidades do Norte. A estação ferroviária mais próxima com ligações frequentes é a do Porto (Campanhã).

Quando ir

A primavera (abril e maio) é ideal para os jardins e o Alvão, com a vegetação no seu melhor e as cascatas com bom caudal. O verão pode ser muito quente em Vila Real (estamos no interior, não se esqueça), mas as manhãs no Parque do Corgo são frescas. O outono traz cores espectaculares ao Jardim Botânico da UTAD. O inverno é frio, mas a cidade tem uma energia própria nos meses mais curtos, especialmente à volta do Natal.

Quanto tempo ficar

Um dia inteiro permite ver o centro histórico, o Miradouro da Vila Velha, o Parque do Corgo e a Pastelaria Gomes. Dois dias permitem acrescentar o Jardim Botânico da UTAD e o Parque Natural do Alvão. Se está a explorar o Norte, Vila Real combina muito bem com uma passagem por Braga ou com o Douro vinhateiro.

Estacionamento

No centro, há parques pagos mas os preços são razoáveis (confirme localmente). Ao fim de semana é mais fácil estacionar na rua. Para o Jardim Botânico e o Alvão, estacionamento gratuito.

Vila Real não compete com Lisboa ou Porto pelo protagonismo turístico, e é por isso que funciona. É uma cidade que recompensa quem sai da avenida principal e desce ao rio, que sobe ao miradouro ao fim da tarde, que pede os covilhetes certos no sítio certo. O Palácio de Mateus é bonito, sem dúvida. Mas a cidade ao lado é melhor.

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