Vila Real: O Que Comprar (e Evitar) nos Mercados
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Vila Real: O Que Comprar (e Evitar) nos Mercados

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As cristas de galo da Pastelaria Gomes, o salpicão fumado em lenha de carvalho, o mel de castanheiro: um roteiro de manhã pelos mercados de Vila Real, com opinião sobre o que vale a pena e o que pode ignorar.

Vila Real não é uma cidade que se venda como destino gastronómico. Não tem a fama do Porto nem a máquina turística de Lisboa. Mas é precisamente por isso que os seus mercados funcionam: vendem para quem lá vive, não para quem anda com um guia na mão. E quando um mercado serve a terra antes de servir o turista, os preços são honestos, os produtos são reais, e ninguém tenta vender-lhe azeite "artesanal" numa garrafa bonita a quinze euros.

Este roteiro é para uma manhã. Uma manhã bem gasta, com paragens estratégicas, algumas compras que valem o peso na mala, e um ou dois erros que lhe poupo.

Primeira paragem: o Mercado Municipal

O Mercado Municipal de Vila Real fica na Rua de Santa Sofia, na zona alta da cidade. O edifício tem fachada em granito e ocupa um quarteirão inteiro entre as ruas de Santa Sofia e Gonçalo Cristóvão. Aberto de segunda a sexta das 8h às 19h e ao sábado das 8h às 13h. Se for ao sábado, chegue antes das 10h. Depois disso, as melhores bancas já arrumaram.

Lá dentro, o mercado divide-se em secções clássicas: talho, peixaria, frutaria, mercearia. Não espere um mercado renovado com bancas de comida de rua e cocktails de gin. Isto é o mercado de uma cidade transmontana de 50 mil pessoas. É exactamente o que deve ser.

O que comprar

Comece pelos enchidos. Trás-os-Montes é, sem discussão, a melhor região de Portugal para fumados e curados. Procure salpicão e alheira. O salpicão transmontano, quando é bom, tem uma textura firme e um sabor a pimentão fumado que não encontra em mais lado nenhum. A alheira, que toda a gente conhece, mas que aqui é feita como deve ser: com pão de centeio, carne de aves e porco, e fumada em lenha de carvalho. Compre directamente aos produtores que trazem os seus produtos ao mercado. Se o vendedor lhe souber dizer de que aldeia vem o enchido e que madeira usou no fumeiro, está no sítio certo.

Mel de castanheiro. Escuro, denso, com um travo ligeiramente amargo que não é defeito, é carácter. A região de Vila Real e Trás-os-Montes produz mel de qualidade excepcional, sobretudo de castanheiro e de urze. Uma jarra pequena custa poucos euros e viaja bem.

Azeite. O azeite transmontano tem Denominação de Origem Protegida e, francamente, quando se prova um bom azeite desta terra, o azeite do supermercado passa a saber a óleo de motor. Procure garrafas simples, sem design premiado. O azeite bom não precisa de marketing.

Castanhas, quando é época (outubro a dezembro). Fora da época, encontrará castanhas secas e farinha de castanha, que são excelentes para levar.

O que provar no mercado

Se alguma banca tiver bôla de carne à fatia, pare. A bôla transmontana é uma espécie de pão recheado com enchidos e carnes, fechado e cozido no forno a lenha. Não é elegante, não é fotogénica. É provavelmente a melhor coisa que vai comer nessa manhã.

O que evitar

As conservas de marca industrial. Encontra-as mais baratas em qualquer supermercado. Não faça como o turista que compra uma lata de sardinha a três euros no mercado porque "é mais autêntico". Não é. É a mesma lata.

Queijos sem identificação clara. Trás-os-Montes não é a Serra da Estrela. Há bons queijos na região, mas se não lhe souberem dizer o nome do produtor ou a origem exacta, passe à frente. Queijo anónimo é arriscado em qualquer mercado.

Segunda paragem: a Pastelaria Gomes

Saia do mercado e caminhe até à Pastelaria Gomes. Isto não é uma sugestão. É uma obrigação.

A Gomes abriu em 1925 e está na terceira geração, com a quarta já envolvida. Quase cem anos a fazer o mesmo, todos os dias, tudo à mão. Catorze pessoas na produção. Até o fondant que cobre os doces é feito de raiz.

Peça cristas de galo. São o doce conventual mais emblemático de Vila Real, criadas pelas freiras do Convento de Nossa Senhora do Amparo, da Ordem de Santa Clara. Têm forma de meia-lua com bordas recortadas que lembram a crista de um galo, recheio de ovos e amêndoa, e uma massa exterior feita com farinha, banha, ovo e sal. Foram eleitas uma das Sete Maravilhas da Doçaria Portuguesa, e com razão.

Peça também covilhetes, que são uma espécie de empada de carne com formato próprio. Salgados, compactos, perfeitos para a meio da manhã.

O que não pedir: o café. Não que seja mau. É simplesmente igual ao de qualquer outro café em Portugal. Peça-o, claro, mas não espere revelações. A revelação está na montra de doces.

Se quiser levar cristas de galo para casa, a Gomes embala-as para viagem. Aguentam um par de dias se não as esmagar na mala. Confirme no balcão.

Terceira paragem: fora do mercado

Vila Real tem uma tradição de comércio de rua e lojas de produtos regionais espalhadas pelo centro. Vale a pena explorar as ruas à volta da Avenida Carvalho Araújo, que é o eixo principal da cidade. Encontrará lojas com mel, licores, doces conventuais e artesanato. Algumas são boas, outras são armadilhas turísticas. A regra é simples: se a loja tem mais ímanes de frigorífico do que produtos alimentares, saia.

Procure cavacórios, outro doce típico de Vila Real que encontrará em várias pastelarias e lojas do centro. E os pastéis de Santa Clara, feitos com massa folhada finíssima e recheio de amêndoa, outro legado conventual que a cidade mantém vivo.

Vinhos do Douro

Vila Real é, geograficamente, a porta de entrada para o Douro vinhateiro. Encontrará vinhos do Douro em praticamente todo o lado, desde o mercado a garrafeiras especializadas. Se não percebe muito de vinhos, peça ajuda. Diga o que gosta, quanto quer gastar, e deixe que lhe recomendem. Um bom tinto do Douro por seis a dez euros é perfeitamente possível e será melhor do que muitas garrafas que custam o triplo em Lisboa.

Se o Douro lhe despertar curiosidade para além da garrafa, considere um tour fotográfico pelo Douro com partida de Vila Real. É uma forma diferente de conhecer os socalcos e as vinhas sem cair no circuito de autocarros.

O que levar para casa (lista prática)

  • Salpicão e alheira do mercado (embalados a vácuo, se possível)
  • Mel de castanheiro, jarra pequena
  • Azeite transmontano DOP, garrafa de meio litro
  • Cristas de galo da Pastelaria Gomes, caixa para viagem
  • Um tinto do Douro entre 6 e 10 euros

Peso total na mala: menos de dois quilos, se for sensato. Valor gastronómico: incalculável.

O que não vale a pena comprar

  • Ginja engarrafada em garrafas de plástico com rótulos genéricos
  • "Artesanato" feito na China com etiqueta de Portugal
  • Queijo sem nome nem origem
  • Conservas industriais a preço inflacionado

Contexto: Vila Real além dos mercados

Vila Real merece mais do que uma manhã. A cidade é ponto de partida para o Douro, para as serras de Alvão e Marão, e para aldeias transmontanas onde o tempo funciona de outra maneira. Se gosta de trabalhos manuais e tradições têxteis, há uma experiência de tecelagem de linho em Limões que vale a deslocação.

Se veio do Porto, já sabe que Vila Real é uma das melhores viagens de um dia a partir da cidade. A autoestrada leva-o lá em pouco mais de uma hora. E se estiver a planear uma rota pelo Norte, Braga é outra paragem obrigatória, com uma personalidade completamente diferente.

Informações práticas

O Mercado Municipal de Vila Real fica na Rua de Santa Sofia, 10. Aberto de segunda a sexta, das 8h às 19h, e ao sábado das 8h às 13h. Encerrado ao domingo. Para a melhor experiência, vá de manhã cedo, especialmente ao sábado.

A maioria dos vendedores aceita pagamentos em dinheiro. Leve notas pequenas e moedas. Alguns já aceitam multibanco, mas não conte com isso em todas as bancas.

Vila Real tem estacionamento razoável no centro da cidade. Se vier de transportes públicos, a Rodonorte liga o Porto a Vila Real com frequência regular.

Uma manhã de mercado em Vila Real não vai mudar-lhe a vida. Mas vai mudar o que tem na despensa. E, honestamente, às vezes isso é suficiente.

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