Miradouro da Vila Velha
Toda a gente vai a Mateus e ninguém vai atrás do cemitério da Vila Velha. É pena: é lá, sobre a confluência do Cabril com o Corgo, que a cidade finalmente se explica. Grátis, sempre aberto, e melhor ao fim da tarde.
O miradouro que ninguém te aponta
Vila Real tem um problema de relações públicas. Toda a gente que passa por aqui é despachada para o Palácio de Mateus, fotografa o lago, compra a garrafa de rosé e segue viagem para o Douro. E fica-se por aí. Ninguém te manda para trás do cemitério da Vila Velha. É pena, porque é exatamente lá que a cidade te mostra porque é que existe.
O Miradouro da Vila Velha fica na Rua Marechal Teixeira Rebelo, código postal 5000-651, na ponta mais antiga da cidade, o bairro que deu origem a tudo isto antes de Vila Real ter esse nome. Chega-se a pé a partir do centro histórico em dez, doze minutos, descendo na direção da igreja de São Dinis e seguindo depois pela rua que ladeia o cemitério. Sim, passas mesmo ao lado das campas. Não, não é mórbido. É simplesmente o sítio onde a antiga povoação se agarrou ao esporão de rocha, entre dois rios, porque era defensável.
O que se vê dali
E é por causa dos dois rios que vale a pena a caminhada. Daqui vê-se a confluência do Cabril com o Corgo, os dois cursos de água que abraçam este promontório e depois seguem juntos vale abaixo. Vila Real foi construída em cima desta cunha de terra precisamente por causa disto, e não há forma melhor de perceber a geografia da cidade do que estar de pé neste ponto, com um rio de cada lado e o vale a abrir-se em frente. Ao fundo, em dias limpos, adivinha-se o recorte das serras. É uma vista que explica a cidade melhor do que qualquer placa turística.
Não esperes bancos de design, cafés com esplanada nem casas de banho. Isto é um miradouro no sentido antigo da palavra: um muro, um resguardo, uma vista. A entrada é livre, não há horário afixado nem bilheteira, portanto podes ir quando quiseres. O meu conselho firme: vai ao fim da tarde. A luz do poente entra pelo vale de frente e transforma a água dos rios lá em baixo. De manhã cedo, no inverno, há a hipótese do nevoeiro assentar sobre a confluência, e aí o espetáculo é outro, mais fantasmagórico. Ao meio-dia de verão, com o sol a pique, perde metade da graça.
Conselhos práticos, sem rodeios
- Calça sapato fechado. O acesso é por ruas antigas em calçada irregular e o terreno junto ao muro não é plano.
- Leva água. Não há nada para comprar ali perto, o café mais próximo fica no centro.
- Não é lugar para deixar o carro. Estaciona no centro histórico e faz o resto a pé, é mais rápido do que parece e a Vila Velha merece ser vista devagar.
- Cuidado com crianças pequenas junto ao muro. Há queda para o vale e nem sempre há guarda de proteção contínua.
- Não precisas de reserva, dinheiro nem código de vestuário. Precisas de pernas e de meia hora.
Como enquadrar a visita
O erro é vir aqui a correr. O certo é combinar o miradouro com uma volta a pé pela Vila Velha, que é a parte da cidade que a maioria dos visitantes nunca chega a pisar. Começa a manhã com um café e um pastel numa mesa da Pastelaria Gomes, atravessa o centro histórico e termina no miradouro para o pôr do sol. É um itinerário que não custa um cêntimo, o que se encaixa bem se estiveres a seguir o nosso guia de Vila Real com pouco dinheiro.
Se ficas a dormir, tens o Hotel Miracorgo debruçado sobre o vale do Corgo, mesmo alinhado com esta paisagem, e o Douro Village Hostel para quem viaja com a carteira mais apertada. Ambos ficam a curta distância a pé da Vila Velha.
Uma nota sobre calendário: se calhares vir a Vila Real em fim de junho, a cidade transforma-se para o Circuito Internacional de Vila Real e o ambiente é o oposto do sossego que encontras neste miradouro. Já para quem procura algo mais tranquilo e enraizado, vale a pena espreitar as Bilíadas e os jogos tradicionais.
O Miradouro da Vila Velha não vai aparecer em nenhuma lista de imperdíveis, e ainda bem. É gratuito, está sempre aberto, não tem fila e mostra-te a única coisa que realmente importa perceber sobre Vila Real: que é uma cidade de dois rios, agarrada a uma rocha, virada para o vale. Vai lá ao fim da tarde, encosta-te ao muro e fica cinco minutos calado. É o melhor negócio da cidade.