Douro Village Hostel
Vila Real
A torre branca que se vê de qualquer ponto alto de Vila Real tem 166 quartos, vista para o Corgo e um restaurante panorâmico. Peça um quarto virado para o vale, almoce lá em vez de jantar e use-o como quartel-general para o Alvão.
O Hotel Miracorgo é daqueles edifícios que se vê de qualquer ponto alto de Vila Real antes mesmo de saber o nome. É a torre comprida e branca que se ergue sobre o vale do Corgo, com varandas alinhadas como teclas de piano viradas para a serra. Não é um hotel boutique, não tenta ser. São 166 quartos, quatro estrelas, uma piscina interior, um ginásio, salas de conferências e um restaurante panorâmico no topo. Funcional, sim. Mas a localização compensa quase tudo o resto.
A morada é Avenida 1º de Maio, 76/78, 5000-651 Vila Real. Estamos no centro histórico, a poucos minutos a pé do Largo do Pelourinho, da Avenida Carvalho Araújo e da Casa de Diogo Cão. Se vier de carro pela A24 (a autoestrada que sobe de Lamego até Chaves), sai-se em Vila Real Sul e o hotel está sinalizado. Para quem chega de comboio na Régua, é meia hora de táxi ou autocarro Rede Expressos a subir a serra do Marão. Há estacionamento próprio, o que em Vila Real não é detalhe pequeno: as ruas do centro são estreitas, com sentidos únicos imprevisíveis, e o lugar grátis é um luxo raro.
O bairro à volta é o coração administrativo e comercial da cidade. À porta do hotel passa a vida normal de Vila Real: o funcionário público a caminho da repartição, o estudante da UTAD a apanhar boleia para o campus, a senhora com o saco da praça. É uma cidade pequena, trabalhadora, e o hotel está exatamente onde uma cidade trabalhadora coloca o seu hotel principal: na avenida.
Peça um quarto virado para o vale. Insista. Os quartos para a Avenida 1º de Maio são confortáveis mas dão para uma rua movimentada, e perdem o que o Miracorgo tem de melhor: a vista sobre o rio Corgo, com o Alvão de um lado e o Marão do outro. Ao amanhecer, com a neblina ainda colada ao vale, vale o preço do quarto. Ao final da tarde, com a luz dourada a bater nas encostas, vale duas vezes.
Os quartos são daquele estilo hoteleiro português dos anos noventa que foi sendo renovado por camadas (não no sentido proibido, no sentido literal: alcatifa nova por cima de paredes antigas). Limpos, espaçosos, com casa de banho funcional. Ninguém vai à Pinterest fotografar a decoração. Mas dorme-se bem, o ar condicionado funciona, e o pequeno-almoço, servido em buffet, é generoso: queijos da região, fumeiro, pão da terra, ovos mexidos quentes e fruta fresca. Coma o queijo. Não coma os croissants industriais.
O restaurante no topo do edifício é o trunfo do hotel e, ao mesmo tempo, o seu maior dilema. A vista é genuinamente espetacular, das melhores de Vila Real, a par com o miradouro de São Domingos. A comida é correta, cozinha tradicional transmontana com algumas concessões à clientela internacional: posta mirandesa, bacalhau, alheira, sobremesas conventuais. Não é um restaurante de destino. É um restaurante de hotel com uma vista de destino.
O meu conselho: vá almoçar lá, não jantar. Ao almoço o preço/qualidade é mais honesto, a luz é melhor para a vista, e fica-se com a noite livre para descer ao centro e comer onde os vila-realenses comem. Ao jantar, o restaurante enche-se de hóspedes em meia-pensão e o serviço sente o peso. Para a sobremesa, a alternativa mais inteligente é descer à Pastelaria Gomes, instituição local onde os pastéis valem o desvio.
Funciona: a localização, o estacionamento, a vista dos quartos pares (peça números altos para apanhar os pisos superiores), a piscina interior aquecida em dias de invernia transmontana, o pessoal da receção, que é vila-realense de gema e responde a perguntas sobre a cidade com paciência genuína. Funciona também o ginásio, pequeno mas suficiente, e o facto de o WiFi ser estável em todo o edifício, o que para um hotel de conferências é o mínimo.
Não funciona tão bem: o ar do edifício, que tem trinta e tal anos e nota-se nos corredores; a iluminação dos quartos, escassa em pontos onde se queria ler; o som entre quartos quando há grupos. Se o hotel estiver cheio de um grupo grande (acontece em fins de semana de congresso), peça quarto longe dos elevadores.
O preço médio anda na faixa €€: cerca de 70 a 110 euros por quarto duplo com pequeno-almoço, dependendo da época. Em pleno verão e nos fins de semana de provas vinícolas no Douro pode subir. Aceitam-se as principais formas de pagamento, o check-in é a partir das 15h e o check-out até às 12h. Reserva direto pelo site hotelmiracorgo.com ou ligue 259 325 001: nas reservas diretas costumam aplicar um pequeno desconto que as plataformas não dão. Para horários atualizados do restaurante e da piscina, confirme diretamente na receção, porque variam com a ocupação.
O Miracorgo serve perfeitamente como quartel-general para explorar Vila Real e o Alvão. A pé, em vinte minutos, faz-se o circuito da Avenida Carvalho Araújo, igrejas e museus do centro. De carro, em vinte minutos chega-se à Casa de Mateus (sim, a do rótulo do vinho). Para preparar passeios fora do óbvio, dois guias úteis são o Vila Real Além do Mateus: Jardins e Miradouros Secretos e o Vila Real com Pouco Dinheiro: O Guia Sem Desculpas, este último útil para equilibrar o orçamento depois do hotel. Se a estadia coincidir com a primavera, vale espreitar a Exposição da Biodiversidade na Casa de Mateus, a meia hora do hotel.
É um hotel para quem quer dormir no centro de Vila Real com vista, estacionamento e serviços completos, sem pretensão de boutique. Casais em escapada de fim de semana, famílias a passar para o Douro ou para o Gerês, executivos em viagem de trabalho, grupos de congresso. Não é para quem procura design contemporâneo nem para quem quer alojamento de personalidade vincada: para isso, há turismos rurais melhores na zona. Mas se a vista, a localização e a previsibilidade contam mais do que a curadoria, o Miracorgo cumpre, e a fotografia da varanda ao amanhecer é o que ficará na memória.