Tomar Para Lá dos Templários: O Lado Que Ninguém Visita
Toda a gente sobe ao Convento de Cristo e vai-se embora antes do jantar. Mas Tomar começa depois das cinco da tarde, quando os autocarros partem e a cidade volta aos tomarenses. Três dias, três quintas, e a Tomar industrial que ninguém visita.
Toda a gente vai a Tomar pelo Convento de Cristo. Sobem a colina, fotografam a Charola, compram um íman com a Cruz de Cristo e regressam ao autocarro. Em quatro horas, voltam a Lisboa convencidos de que viram Tomar. Viram, no máximo, vinte por cento da cidade, e nem sequer foi a parte mais interessante.
Eu venho cá há anos por outra razão: Tomar é uma das poucas cidades portuguesas onde se pode passar três dias sem ver outro turista depois das cinco da tarde. Quando os autocarros partem, a cidade volta a ser dos tomarenses, e os tomarenses têm a mania, simpática, de fazer as coisas devagar. O café demora. A conversa demora. O jantar começa às oito e acaba às onze. Para quem vem de uma cidade onde se almoça em vinte minutos, isto é um choque cultural mais profundo do que qualquer monumento gótico.
A cidade que está abaixo do convento
Comece por inverter o roteiro. Em vez de subir ao convento logo de manhã, suba ao Miradouro do Castelo de Tomar ao fim do dia, por volta das sete da tarde no verão, cinco e meia no inverno. A luz é completamente diferente, os autocarros já se foram embora, e o Nabão lá em baixo brilha cor de chá com leite. Há um banco de pedra debaixo de um pinheiro torcido, à esquerda da muralha exterior, onde costumam estar dois ou três tomarenses mais velhos a conversar. Sente-se a uma distância respeitosa. Ao fim de dez minutos, alguém comenta o tempo. Esta é a forma tradicional de iniciar conversa em Tomar.
Descer do castelo a pé pela Rua Dr. Joaquim Jacinto, em vez de pela rota turística, leva-o por uma série de casas com azulejos do início do século XX, muitas com gatos a dormir no parapeito. É uma rua perfeitamente vulgar para quem aqui vive, e perfeitamente extraordinária para quem chega. Não tem placa, não tem audioguia, não está em lado nenhum, e é isso que a torna interessante.
O bairro da Várzea Pequena, onde os tomarenses comem
A maior parte dos restaurantes do centro histórico vive de turistas que não voltam. A comida não é má, mas também não é o motivo pelo qual deveria ter atravessado meio país. O que se come bem em Tomar come-se na zona da Várzea Pequena e nas tabernas de bairro a leste do rio. Pergunte a um tomarense onde almoça à terça-feira. Garanto-lhe que não é no centro.
O que pedir: fataças do Nabão, quando há, grelhadas com sal grosso e regadas com azeite local. A açorda à pescador, que aqui leva enguia em vez de bacalhau em alguns sítios. As migas ribatejanas, gordas e despudoradas, feitas com pão duro, alho, espinafres e gordura de porco. E, sobretudo, peça a fatia de Tomar, o doce conventual local, e peça-o no fim. Provavelmente vão dizer-lhe que não há, porque a fatia de Tomar verdadeira leva 24 gemas e demora três horas a fazer em banho-maria. Se houver, prove. Se não houver, peça pampilho ribatejano, que é mais comum.
Preço médio de almoço numa tasca de bairro: entre dezasseis e vinte e dois euros com vinho da casa. Jantar à carta num restaurante decente: até trinta e cinco. Acima disso, em Tomar, está a pagar uma decoração, não a comida.
Dormir fora das muralhas
Erro clássico do visitante apressado: reservar um hotel no centro histórico, dormir mal por causa do barulho dos bares na Rua Serpa Pinto, e acordar enfadado. A melhor decisão que pode tomar em Tomar é dormir nos arredores, numa das quintas que orbitam a cidade num raio de quinze quilómetros. A diferença entre acordar com um trator distante e acordar com um Stag-Do inglês a fechar o bar é considerável.
Há três sítios que recomendo sem hesitar, por razões diferentes. A Quinta do Troviscal fica à beira da albufeira do Castelo do Bode, e o pequeno-almoço é servido numa esplanada virada para a água. Vá para lá se quiser nadar antes do café e se gostar de casas com história mas sem pretensão. A Quinta São José dos Montes é mais isolada, com vinha, e tem aquele silêncio rural genuíno que torna o telemóvel um objecto irritante. A Quinta da Ti Júlia é a mais informal das três, mais barata, e é gerida por gente que recebe os hóspedes como se fossem afilhados. Se vai sozinho ou em casal pela primeira vez na região, comece por aqui.
Em qualquer das três, conte com 90 a 140 euros por noite na época baixa, mais em julho e agosto. Reserve directamente sempre que possível. As plataformas levam vinte por cento que sai do bolso dos donos, não do seu.
O Nabão é o segredo industrial
Toda a gente fotografa o Nabão da ponte velha. Quase ninguém o desce. E é uma pena, porque a margem norte do rio, a partir do Parque do Mouchão, é um corredor verde onde se cruza com pescadores de fato-de-treino, mulheres a passear cães enormes, e adolescentes com colunas portáteis a tentar parecer mais velhos. Em maio, com as borboletas, é o melhor sítio para um piquenique. Compre o queijo, o pão e a fruta no Mercado Municipal de manhã. Custa-lhe doze euros para dois e fica melhor do que metade dos almoços de centro histórico.
A roda do Mouchão continua a funcionar e ainda move água, ainda que decorativamente. É um daqueles detalhes que ninguém menciona nos guias mas que define a cidade. Tomar era uma cidade industrial antes de ser uma cidade turística. A Fábrica do Prado, dos lanifícios, dos fósforos. Há vestígios dessa Tomar industrial por todo o lado, se souber para onde olhar: chaminés de tijolo escondidas atrás de prédios novos, casas operárias em fila, nomes de rua que recordam ofícios. Esta é a Tomar que me interessa, mais do que os cavaleiros templários, francamente.
O que fazer com um dia inteiro de sol
Se tem 48 horas e o tempo está bom, divida-as assim: uma manhã para o convento, ok, paga-se a peregrinação e despacha-se cedo, com bilhete comprado online às nove horas para evitar fila. Uma tarde para o castelo e para o miradouro. E um dia inteiro fora da cidade.
Esse dia inteiro pode ser, e eu sugiro fortemente, no ar. A experiência de parapente sobre o coração do Ribatejo não é para todos, mas se nunca voou em parapente em Portugal, este é dos sítios mais bonitos para o fazer. Vê-se o convento de cima, vê-se o Nabão a serpentear, e vê-se quanto verde ainda há por aqui que do chão não se adivinha. O preço ronda os 70 a 90 euros para um voo biplace com instrutor. Reserve com antecedência e leve sapatilhas.
Se preferir continuar com os pés na terra mas longe do trânsito, esta região é generosa em pistas cicláveis. Eu costumo recomendar uma escapada para norte, a Ecopista do Dão de bicicleta entre Viseu e Santa Comba, que se faz num fim-de-semana e que se combina bem com Tomar como ponto de partida ou de regresso. É outra Beira, mais alta, mais granítica, mas a uma distância de carro razoável para quem está a fazer um road trip pelo centro.
Festival dos Tabuleiros: ir ou não ir
Pergunta inevitável. Os Tabuleiros, de quatro em quatro anos, são o evento mais conhecido de Tomar. Vale a pena? Honestamente: se calhar de lá estar, sim, é único na Europa, mulheres a equilibrar tabuleiros de pão da altura delas, ruas cobertas de flores de papel, multidões. Mas é um caos turístico e a cidade triplica de população. Quem vem para conhecer Tomar não deve vir nos Tabuleiros. Quem vem ver os Tabuleiros não está a conhecer Tomar, está a ver uma festa. São duas viagens diferentes.
Se gosta de festas portuguesas mas quer evitar a artificialidade, há outras pelo país que se aguentam melhor à proximidade. Já escrevi um guia honesto sobre a Queima das Fitas de Coimbra que talvez seja útil se anda à procura de algo mais visceral. E para quem quer ver a religiosidade portuguesa em escala épica, sem ilusões, recomendo o guia da peregrinação de Fátima a 13 de Maio. Fátima fica a meia hora de Tomar, e dá para combinar uma manhã de peregrinação com uma tarde tomarense, se calhar nas datas.
Caminhar para clarear a cabeça
Há trilhos nas serras à volta de Tomar, sobretudo a noroeste, na direcção das aldeias do calcário. Não são marcados como em Sintra ou no Gerês, e é melhor levar um GPS ou ir com alguém que conheça. Se precisar de uma ideia para um fim-de-semana caminhante mais formalizado, escrevi sobre os trilhos de abril em Caldas da Rainha, que dá para combinar com Tomar num road trip de quatro dias pelo centro-oeste.
Logística sem romantismo
Tomar tem comboio directo de Lisboa, partindo de Santa Apolónia ou do Oriente, com cerca de duas horas de viagem e custa entre 10 e 14 euros. A estação fica a dez minutos a pé do centro. Não precisa de carro para a cidade. Precisa de carro para os arredores, e sem ele as quintas que mencionei tornam-se complicadas. Alugue no aeroporto e venha directamente, ou apanhe o comboio e alugue cá, mais caro mas viável.
Melhor altura para visitar: maio e junho, antes do calor a sério, com as papoilas ainda no Ribatejo. Setembro e outubro são também excelentes, com luz mais dourada e menos gente. Julho e agosto: evite, faz calor demais e está cheio. Inverno: chove, mas tem encanto, e os restaurantes do centro são mais autênticos quando há só vinte clientes em vez de duzentos.
O que sobra depois de tudo
A cidade que se descobre depois dos templários é mais pequena, mais quieta, e mais habitada. Tem cafés onde o empregado lhe traz o pingo sem perguntar à terceira manhã. Tem um rio com pescadores que sabem o nome dos peixes. Tem uma sinagoga, a mais antiga de Portugal, que é tudo menos espectacular, e por isso mesmo comovente. Tem casas com canários à porta. Tem, num beco que não vou revelar porque seria estragar a graça, um sapateiro que ainda fala de Salazar como se fosse ontem.
Os autocarros voltam todas as manhãs, despejam novos visitantes, levam-nos embora antes do jantar. Tomar continua, indiferente e simpática, à espera de quem lhe der mais do que quatro horas. Dê-lhe três dias. Vai sair com a sensação, rara nos dias que correm, de ter conhecido uma cidade em vez de a ter visitado.