Tomar com Crianças: Guia Honesto para Famílias
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Tomar com Crianças: Guia Honesto para Famílias

· · Tomar

O Convento de Cristo é grande e eles vão querer gelado às 11h. Mas Tomar funciona com crianças, à sua maneira: pão duro para os peixes do Nabão, sombra na Mata dos Sete Montes, e quintas a 15 minutos do centro onde se dorme com silêncio a sério.

Há uma verdade incómoda sobre viajar para Tomar com crianças: o Convento de Cristo, essa maravilha templária esculpida no calcário, é grande, calmo, cheio de corredores onde os ecos amplificam um "estou farto" infantil até soar como uma acusação medieval. E ainda assim, é exatamente aqui que começamos. Porque Tomar funciona com miúdos. Mas funciona à sua maneira, e não à maneira do folheto turístico.

Este não é o guia que vos diz que as crianças vão adorar a janela manuelina. Não vão. Vão querer atirar pedras ao Nabão e comprar gelado às 11h da manhã. A boa notícia é que Tomar, ao contrário de Lisboa ou do Porto, deixa fazer isso sem julgamento, sem multidões a empurrar carrinhos de bebé, e a preços que ainda permitem comer fora sem hipotecar a casa.

Comecem pelo rio, não pelo castelo

Repito porque é importante: comecem pelo rio. O Mouchão, aquela ilha verde no meio do Nabão com a roda d'água e o jardim, é a melhor introdução possível a Tomar para uma criança de cinco anos. Há patos, há sombra, há espaço para correr, e o som constante da água a cair na açuda hipnotiza pais cansados.

Atravessem a ponte velha e estão no centro histórico em três minutos. A Rua Serpa Pinto é estreita, em pedra da calçada, com aquela inclinação suave que cansa adultos mas que crianças não notam. Há uma confeitaria, a Estrelas de Tomar na Praça da República, que faz as tais estrelas, doce conventual com gema e amêndoa, e que serve um pingo decente em copo grande para quem precisa de cafeína antes de enfrentar a próxima negociação sobre o gelado.

O nosso conselho real: não tentem fazer o Convento de Cristo logo no primeiro dia. Esperem por um dia mais fresco ou pela manhã cedo. Crianças e calcário ao sol não combinam.

O Convento, na versão que funciona com miúdos

Quando subirem, façam-no devagar e pela floresta. Há um trilho de terra que sobe pela Mata dos Sete Montes, fresco, com tochas de pedra, fontes manuelinas, e a sombra que o aglomerado urbano não tem. As crianças param a olhar para os lagartos. Vocês param a olhar para a serra. Toda a gente ganha.

Lá em cima, o bilhete custa cerca de 6 euros para adultos, e os menores de 12 anos entram gratuitamente, o que já é meio caminho andado. A Charola, o oratório templário circular, impressiona até quem ainda não sabe ler. É escuro, dourado, e cheira a pedra antiga. Resistam à tentação de explicar a história dos Templários. Deixem-nos olhar. Se perguntarem, respondam. Se não perguntarem, façam silêncio. É a regra de ouro dos museus com crianças.

Depois da visita, e antes que a fome ataque, recomendo subir mais um pouco até ao Miradouro do Castelo de Tomar. As crianças, que estavam fartas das janelas manuelinas, recuperam o entusiasmo imediatamente quando vêem a vila lá em baixo como uma maquete. É grátis, é o melhor sítio para a fotografia obrigatória de família, e há sempre um banco à sombra para alguém sentar enquanto o resto corre.

Onde almoçar sem dramas

Tomar tem aquele tipo de restaurantes familiares onde ninguém olha torto se uma criança deixar cair o copo. Procurem casas que sirvam bochechas de porco preto, arroz de pato com chouriço, ou bacalhau à Brás bem feito, todos pratos que crianças aceitam relativamente bem. Evitem a Rua dos Arcos ao almoço aos sábados, está sempre cheia e mal servida.

O segredo: peçam para partilhar uma dose de adulto entre duas crianças. Em Tomar a dose serve mesmo, ao contrário de Lisboa onde "dose" é um eufemismo. Vão poupar 8 a 10 euros por refeição e os miúdos comem mais variado.

Sobremesa: o gelado é obrigatório. Não vos vou dizer onde, porque a geladaria boa de Tomar muda de mãos com frequência. Sigam a fila local. Se houver fila de avós com netos, é boa.

Tarde lenta, à beira-rio

Há uma coisa em Tomar que poucas cidades portuguesas oferecem: o centro tem rio limpo e plano para andar a pé. As margens do Nabão, entre o Mouchão e a Levada, são planas, sombreadas por plátanos, e cheias de carpas grandes que sobem à superfície quando se atira um bocado de pão. Levem um quarto de pão duro do pequeno-almoço e tenham uma tarde inteira de entretenimento gratuito.

Quem estiver com adolescentes (essa espécie particular que finge desinteresse por tudo) pode tentar uma experiência mais radical no dia seguinte. O parapente em Tomar sobre o coração do Ribatejo é uma das raras coisas que faz adolescentes guardarem o telemóvel durante 20 minutos. Não é barato, na ordem dos 70 a 90 euros por voo biplace, mas vale cada cêntimo. Adolescentes de 14 anos para cima podem voar acompanhados. Confirmem o peso mínimo com o operador.

Onde dormir, e porque importa

Aqui é onde o guia honesto entra em ação. Tomar tem hotéis de centro que parecem boas opções no Booking até descobrirem que a janela dá para uma rua onde os ecos das motorizadas continuam até à 1 da manhã. Para famílias, a regra é sair da vila.

A Quinta do Troviscal, encostada à Barragem de Castelo de Bode, é a opção mais sofisticada. Os quartos são amplos, há piscina, há pinhal à volta, e há um cais privado para canoagem leve com crianças. À noite, jantam os hóspedes em mesa partilhada se quiserem, e em Tomar isso é raro. Os pais bebem vinho, as crianças correm no jardim, e ninguém tem de conduzir.

Se preferirem algo mais rústico, sem perderem qualidade, a Quinta São José dos Montes tem casas em pedra recuperada, lareira para as noites de Inverno (sim, Tomar arrefece, não é Algarve), e cozinhas equipadas para quem quer fazer um piquenique a meio do dia sem voltar à vila.

Para famílias maiores ou viagens com avós a bordo, a Quinta da Ti Júlia aluga casas inteiras, o que muda tudo. Há mesa de jantar para 10, há quintal, há os típicos limoeiros da zona, e há aquela coisa rara: silêncio à noite. Reservem com antecedência para Maio e Setembro, que são os melhores meses para visitar.

O dia em Castelo de Bode

Reservem um dia inteiro para a Barragem do Castelo de Bode. É a 15 minutos de carro de Tomar e é a coisa mais próxima de um lago alpino que Portugal central tem. Há praias fluviais sinalizadas, há sítios para alugar barco a pedais, e há a Aldeia do Mato, onde se almoça bem com vista para a água.

Truque local: a praia fluvial da Aldeia do Mato fica cheia ao fim-de-semana de Julho e Agosto. Vão a meio da semana, ou em Junho, ou em Setembro. A água continua quente até meados de Outubro. Levem chinelos de borracha porque o fundo tem pedras, e protetor solar com FPS 50 porque a reflexão na água queima rápido.

Quem quiser combinar a Barragem com algo mais ativo deve considerar uma excursão de bicicleta. Embora a Ecopista do Dão fique mais a norte, na zona de Viseu, é o tipo de programa que vale uma escapadinha de fim-de-semana se vão estar mais do que três dias na região. Plana, asfaltada, segura para crianças a partir dos 7 anos. Aluguer de bicicletas no início, com cadeirinhas e reboques para os mais pequenos.

Quando ir

Evitem Julho. O calor em Tomar pode passar dos 38 graus, e o calcário do Convento devolve esse calor como um forno. Maio, início de Junho, e a primeira metade de Setembro são perfeitos. Há ainda a Festa dos Tabuleiros, que acontece de quatro em quatro anos (a próxima é em 2027), e enche a vila de cor e de gente. Para famílias com crianças pequenas, atenção: as multidões podem ser intensas. Para famílias com miúdos a partir dos 8 anos, é uma experiência inesquecível.

Se estiverem no Centro de Portugal em Maio, há outros desvios que podem encaixar. Quem viaja com filhos a partir dos 10 anos pode considerar uma manhã em Fátima a 13 de Maio, e o nosso guia honesto da peregrinação ajuda a perceber se é para vocês ou não. Não é para todos. Para outros, a passagem por Coimbra em Maio dá para apanhar a Queima das Fitas, mas atenção: para crianças muito pequenas a noite é demais, mas o cortejo do dia é divertido e colorido.

E se chover?

Tomar tem o Museu dos Fósforos, que é sério candidato a museu mais inesperadamente delicioso de Portugal. Está no Convento de São Francisco e é gratuito. Tem mais de 60 mil caixas de fósforos de todo o mundo, e as crianças passam ali uma hora a procurar a do país preferido sem se queixarem uma única vez. É o tipo de coleção excêntrica que só existe porque alguém um dia se apaixonou e o filho herdou, e agora está numa vitrine para o resto de nós ver. Vão.

Para outras opções de natureza com tempo incerto, o nosso guia de trilhos em Caldas da Rainha tem boas alternativas a uma hora e meia de Tomar, se quiserem alargar a viagem.

O que levar, o que esquecer

Levem: garrafas de água reutilizáveis (há fontes públicas no centro com água potável), um lenço grande para sombra improvisada, lápis e papel para o Convento (desenhar é a forma mais civilizada de uma criança "visitar" um monumento), e calçado fechado, a calçada portuguesa não perdoa sandálias finas.

Esqueçam: o programa demasiado cheio. Tomar pede dois dias e meio para se fazer bem, com crianças. Tentar fazer Tomar, Fátima, Batalha, Alcobaça e Nazaré num único fim-de-semana é a receita garantida para o tal momento em que o miúdo de cinco anos se deita no chão e desiste da vida no meio da Sé de Coimbra.

O orçamento real

Para uma família de quatro pessoas, dois adultos e duas crianças, num fim-de-semana em Tomar fora da época alta: 250 a 320 euros em alojamento por duas noites em quinta rural, 120 a 160 euros em refeições, 12 a 20 euros em entradas (o Convento é o gasto maior, o resto é grátis ou simbólico), 30 a 50 euros em gasolina a partir de Lisboa. Total: 400 a 550 euros para um fim-de-semana que as crianças vão lembrar mais do que três dias num resort do Algarve.

Tomar é assim: discreta, generosa com quem chega devagar, exigente com quem tenta atravessá-la em quatro horas. Tragam os miúdos. Deem-lhes tempo. Atirem pão aos peixes. Subam ao miradouro ao fim da tarde. Voltem para a quinta a tempo do pôr-do-sol. É o tipo de viagem que, daqui a vinte anos, os vossos filhos vão lembrar com uma precisão estranha: o som da água no Mouchão, o cheiro a pedra fresca na Charola, o sabor da estrela de Tomar a colar nos dedos.

E vocês, exaustos mas felizes, vão saber que valeu a pena.

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