Cafés de Tomar: O Que Pedir em Cada Um
Em Tomar, o pequeno-almoço a sério acontece ao balcão, com o cotovelo no mármore e um galão a um euro. Este é o guia opinativo aos cafés que valem a pena, e exactamente o que pedir em cada um, sem clichés e sem cappuccinos com pó de chocolate.
Tomar acorda devagar. Às 7h30, a Rua Serpa Pinto ainda tem mais pombos do que pessoas, e o som que se ouve não é o do rio Nabão, é o de uma colher a bater num galão. É assim que se conhece uma cidade portuguesa: não pelo castelo (embora o Miradouro do Castelo de Tomar seja parada obrigatória ao fim da tarde), mas pelos cafés onde os habitantes começam o dia. E Tomar tem cafés a sério, daqueles em que o empregado já sabe o que vais pedir antes de te sentares.
Este guia não é uma lista exaustiva. É opinativo. Há cafés em Tomar que servem cafés. E há cafés em Tomar que servem cafés bem feitos, com uma fatia de bolo decente e uma esplanada onde se pode estar duas horas a ler um livro sem que ninguém te empurre. A diferença é tudo. O que se segue é o segundo grupo, e o que pedir em cada um deles para não saíres com a sensação de teres pago dois euros por água escura.
Antes de mais, a regra de ouro
Em Tomar, como em qualquer cidade do Centro de Portugal, não peças "um café" e esperes que te tragam algo memorável. Pede um "café cheio" se o queres com mais água, "curto" se o queres concentrado, e "pingo" se quiseres uma gota de leite. Um galão pede-se em copo alto, com mais leite que café. A bica é o expresso clássico. E nunca, sob pretexto algum, peças um "latte". Estás em Portugal. Pede um galão e segue em frente.
Outra regra: o pequeno-almoço a sério, em Tomar, acontece ao balcão. Sentado, pagas mais. Em pé, com o cotovelo apoiado, tens a melhor torrada da tua semana por um euro e tal. É um ritual democrático que sobrevive porque ninguém o quer mudar.
Café Paraíso: a instituição que ninguém te disse para visitar
Começo pelo Café Paraíso porque, se há um sítio em Tomar que merece o título de "café de Tomar", é este. Fica na Rua Serpa Pinto e tem cerca de noventa anos. Os mármores são autênticos, os espelhos têm aquele tom amarelado que só o tempo dá, e os empregados ainda usam camisa branca. Não é um cliché de tasca antiga: é uma tasca antiga, mantida quase intacta, e que continua a servir o melhor pequeno-almoço da cidade.
O que pedir: um galão escuro e uma torrada com manteiga. Não compliques. A torrada é feita em pão de forma da casa, alta, com manteiga em quantidade quase indecente. Se quiseres expandir, pede o bolo de bolacha, que é caseiro e onde a bolacha ainda se nota entre as camadas. Evita os croissants industriais que aparecem por vezes na vitrine, não estão à altura do espaço.
Hora ideal: das 8h às 9h30, quando os habituais ainda lá estão e há conversa de jornal. Depois das 11h transforma-se num café de passagem e perde metade da graça.
Estrelas de Tomar: para o doce a sério
Se queres provar o doce tradicional desta região, a Pastelaria Estrelas de Tomar é praticamente obrigatória. Os pasteleiros aqui ainda fazem as fatias de Tomar, o doce conventual de gema que os Templários, ou melhor, as freiras que herdaram os conventos, transformaram numa pequena obra de arquitectura açucarada.
O que pedir: uma fatia de Tomar com uma bica curta. A fatia é cozida em banho-maria num utensílio de cobre próprio (sete furos), e o resultado é um doce que parece um favo de mel quando se corta. Doce, sim, mas com aquela textura aerada que distingue um doce conventual bem feito de um doce conventual a fingir. Acompanha com uma bica curta para cortar a doçura, ou um chá de limão se o açúcar te assustar.
Não peças capuccino aqui. Não é o sítio. Peças uma bica e ficas bem.
Café Central: para ver o mundo passar
O Café Central tem a melhor esplanada da Praça da República, virada para a Igreja de São João Baptista. É turístico, sim, mas é honestamente turístico, isto é, sabe que é, e isso liberta-o de fingir ser outra coisa. Aos sábados ao final da manhã, fica difícil arranjar mesa, mas se conseguires, fica.
O que pedir: um sumo de laranja natural e uma sandes mista no pão de Tomar. O pão de Tomar é o segredo: tem casca grossa, miolo denso, e aguenta o fiambre e o queijo sem se desfazer. Para o final da tarde, pede uma imperial Sagres bem fresca, com os miúdos da terra a passarem de bicicleta na praça. É um espectáculo gratuito.
Skip: as tostas mistas pré-feitas que aparecem ao almoço. Vão directamente da arca para a torradeira e nota-se. Se tens fome a sério, atravessa a praça e procura um restaurante.
O café que ninguém menciona: a esplanada do Mercado Municipal
Esta é a minha recomendação contra-corrente. Dentro do Mercado Municipal de Tomar, ao lado das bancas do peixe, há uma pequena cafetaria sem nome glamoroso. Serve café por menos de um euro, tem três mesas de fórmica, e os clientes são os próprios vendedores do mercado em pausa. Não há ementa traduzida em inglês. Não há decoração. Há um cheiro a peixe fresco, café e cigarro fantasma.
O que pedir: uma bica e um pastel de bacalhau. Sim, ao pequeno-almoço. Confia. O pastel é frito ali ao lado, vem morno, e por dois euros e meio comes melhor do que em qualquer brunch da Avenida da Liberdade. Hora ideal: entre as 9h e as 10h30, à terça ou quinta, que são os dias fortes de mercado.
Pastelaria Flor de Lis: o bolo de mestre
A Flor de Lis fica no caminho para a estação, e é o sítio para onde os tomarenses vão buscar bolo de aniversário. Tem aquela vitrine clássica de pastelaria portuguesa de província, com vinte e tal variedades de bolinho de creme, todos com nomes que ninguém conhece fora da região. É honesto. Tudo é feito na casa, e nota-se.
O que pedir: o queque de noz, o jesuíta (folhado com glacê de açúcar), e se for à hora do almoço, um rissol de camarão acabado de fritar. O café aqui é correcto, não é memorável. Vens pela pastelaria, sais a pensar nos jesuítas.
Dica prática: se vais apanhar comboio para Lisboa, compra uma caixa pequena de fatias de Tomar para levar. Aguentam bem o tempo de viagem e são o melhor souvenir que sai de Tomar (depois de uma fotografia do miradouro do Castelo, claro).
Onde tomar o café a meio da tarde
Se ficares hospedado num dos quintais e quintas em redor de Tomar, como a Quinta do Troviscal ou a mais íntima Quinta São José dos Montes, é provável que tenhas pequeno-almoço em casa e o café da manhã fique resolvido. Mas as 16h são a hora portuguesa do café com bolo, e nesse caso vais querer voltar à cidade.
Para o café da tarde, recomendo o Café Paraíso outra vez, porque às 16h tem a fornada da tarde de pão com chouriço, ou então a Tertúlia, na zona mais nova da cidade, que serve um bolo de chocolate caseiro denso e um galão decente. Não é tão fotogénica, mas se ficares no carro com o portátil aberto, é o sítio com melhor wi-fi. Os tomarenses sabem disso e há sempre pelo menos um estudante a estudar.
Se preferires ficar numa casa de campo onde o café da manhã é levado em sossego à mesa do jardim, a Quinta da Ti Júlia é uma boa aposta. Pequeno, familiar, sem electricidade no café-da-manhã (no bom sentido).
O café antes de uma manhã activa
Tomar tem-se afirmado nos últimos anos como base para actividades ao ar livre. Se planeias fazer parapente sobre o coração do Ribatejo, o briefing costuma ser cedo, e vais querer um pequeno-almoço sólido mas não pesado. A solução é o Café Paraíso: uma torrada, um galão, um pastel de nata para o caminho. Evita os bolos de creme antes de te lançares no ar, por motivos óbvios.
Para quem se desloca a Tomar como parte de uma rota mais larga de bicicleta pelo Centro, com paragens como a Ecopista do Dão, o café a pedir antes de uma manhã de pedal é o café duplo com uma fatia de pão escuro com queijo. Hidratos lentos, gordura suave, cafeína suficiente. Outros podem-te recomendar barras energéticas: ignora. Pão com queijo serviu gerações.
Tarde de domingo: o café como ritual
Domingo, em Tomar, é dia de café longo. A cidade fica meio vazia, abrem dois ou três cafés na Várzea Pequena, e a maneira certa de o passar é com um galão, um livro, e a esplanada do Café Central. Eventualmente, alguém entra com um cão. Eventualmente, alguém te pergunta de onde és. Eventualmente, ficas mais duas horas do que tinhas planeado. É assim que Tomar te apanha.
Se gostas deste género de manhãs lentas, vais gostar também de outras propostas pelo país com a mesma cadência. Vale a pena ler o nosso guia honesto para trilhos de Abril em Caldas da Rainha, que tem muito do mesmo espírito: cafés, caminhadas curtas, e o desejo de não fazer nada de muito ambicioso.
O que NÃO pedir em Tomar (e onde)
- Cappuccino com pó de chocolate em qualquer pastelaria tradicional. Vai vir mal-feito e mal-aceite.
- Café gelado fora do Verão. Em Setembro fora, vão olhar para ti como se tivesses pedido sopa em Agosto.
- Croissants de chocolate em qualquer sítio que não tenha forno próprio à vista. Se o croissant não foi feito ali, é melhor passar.
- Chá de saqueta a tentar passar por chá decente. Pede uma infusão se queres realmente um chá, mas em Portugal o café ganha sempre.
Notas práticas para o visitante
Tomar é fácil de chegar de comboio desde Lisboa (cerca de duas horas, à volta de 11 euros num intercidades) ou de Coimbra (uma hora e qualquer coisa). A estação fica a dez minutos a pé do centro histórico, e quase todos os cafés referidos estão dentro do quadrado entre a Praça da República e o Mercado Municipal. Confirme horários localmente porque alguns cafés tradicionais ainda fecham à segunda-feira ou param para almoço entre o meio-dia e as 14h.
O preço médio para um galão e um pastel de nata anda entre os dois e os três euros, dependendo do café. Esplanadas centrais cobram mais 20-30 cêntimos por causa do lugar. Em pé, mais barato. Sentado fora da época alta, ninguém te vai expulsar.
Se planeias visitar Tomar em data de festividade, como a Festa dos Tabuleiros (de quatro em quatro anos, próxima edição confirme localmente), os cafés enchem-se até ao meio do passeio. Reserva mesa na esplanada com o empregado na véspera, com um sorriso e um bom-dia, e quase de certeza arranjas-se. Para outras festividades portuguesas com tradição forte, vê o nosso guia honesto à Queima das Fitas de Coimbra ou o guia honesto da peregrinação de Fátima a 13 de Maio, ambos perto, ambos com cafés que merecem o desvio.
O verdadeiro segredo
O verdadeiro segredo dos cafés de Tomar não está em nenhum deles em particular. Está em escolher um, voltar três dias seguidos, pedir sempre o mesmo, e ver o que acontece. Ao terceiro dia, o empregado começa a fazer o teu café antes de te ver sentado. Ao quinto, perguntam-te como foi o passeio de ontem. Ao sétimo, já não és turista, és cliente. Esse é o melhor café que Tomar te pode servir.