Setúbal: O Segredo da Arrábida e o Surf Entre Falésias
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Setúbal: O Segredo da Arrábida e o Surf Entre Falésias

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Esqueça as multidões do Algarve; em Setúbal, o mar serve-se com montanha e choco frito. De Galapinhos ao surf na Figueirinha, eis o roteiro para quem quer mais do que apenas areia.

A Chegada: Onde o Betão dá Lugar ao Verde e Azul

Esqueça a ideia de que Setúbal é apenas um porto industrial cinzento visto da Ponte 25 de Abril. Para entender verdadeiramente esta terra, tem de atravessar a zona ribeirinha, passar pelas docas onde os barcos de pesca descarregam o peixe à madrugada e subir a estrada da Arrábida. É aqui, na N379-1, que a magia acontece. À sua direita, a montanha de calcário ergue-se como uma parede de vegetação densa; à sua esquerda, o estuário do Sado funde-se com o Atlântico numa paleta de azuis que faria inveja a qualquer ilha mediterrânica. Se está a planear passeios de um dia a partir de Cascais: os melhores destinos, saiba que Setúbal exige mais do que uma visita de relance. É um lugar que se sente no cheiro a maresia e no sabor do sal.

A Primeira Paragem: Praia da Figueirinha

A Praia da Figueirinha é a porta de entrada para este paraíso. É a mais acessível, a que tem o parque de estacionamento mais generoso (embora no verão isso seja um conceito relativo) e a preferida das famílias. Mas não a descarte como sendo "apenas para turistas". Quando a maré vaza, surge um banco de areia que permite caminhar quase até ao meio do canal, criando uma piscina natural de águas cristalinas onde o vento mal toca. É o local ideal para quem quer aprender a ler o mar. Se procura ondas para surfar, a Figueirinha raramente as dá com consistência, mas para o paddleboard ou apenas para observar os barcos que cruzam para Tróia, é imbatível. O segredo aqui é chegar antes das nove da manhã. Depois disso, a luta por um metro quadrado de areia torna-se um desporto de contacto.

O Culto de Galapinhos: Entre o Hype e a Realidade

Há uns anos, a Praia dos Galapinhos foi eleita a melhor da Europa. O resultado? Uma invasão de máquinas fotográficas e influencers. Mas, pondo o ruído visual de lado, a praia continua a ser um espetáculo. O acesso não é para todos, prepare os joelhos para a descida (e a subida) por trilhos íngremes. Não há bares, não há espreguiçadeiras para alugar, e é precisamente isso que a torna especial. É o sítio onde se vai para ignorar o telemóvel e ler um livro ao som das ondas que batem suavemente nas rochas. É um contraste gritante com a azáfama da cultura local em Lisboa: tradições, bairros e alma lisboeta, onde o ritmo é ditado pelo empedrado e pelo fado. Em Galapinhos, o ritmo é ditado pela maré.

Creiro: Onde a História e o Mar se Cruzam

Continuando a costa, chegamos à Praia do Creiro. Aqui, a experiência é completa. Tem a Pedra da Anixa, uma ilhota rochosa que é um paraíso para o snorkeling (se tiver coragem para a água fria), e tem as Ruínas Romanas de Salga logo acima da areia. Imaginar os romanos a produzirem garum (uma pasta de peixe fermentada) com esta vista ajuda a contextualizar a importância histórica deste litoral. Para almoçar, ignore as sandes que trouxe de casa e vá ao 'O Farol'. Peça o peixe do dia, grelhado com a mestria de quem faz isto há décadas. Conte gastar cerca de 25-30€ por pessoa para uma refeição que vale cada cêntimo pela frescura do produto.

O Mar como Palco: Onde Surfar e o que Observar

Setúbal não é a Ericeira nem Peniche, mas tem os seus segredos. O surf aqui depende muito da direção do swell. Quando o mar está demasiado grande na Costa da Caparica, a Arrábida funciona como um escudo, oferecendo ondas mais limpas e manobráveis em spots como a Praia do Albarquel ou, com a combinação certa de vento e maré, junto à Figueirinha. Mas se quer ondas a sério, o melhor é apanhar o ferry para Tróia e descer até à Comporta. São quilómetros de praia aberta onde o crowd é quase inexistente. No entanto, em Setúbal, o mar é sobretudo para observar. Os Roazes do Sado, a única comunidade residente de golfinhos num estuário na Europa, são os verdadeiros donos disto tudo. Existem várias operadoras no porto de Setúbal que organizam saídas para os ver (cerca de 35€ por adulto), mas por vezes, se tiver sorte e uns binóculos, consegue avistá-los do Forte de São Filipe enquanto toma um café.

A Ética do Choco Frito: Um Guia Prático

Não se pode escrever sobre Setúbal sem falar do Choco Frito. É mais do que um prato; é um ritual de passagem. Fuja dos restaurantes que têm fotos plastificadas à porta na Avenida Luísa Todi. Vá ao 'Rei do Choco' ou ao 'Leo do Choco Filho'. O choco deve ser tenro, a polme deve ser crocante e não gordurosa, e deve ser acompanhado por batatas fritas e uma salada de alface que serve apenas para aliviar a consciência. Acompanhe com uma 'mini' bem gelada. Se o restaurante não tiver toalhas de papel e um ruído ensurdecedor de conversas cruzadas, provavelmente não é o sítio certo. Este é o lado cru e autêntico de Setúbal, longe da sofisticação de Sintra que pode explorar no guia de bairros de Sintra: descubra cada recanto da vila encantada.

Logística e Sobrevivência

Setúbal no verão exige planeamento. O programa 'Arrábida sem Carros' restringe o acesso de veículos privados às praias entre junho e setembro. A solução? O autocarro que sai da estação de comboios e do Alegro Setúbal (cerca de 4€ ida e volta). É eficiente e evita a dor de cabeça de encontrar um lugar para o carro nas estradas apertadas da serra. Se preferir a liberdade total, alugue uma bicicleta elétrica na cidade; a subida é dura, mas a descida com o mar à vista é uma das melhores experiências que pode ter em Portugal. Se vier de Lisboa, o comboio da Fertagus é a opção mais sensata (cerca de 50 minutos de viagem), deixando-o a dez minutos a pé do Mercado do Livramento, possivelmente um dos melhores mercados de peixe do mundo. Vá lá pelas 10 da manhã, veja as bancas de mármore cheias de robalos, polvos e sargos, e compre um queijo de Azeitão para o lanche na praia.

Setúbal não pede desculpa pelo que é. É uma mistura de luxo natural e realidade portuária. É o sítio onde pode passar a manhã numa enseada digna das Caraíbas e a tarde a discutir futebol com um pescador numa taberna. E é essa dualidade que faz dela o destino de mar mais interessante a menos de uma hora de Lisboa. Confirme sempre os horários dos barcos para Tróia localmente, pois mudam consoante a época, e prepare-se para se apaixonar por uma cidade que não tenta ser bonita para os outros, é apenas magnífica por natureza.

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