Sardinha Assada em Julho: Lisboa e Setúbal na Brasa
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Sardinha Assada em Julho: Lisboa e Setúbal na Brasa

· · Lisboa

Toda a gente come sardinha no Santo António, a 13 de junho. Erro: nessa altura ainda está magra. A sardinha gorda, a que pinga na brasa, é a de julho. Guia para a comer bem em Lisboa e em Setúbal, sem pagar preço de turista.

Há uma frase que toda a gente em Lisboa repete em junho, durante os Santos Populares, e que está quase sempre errada: a de que a melhor altura para comer sardinha é no Santo António, a 13 de junho. Não é. A 13 de junho a sardinha ainda está magra, a ganhar gordura. O ditado popular é claro: "Pela Santa Iria, a sardinha pinga na brasa", e a Santa Iria é a 20 de outubro. Mas o ponto alto, o momento em que a sardinha está cheia, gorda e a escorrer pela grelha, é mesmo julho e agosto. Por isso, se quer comer a melhor sardinhada da sua vida, espere passar a folia de junho, deixe a multidão ir embora, e venha em julho.

Porque é que julho é a altura certa

A sardinha é um peixe de época. Durante o inverno está magra e quase não se come; a partir de maio começa a engordar e atinge o pico de gordura entre julho e setembro. É essa gordura que faz toda a diferença na grelha: a pele estala, a carne fica suculenta, e o pingo cai no carvão e levanta aquele fumo cheiroso que se sente a três ruas de distância. Uma sardinha de julho não precisa de mais nada além de sal grosso e brasa boa. Se lhe oferecerem molho, desconfie.

O ritual também importa. A sardinha come-se com os dedos, sobre uma fatia de pão que vai por baixo a apanhar a gordura e o suco. Esse pão, ensopado, é metade do prazer e quem o deixa no prato não percebeu nada da coisa. Acompanha-se com batata cozida, pimentos assados, uma salada de tomate simples e vinho tinto fresco ou um copo de vinho verde. Nada de complicado. A sardinha boa é pobre na origem e nobre na execução.

Lisboa: para lá do barulho de junho

Lisboa em junho é uma festa, e a sardinha está em todo o lado: nas grelhas improvisadas das ruas de Alfama, da Graça, da Mouraria, do Bairro Alto. É lindo, é caótico, e é, sinceramente, um pouco armadilha para turistas. Os preços sobem, as filas crescem, e a sardinha nem sempre é a melhor porque o que importa naquelas noites é a folia, não o peixe. Por isso o meu conselho é simples: vá ver os arraiais em junho pela experiência, mas guarde a verdadeira sardinhada para julho, quando os bairros voltam ao normal e os tascos servem peixe com calma.

Comece o dia em alto. Suba até ao Miradouro da Senhora do Monte, na Graça, ao fim da tarde. É o ponto mais alto da cidade, vê-se o castelo, o rio, a ponte, e é onde se percebe a geografia toda de Lisboa antes de descer para jantar. A partir daqui, as ruas da Graça e de Alfama descem em direção ao Tejo, e é nessas vielas que estão as melhores casas de sardinha assada da cidade. Procure os sítios pequenos, com a grelha à porta e a fila de fumo a sair para a rua. Se vir mesas de plástico, toalha de papel e um senhor a abanar a grelha com um pedaço de cartão, está no sítio certo.

Uma sardinhada decente em Lisboa, em 2026, anda à volta dos 12 a 18 euros por pessoa, com seis a oito sardinhas, pão, batata e salada. Se lhe pedirem mais de 25 euros num sítio turístico do centro, vá embora. A sardinha é comida de povo e o preço deve refletir isso.

Se quiser experimentar a outra grande tasca de rua de Lisboa antes ou depois, vale a pena uma paragem n'As Bifanas do Afonso, no Chiado, para perceber o que é uma bifana feita como deve ser: pão, carne de porco marinada e molho, comida de pé, em dois minutos. Não tem nada a ver com sardinha, mas tem tudo a ver com a mesma filosofia: comida simples, honesta, bem feita.

Como chegar e o que fazer à volta

Alfama e Graça fazem-se a pé, mas as ladeiras são duras. O elétrico 28 passa por boa parte da zona, embora venha sempre cheio. Uma alternativa mais original é explorar a cidade de bicicleta: a experiência Explorar Lisboa sobre Rodas, o roteiro ribeirinho da Bike a Wish leva-o ao longo do Tejo, e há ainda o roteiro Pedalar do Topo ao Rio, de Lisboa a Belém, descendente, que poupa as pernas e dá fome. Chegar à mesa com fome verdadeira é metade do segredo de uma boa sardinhada.

Antes ou depois do jantar, deixe a sardinha assentar com uma noite de fado. N'O Faia, casa de fados no Bairro Alto, ouve-se fado a sério, daquele que faz calar a sala. E para quem quiser perceber melhor o contexto de tudo isto, as tradições, os bairros e a forma como Lisboa vive, o nosso guia de cultura local em Lisboa dá o enquadramento todo.

Setúbal: a capital silenciosa da sardinha

Aqui vai a opinião que pode incomodar alguns lisboetas: a melhor sardinha não se come em Lisboa. Come-se em Setúbal. A cidade, a sul, do outro lado da serra da Arrábida, vive virada para o estuário do Sado e para o mar, e é um dos grandes portos de pesca de sardinha do país. A sardinha de Setúbal tem fama merecida, e o ambiente é tudo menos turístico: é comida de quem trabalha no peixe e o come fresco no próprio dia.

O coração da coisa é a zona da Avenida Luísa Todi e das ruas à volta do mercado do Livramento, um dos mercados mais bonitos do país, com painéis de azulejos a representar a faina da pesca. De manhã, o mercado fervilha; ao almoço, as casas à volta enchem-se de gente local a comer sardinha acabada de grelhar. Não procure o restaurante com a melhor decoração. Procure o que está cheio de gente a falar alto e a comer com as mãos.

Em Setúbal, a sardinhada costuma ser ligeiramente mais barata e mais generosa do que em Lisboa: conte com 10 a 15 euros por pessoa numa casa honesta. E enquanto está cá, não cometa o erro de comer só sardinha. Setúbal é a terra do choco frito, lulas pequenas panadas e fritas que são uma instituição local. Peça uma dose de choco frito para partilhar antes da sardinha e vai perceber porque é que os setubalenses se gabam tanto da sua cozinha. Confirme sempre o preço do dia, porque o peixe fresco oscila conforme a lota.

Como ir de Lisboa a Setúbal

É mais fácil do que parece. De carro são cerca de 50 minutos pela A2, passando a Ponte 25 de Abril. De transportes públicos, há comboios da Fertagus e autocarros frequentes que ligam Lisboa a Setúbal em pouco menos de uma hora. Vá de manhã, dê uma volta pelo mercado do Livramento, almoce sardinha, e a tarde fica livre para a serra da Arrábida ou para as praias de água transparente da Arrábida, que são das mais bonitas do país. Faça disto um dia inteiro e não um almoço apressado.

O resto do roteiro: não viva só de peixe

Uma sardinhada bem feita merece companhia ao longo do dia. Em Lisboa, antes de descer para a brasa, pode começar a manhã com um café n'A Brasileira, no Chiado, mais pela história e pelo ritual do que pelo café em si, que é honesto sem ser memorável. E se quiser equilibrar a gordura da grelha com um pouco de cultura, a cidade tem dois museus que valem qualquer viagem: o Museu Nacional de Arte Antiga, com a melhor coleção de pintura antiga do país e um jardim com vista para o rio onde se pode descansar, e o Museu Calouste Gulbenkian, com os seus jardins frescos, perfeitos para uma tarde de julho a fugir do calor.

Se a sardinha lhe abrir o apetite para mais Portugal de verão, há tradições gastronómicas por toda a região. Para quem quiser sair da cidade, o nosso guia dos bairros de Sintra mostra outro lado da zona, e quem gosta de doçaria tradicional vai apreciar o roteiro de doces de Mafra, que prova que a cozinha popular portuguesa é muito mais do que sardinha na brasa, por melhor que ela seja em julho.

As regras da sardinha, para terminar

  • Coma em julho e agosto, não em junho. A sardinha de verão tardio é a mais gorda e a mais saborosa.
  • Só precisa de sal grosso e brasa. Fuja de molhos, marinadas e firulas.
  • O pão por baixo não é decoração. Coma-o ensopado no fim, é metade do prazer.
  • Beba tinto fresco ou vinho verde. A sardinha é gorda e pede acidez.
  • Em Lisboa, fuja das filas turísticas do centro e procure os tascos de bairro. Em Setúbal, vá ao Livramento.
  • Não pague mais de 18 euros por uma sardinhada em Lisboa nem mais de 15 em Setúbal. Acima disso, está a pagar a localização, não o peixe.

A sardinha assada é a comida mais democrática de Portugal. Não tem técnica nenhuma escondida, não tem ingredientes caros, não tem mistério. Tem peixe fresco, sal, fogo e o tempo certo do ano. Faça-se à estrada em julho, com os dedos prontos a sujar, e descubra que às vezes a melhor refeição do país é também a mais simples.

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