Ribeira Grande em 24 Horas: Surf, Chá e Águas Quentes
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Ribeira Grande em 24 Horas: Surf, Chá e Águas Quentes

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Ondas no areal negro de Santa Bárbara ao nascer do sol, chá colhido em encostas viradas ao Atlântico e dois banhos de água quente no mesmo dia. Ribeira Grande não se faz com pressa, e é por isso que vale a pena.

Ribeira Grande não se faz com pressa. É a segunda maior povoação de São Miguel, mas comporta-se como uma vila de província: o talho fecha à hora de almoço, a senhora da padaria conhece-lhe o nome ao terceiro café, e o trânsito mais intenso do dia é uma carrinha de leite a subir a Rua Direita. Quem vem dos cruzeiros costuma fazer Ribeira Grande de passagem, uma fotografia à ponte de pedra e segue para os miradouros. Erro. A norte de São Miguel está a melhor combinação de coisas que a ilha tem para oferecer num só dia: ondas no areal negro, chá que cresce em encostas voltadas ao Atlântico e água que sai quente do chão. Eis como fazer essas 24 horas ao ritmo de quem cá vive.

06h30: o mar antes de toda a gente

Comece no escuro. A praia de Santa Bárbara, uns quinze minutos a oeste do centro, é a escola de surf de toda a ilha, e a maré de manhã cedo é a melhor: vento leve, ondas limpas, areia preta a contrastar com a espuma branca. Se nunca pôs os pés numa prancha, é aqui que o deve fazer, com instrutor, no surf ao nascer do sol no areal negro de Santa Bárbara. A areia vulcânica aquece depressa quando o sol aparece, mas a água do Atlântico não engana ninguém: leve fato. Mesmo que não entre no mar, vale o desvio só para ver a maré da esplanada do café da praia, com um galão a fumegar nas mãos.

Quem prefere terra firme tem alternativa logo ali: a costa norte está rendilhada de poças de maré e o areal estende-se quase deserto a esta hora. É o tipo de início de dia que justifica pôr o despertador.

08h30: pequeno-almoço e o centro histórico

De volta à vila, estacione perto do centro, que se faz a pé em vinte minutos de uma ponta à outra. O coração de Ribeira Grande é a ribeira que lhe dá o nome, atravessada pela Ponte dos Oito Arcos, em pedra escura, com as casas senhoriais a debruçarem-se sobre a água. Suba a escadaria barroca até à Igreja de Nossa Senhora da Estrela: a fachada de basalto e cantaria branca é o ex-líbris da vila e o melhor ponto para perceber a planta da terra.

Para descansar as pernas e a cabeça, atravesse para o Jardim Municipal de Ribeira Grande. É um jardim oitocentista com lago, coreto e árvores grandes que dão sombra a sério, o género de sítio onde os reformados jogam às cartas e as crianças correm atrás dos patos. Sente-se num banco, deixe o galão assentar e ouça a vila acordar. Não custa nada e é meia hora bem gasta.

10h00: a fronteira do chá na Europa

Agora a parte que põe Ribeira Grande no mapa de quem sabe. A leste, nas encostas da Gorreana e de Porto Formoso, cresce o único chá produzido comercialmente na Europa. As plantações da Gorreana laboram desde 1883 e ainda usam máquinas inglesas centenárias que cheiram a óleo e a folha seca. A entrada é gratuita, a visita à fábrica faz-se ao seu ritmo e prova-se chá verde e preto à borla no fim, sem ninguém a empurrar-lhe uma compra. Para entender de verdade o que está a beber, faça o mergulho nas plantações da Gorreana e Porto Formoso, que liga as duas casas e explica a diferença entre a folha apanhada de manhã e a curada à tarde.

Conselho prático: prove o chá Hysson, o verde de folha mais aberta, e leve um pacote de Orange Pekoe para casa. É barato, dura meses e é a melhor recordação possível, muito acima dos ímanes de frigorífico. As encostas de chá com o mar ao fundo são, por si só, das vistas mais bonitas da ilha.

13h00: almoço sem pretensões

A esta hora a fome aperta e a Ribeira Grande não é terra de restaurantes de fina mesa. Ainda bem. Vá direito a A Merenda, casa de comida açoriana honesta, das que servem o que há e o que está bom. Peça peixe fresco se houver, ou uma carne guisada bem feita, e não saia sem provar queijo dos Açores e uma fatia de bolo lêvedo, esse pão doce e fofo que aqui se come a qualquer hora. Os Açores fazem-se de pratos fortes e porções generosas; venha com fome.

Se quiser perceber até onde vai a cozinha vulcânica da ilha antes ou depois desta viagem, vale a pena ler a nossa expedição gastronómica por Ponta Delgada, a meia hora de carro para sul, onde o cozido das Furnas e o ananás dos estufados ganham outra dimensão.

15h00: cair dentro da Caldeira Velha

Depois de almoço, suba a serra. A subida para o Pico da Barrosa é uma estrada de curvas com a paisagem a mudar de pasto verde para floresta densa de fetos e cedros. A meio caminho fica a estrela natural de Ribeira Grande: o Centro de Interpretação Ambiental da Caldeira Velha. É uma cascata de água termal a cair sobre poças no meio da floresta, com vapor a sair da rocha e fetos arbóreos do tamanho de guarda-chuvas. A água das poças varia: há a mais quente, ferruginosa e cor de ferrugem, e a poça maior, mais fresca, alimentada pela queda de água.

Avisos de quem já se queimou de sol e de tempo: o sítio tem entrada paga e lotação limitada por causa da pressão turística, por isso confirme localmente o horário e, na época alta, reserve antecipadamente. Leve toalha, calçado que possa molhar e roupa de banho por baixo, porque os balneários são básicos. Vá ao fim da tarde, quando os autocarros já partiram e fica só o som da queda de água e os fetos a pingar. É o banho mais cinematográfico da ilha.

17h30: as termas históricas da vila

Desça de volta à Ribeira Grande para a segunda dose de água quente do dia, esta com história. As Termas das Caldeiras da Ribeira Grande são um pequeno complexo termal alimentado por nascentes ferruginosas que brotam a fumegar mesmo à beira da estrada. É aqui, junto às Caldeiras, que nasce a famosa água gasosa das Lombadas, engarrafada em São Miguel há mais de um século. Espreite as nascentes a borbulhar, sinta o cheiro a enxofre, e se quiser um banho terapêutico mais sério do que a Caldeira Velha, é este o lugar. Confirme localmente os horários e os tratamentos disponíveis antes de subir.

20h00: jantar e a noite que não é noite

Ribeira Grande não tem vida noturna no sentido em que uma cidade a tem, e essa é precisamente a graça. Jante devagar, repita o queijo da ilha, peça uma garrafa de Verdelho dos Açores, esse branco vulcânico de mineralidade afiada que combina com tudo o que sai do mar. Acabe com uma queijada da Vila Franca ou outro doce conventual e um cálice de licor de maracujá.

Se a noite ainda lhe pedir movimento, Ponta Delgada está a vinte e cinco minutos e tem mais esplanadas abertas até tarde. Mas o melhor de Ribeira Grande é ficar: a vila a esta hora resume-se ao som da ribeira a correr por baixo da Ponte dos Oito Arcos e às luzes amarelas a refletirem-se na pedra molhada.

Logística sem dramas

  • Como chegar: Ribeira Grande fica a cerca de 25 minutos de carro a norte de Ponta Delgada, onde está o aeroporto e a maioria dos hotéis. Carro próprio é praticamente obrigatório para fazer este itinerário; há autocarros, mas os horários não servem a um dia tão cheio.
  • Quando ir: de maio a outubro pela água do mar mais amena e dias longos. O surf de Santa Bárbara funciona todo o ano, mas o inverno traz ondas grandes só para experientes. A Caldeira Velha é melhor fora dos meses de pico para evitar lotação.
  • Quanto custa: a Gorreana é gratuita; a Caldeira Velha e as termas têm bilhete simbólico (confirme localmente); um almoço farto em casa de comida tradicional fica abaixo do que pagaria no continente por igual fartura.
  • O que levar: fato ou roupa de banho desde manhã, toalha, calçado que se molhe, casaco impermeável (os Açores mudam de tempo quatro vezes por dia) e fome.

Se ainda tiver dias na ilha

Ribeira Grande dá-se bem como base ou como excursão a partir de Ponta Delgada, mas o arquipélago não acaba aqui. Se conta saltar para outra ilha, o nosso guia de 24 horas na Horta mostra outra face dos Açores, mais cosmopolita e marítima, e para fechar o dia em altura veja onde estão os melhores rooftops e panorâmicas da Horta. São ilhas diferentes do mesmo mar, e Ribeira Grande é o ponto certo para começar a perceber porquê.

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