Porto na Primavera: Roteiro de Flores, Jardins e Mercados
O Porto é a Cidade das Camélias desde 1880, com 375 variedades espalhadas pelos seus jardins. Na primavera, dos ramos de peónias no Bolhão às glicínias centenárias das Virtudes, a cidade transforma-se num roteiro botânico a céu aberto, quase todo gratuito.
O Porto é, oficialmente, a Cidade das Camélias. Não é slogan de turismo: desde 1880 que a cidade cultiva uma obsessão séria por esta flor de origem asiática, com cerca de 375 variedades espalhadas por parques, quintas e jardins municipais. Na primavera, quando as camélias já vão de saída e as rosas, glicínias e azáleas tomam conta, o Porto transforma-se num roteiro botânico a céu aberto. E o melhor? A maior parte é gratuita.
Este não é um guia para quem quer fotografar flores e seguir caminho. É para quem quer perceber como o verde define esta cidade tanto como o granito e os azulejos. Para quem quer perder uma manhã num mercado a escolher ramos de peónias, almoçar num jardim com vista para o Douro, e ainda ter tempo para um desvio a um parque onde ninguém vai.
Mercado do Bolhão: onde a primavera se compra ao quilo
Qualquer roteiro de flores no Porto começa no Mercado do Bolhão, não por ser o mais bonito (embora a renovação recente lhe tenha feito bem), mas por ser o mais honesto. As floristas do Bolhão vendem flores como as peixeiras vendem peixe: com opinião, com voz, e sem paciência para indecisões.
Na primavera, as bancas enchem-se de peónias, lírios, cravos e ramos mistos que custam uma fracção do que pagariam numa florista de rua. Procurem a Rosa Maria, que ali está há mais de quarenta anos e que vos diz exactamente o que dura e o que não dura no calor. Cheguem cedo, antes das 10h, quando a selecção ainda é completa e o mercado tem aquele ritmo de manhã de sábado que não se fabrica.
O mercado abre de segunda a sexta das 8h às 20h e aos sábados das 8h às 18h. Domingos fecha. E já que estão ali, aproveitem para comer qualquer coisa no piso de cima, onde há bancas de comida que fazem almoços honestos a preços de mercado.
Jardim Botânico do Porto: o segredo mais mal guardado da cidade
A maior parte dos turistas que visitam o Porto nunca ouviu falar do Jardim Botânico. Fica na Quinta do Campo Alegre, junto à Universidade, e pertence ao Museu de História Natural e da Ciência. A entrada é gratuita, o que torna incompreensível que não esteja sempre cheio.
O jardim divide-se em três zonas distintas: o Roseiral, o Jardim dos Jotas e o Jardim dos Peixes, separados por sebes de camélias que estão entre as mais antigas de Portugal. Na primavera, o Roseiral é o destaque óbvio, mas o verdadeiro prazer está em perder-se pelos caminhos entre árvores centenárias e espécies exóticas que parecem ter sido esquecidas ali por um coleccionador vitoriano.
Está aberto de terça a domingo, das 10h às 13h e das 14h às 18h (última entrada às 17h30). Fecham à segunda-feira. Levem um livro e um café em copo térmico. Não há cafetaria no jardim, por isso planeem em conformidade.
Jardins do Palácio de Cristal: o terraço verde do Porto
Se o Jardim Botânico é o segredo, os Jardins do Palácio de Cristal são o grande palco. E com razão. Poucos jardins urbanos na Europa oferecem uma vista como esta: o Douro a serpentear lá em baixo, a Serra do Pilar do outro lado, os telhados da Foz ao longe. Na primavera, acrescentem a isso rosas em flor, canteiros de lavanda, camélias tardias e pavões que passeiam entre os visitantes como se fossem os verdadeiros donos do sítio.
Os jardins são gratuitos e estão abertos todo o ano. A minha recomendação: entrem pela entrada principal na Rua de Entre-Quintas, façam o circuito completo pelos jardins temáticos (incluindo o Jardim das Aromáticas, que na primavera cheira a alecrim e tomilho), e terminem no miradouro junto à Biblioteca Municipal Almeida Garrett.
Para almoço, desçam até ao centro e passem pelo Duarte's Comida de Rua, que resolve a fome com comida honesta e sem pretensões. É o tipo de sítio onde se come de pé ou encostado a uma parede, e onde ninguém se queixa.
Dica de timing
Se querem os jardins sem multidões, vão numa manhã de terça ou quarta-feira. Ao fim-de-semana, sobretudo com sol, aquilo enche. Não é desagradável, mas perde-se aquela sensação de ter o Porto só para nós.
Parque de Serralves: o jardim formal que vale o bilhete
Serralves é mais conhecido pelo museu de arte contemporânea, mas o parque de 18 hectares é, por si só, razão suficiente para a visita. O jardim formal, desenhado entre 1932 e 1940 pelo arquitecto paisagista francês Jacques Gréber, é uma obra-prima de simetria e contenção. Na primavera, o Roseiral e o Jardim das Camélias estão no pico. Há gardenias, narcisos e, mais tarde na estação, hortênsias que começam a insinuar-se.
O parque tem mais de 8000 exemplares de plantas lenhosas, trilhos por entre bosques, um lago romântico e recantos onde é possível sentar e não ver outra pessoa durante meia hora. O bilhete para o parque (sem museu) é mais acessível, mas confirmem os preços actuais no site oficial antes de ir, porque têm variado.
Para lá chegar, o autocarro 203 desde a Boavista deixa-vos à porta. De carro, há estacionamento no local, mas ao fim-de-semana pode ser complicado.
Parque das Virtudes: glicínias e miradouro escondido
Este é o parque que os portuenses guardam para si. Fica nas Virtudes, entre o centro histórico e Miragaia, e tem uma das glicínias mais antigas da Europa, uma planta centenária que na primavera transforma o parque inteiro numa cascata violeta. O timing é tudo: a floração da glicínia dura poucas semanas, geralmente entre meados de março e meados de abril. Se acertarem, é espectacular. Se falharem, o parque ainda vale pela vista sobre o Douro e pelos terraços em socalcos que descem até ao rio.
A entrada é gratuita. Não há café, não há casa de banho, não há nada além de um jardim extraordinário e uma vista que justifica tudo. Levem uma garrafa de água e uma toalha para se sentarem na relva.
Para além dos jardins: um roteiro de primavera completo
Um dia inteiro dedicado a flores e jardins no Porto pode seguir este ritmo:
- 9h: Mercado do Bolhão. Comprem flores, comam um pastel de nata no mercado, absorvam o ambiente.
- 10h30: Jardim Botânico. Passeio calmo de uma hora, sem pressa.
- 12h: Almoço no centro.
- 14h: Jardins do Palácio de Cristal. Duas horas com paragens nos miradouros.
- 16h30: Parque das Virtudes. Glicínias e vista para encerrar o dia.
Se tiverem mais tempo, acrescentem Serralves na manhã seguinte.
Para quem quer explorar a pé
O centro histórico do Porto é feito para caminhar, mesmo que as subidas testem a paciência. Se preferirem ter contexto histórico enquanto percorrem as ruas, o Walking Tour pelo Centro Histórico com a Living Tours é uma boa forma de ligar os pontos entre jardins, igrejas e miradouros.
A primavera como desculpa para ir mais longe
O Porto na primavera é excelente, mas a região à volta também merece. Se a Semana Santa ainda não passou, Braga a uma hora de comboio oferece uma das celebrações religiosas mais intensas da Península Ibérica. O nosso guia sobre a Semana Santa em Braga explica o que esperar e como planear.
E se Braga vos despertar a curiosidade, vale a pena dedicar-lhe mais tempo. É uma cidade que tem vindo a reinventar-se sem perder o carácter. O nosso guia completo de Braga cobre o essencial.
Para outras escapadelas a partir do Porto, desde o Vale do Douro ao Gerês, passando por Guimarães e Aveiro, temos um guia dedicado a viagens de um dia a partir do Porto que pode ajudar a preencher uma semana inteira.
Notas práticas
A primavera no Porto é imprevisível. Podem ter três dias de sol seguidos de chuva horizontal. Levem sempre um casaco impermeável e camadas. A temperatura média entre março e maio varia entre 10°C e 20°C, mas o vento junto ao rio faz parecer mais frio.
Os jardins municipais (Palácio de Cristal, Virtudes, Cidade) são todos gratuitos. O Jardim Botânico também. Serralves é pago mas vale o investimento. O Bolhão é um mercado, por isso levem dinheiro trocado para as floristas, que nem todas aceitam cartão.
Para transporte, o Metro do Porto cobre bem o centro e a Boavista. Para Serralves, o autocarro é mais prático. Para o resto, andem a pé. É a melhor forma de tropeçar nas surpresas que fazem do Porto o Porto.