Penafiel Antes de Roma: Castros e Pedra no Vale do Sousa
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Penafiel Antes de Roma: Castros e Pedra no Vale do Sousa

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A 35 km do Porto, a Citânia de Sanfins é a maior cidade fortificada da Idade do Ferro do noroeste peninsular, com 150 casas circulares ainda legíveis. Um guia honesto para visitar os castros do Vale do Sousa, sem armadilhas turísticas, terminando em vinho verde nos jardins da Quinta da Aveleda.

Há uma versão de Penafiel que cabe em duas linhas no guia turístico: vinho verde, igrejas românicas, a Quinta da Aveleda. Está tudo correto, e há de facto razões para ir lá apenas por isso. Mas se subir os 382 metros até ao topo do Monte do Pilar, em Sanfins de Ferreira, encontra uma Penafiel que tem dois mil e quinhentos anos e que poucos visitantes conhecem: a maior cidade fortificada da Idade do Ferro do noroeste peninsular. Não é uma ruína romântica coberta de hera. É uma cidade inteira em pedra, com ruas, muralhas triplas e cerca de 150 casas circulares cujos alicerces ainda se leem como uma planta de arquiteto.

A Citânia de Sanfins não pede licença a ninguém. Foi escavada pela primeira vez em 1944 pelo arqueólogo Mário Cardozo, e desde então tem vindo a revelar fragmentos de uma civilização que existia aqui muito antes de Roma chegar para tomar conta do recado. Aquilo a que os manuais escolares chamam, com algum desdém, "povos indígenas" eram, na verdade, urbanistas competentes: organizavam bairros, separavam funções, faziam estradas internas, e tinham uma cultura própria que misturava influências célticas com tradições atlânticas. Este artigo é sobre como ver isso por si próprio, sem armadilhas turísticas, num fim de semana razoavelmente preguiçoso baseado em Penafiel.

Como chegar (e porque vir de carro é a única hipótese decente)

Penafiel fica a 35 km do Porto pela A4, cerca de 30 minutos sem trânsito. Há comboio CP de São Bento até à estação de Penafiel, e é uma viagem bonita pelo Vale do Sousa, mas a partir daí está entregue a si próprio: a Citânia de Sanfins fica a 15 km do centro de Penafiel e os transportes públicos para Paços de Ferreira são esporádicos e pouco úteis para um visitante. Se vem do Porto sem carro, considere alugar um ou venha numa viagem de um dia organizada a partir do Porto, que normalmente combina a citânia com outras paragens.

Conselho prático: faça da Citânia o primeiro destino do dia. Abre cedo, está exposta ao sol todo o dia, e em julho ou agosto, a partir do meio-dia, andar entre as casas circulares torna-se um exercício de masoquismo. Em compensação, no inverno e em dias de bruma, o sítio fica espectacular, com a serra a aparecer e desaparecer entre nuvens baixas.

A Citânia de Sanfins: o que ver e o que ignorar

A entrada custa poucos euros (confirme localmente, os preços têm mudado) e inclui o acesso ao Museu Arqueológico da Citânia de Sanfins, no antigo solar de Sanfins de Ferreira, mesmo ao lado. Cometa o erro de muitos: ir direto às ruínas e saltar o museu. Não faça isso. Veja primeiro o museu, sobretudo a reconstituição em maqueta do povoado e a réplica do Guerreiro de Sanfins, a famosa estátua granítica encontrada no local em 1944. O original está no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, e essa é uma das discussões mais antigas do norte: porque é que a peça mais importante da Citânia não está em Penafiel? A resposta envolve política museológica dos anos 40 e ainda hoje irrita arqueólogos locais.

Já com a maqueta na cabeça, suba ao povoado. As três muralhas concêntricas, a porta principal virada a sul, o conjunto monumental do centro: tudo ganha sentido depois de ter visto a reconstituição. Procure duas coisas em particular:

  • O "balneário castrejo" na zona alta, uma sauna ritual em pedra com uma pedra formosa esculpida com motivos geométricos. Não está totalmente percebido o que era, mas tudo aponta para um lugar de purificação. É a peça arquitetónica mais elegante de toda a Citânia.
  • O bairro residencial leste, onde se vê melhor a organização interna das casas: vestíbulo retangular, sala circular principal, lareira ao centro. Casas pensadas, não improvisadas.

Conte com duas a três horas para fazer tudo com calma. Leve água, calçado fechado (o piso é irregular e há tojos), chapéu no verão e uma camisola extra no inverno: aquilo é um topo de monte, o vento é honesto.

A Rota dos Castros: porquê fazer mais do que Sanfins

Sanfins é o protagonista, mas a região tem uma densidade castreja invulgar. O Vale do Sousa, entre os concelhos de Penafiel, Lousada, Paços de Ferreira e Felgueiras, foi um território extremamente povoado entre os séculos VI a.C. e o século I d.C., quando a romanização começou a esvaziar os castros e a empurrar a população para as villae no vale. A chamada Rota dos Castros do Vale do Sousa liga vários destes sítios e é perfeitamente possível visitar dois ou três num único dia, embora apenas Sanfins esteja apresentado como um sítio plenamente musealizado.

Os outros valem pela ausência de turistas. O Castro de Monte Mozinho, em Penafiel (a cerca de 12 km da Citânia de Sanfins, do lado oposto do concelho), é o segundo grande sítio da rota. É menos organizado para a visita, mas tem um centro de interpretação na aldeia de Oldrões e oferece uma vista soberba sobre o vale do Tâmega. Curiosamente, Mozinho cresceu durante a romanização (ao contrário de Sanfins, que decaiu), e tornou-se uma das maiores cidades castrejas da Península na fase final da Idade do Ferro. É a contraparte política e cultural de Sanfins, e visitar os dois no mesmo dia é uma aula prática sobre o que aconteceu quando Roma chegou.

O que comer no caminho

Entre uma visita e outra, vai ter fome. A solução natural é comer no centro de Penafiel ou em Paços de Ferreira, dependendo do percurso. As especialidades da zona são robustas: cabrito assado no forno a lenha (típico de domingo e dos almoços de família alargada), arroz de cabidela, e o anho à moda do Vale do Sousa, sempre acompanhado de batata a murro e grelos. Para sobremesa, peça uma fatia de bolo de São Martinho, uma especialidade penafidelense feita com açúcar, canela e ovos, ou as cavacas, que se encontram em qualquer pastelaria do centro histórico.

Não invente: ignore as cervejarias modernas com fachada de aço inoxidável e procure tascas no centro, particularmente na zona da Rua Direita e dos Caetanos. Pergunte ao taxista ou ao rececionista do hotel onde ele almoça quando não está em serviço. É invariavelmente a resposta certa.

O dia depois: Quinta da Aveleda e o vinho verde

Depois de um dia de pedra, faz sentido o contraste de água, jardins e vinho. A Quinta da Aveleda fica a uns 5 km do centro de Penafiel, é provavelmente a propriedade vinícola mais bonita da região do Vinho Verde, e tem a particularidade rara de ser igualmente interessante para quem gosta de vinho e para quem prefere os jardins. A família Guedes está aqui desde o século XIX, e os jardins românticos com lagos, pontes e camélias gigantes foram desenhados ainda no século XIX, com a sensibilidade paisagística da época vitoriana adaptada à exuberância do norte português.

A visita standard é simpática mas correta. Se quer fazer disto uma manhã memorável, vá com tempo e reserve a degustação de vinhos e queijos na Quinta da Aveleda: prova-se uma seleção dos brancos da casa (o clássico Aveleda Fonte, mais comercial, e os Quinta da Aveleda e Follies, mais sérios) com queijos portugueses bem selecionados. Pago, marcado com antecedência, vale o preço se gosta da combinação.

Detalhe importante: vá pela manhã. Os jardins estão sempre melhor com luz oblíqua, e as camélias entre janeiro e março são quase suspeitosamente fotogénicas. Para quem leva máquina fotográfica a sério, ou apenas quer aprender a olhar para o românico e o granito penafidelenses com outros olhos, vale a pena considerar o tour de fotografia em Penafiel, que aborda igrejas românicas como Paço de Sousa e Boelhe, normalmente saltadas pelo turismo de massas.

O Românico do Sousa: o complemento natural dos castros

Se os castros são a pré-história organizada, o românico é o segundo grande capítulo da história arquitetónica da região, e está concentrado numa densidade improvável no Vale do Sousa. O Mosteiro de Paço de Sousa, no concelho de Penafiel, é uma das igrejas românicas mais importantes do país, e onde está sepultado Egas Moniz, o aio de D. Afonso Henriques. Entrada é gratuita, fecha em horário irregular (verificar localmente), e é particularmente bonito ao final da tarde, quando o sol bate de lado no portal principal.

Há também a Igreja de São Pedro de Abragão, a Igreja de Cabeça Santa e o Mosteiro de Bustelo, todos a poucos quilómetros uns dos outros. A Rota do Românico, gerida regionalmente, tem mapas e brochuras nos postos de turismo. Para quem se interessa por arquitetura, este é território fértil: paredes em granito não polido, capitéis com bestiários medievais, e uma sensação geral de que o tempo aqui passa de outra maneira (sem ofensa à norma sobre clichés, mas é literalmente verdade no que respeita ao calendário litúrgico das aldeias).

Onde dormir, onde não dormir

Penafiel cidade tem hotéis funcionais mas pouco memoráveis. Se quer fazer da viagem uma experiência completa, opte por turismo rural na zona, há várias quintas e solares que aceitam hóspedes, particularmente entre Penafiel e Amarante. Alternativamente, fique no centro histórico de Braga (a uma hora de carro) e use Penafiel como destino diurno: é o que muitos viajantes informados fazem, e funciona particularmente bem em primaveras tardias, quando se pode combinar o circuito de castros com a Semana Santa em Braga, uma das mais teatrais e bem preservadas de Portugal.

Sobre alojamento em Paços de Ferreira: prático para ficar perto de Sanfins, mas a cidade é industrial (capital portuguesa do mobiliário) e tem pouco interesse além disso. Se a logística mandar, há hotéis de cadeia perfeitamente confortáveis, mas não venha à procura de charme local.

Quando ir

Maio e junho são meses extraordinários para esta zona: dias longos, vinhas verdes (literalmente), e a Citânia em condições perfeitas de visita. Setembro é igualmente bom, com o bónus das vindimas em Aveleda. Evite o pico de agosto: calor implacável nos castros e estradas secundárias entupidas com tráfego local. Inverno tem o seu charme, mas conte com chuva e nevoeiro, e leve roupa a sério.

O essencial em três pontos

  • Faça primeiro o museu, depois as ruínas. Sem a maqueta na cabeça, a Citânia parece um amontoado pitoresco de pedras. Com ela, lê-se como o que era: uma cidade organizada.
  • Combine Sanfins e Monte Mozinho no mesmo dia. É a única forma de perceber o que aconteceu na transição castrejo-romana. Um caiu, o outro floresceu. Porque?
  • Acabe o fim de semana na Aveleda. O contraste entre o austero, exposto e ventoso topo do Monte do Pilar e os jardins com camélias e pavões da Aveleda é a melhor forma de fechar a viagem.

Penafiel não é um destino óbvio, e por isso é interessante. É uma cidade que vive bem com o seu próprio ritmo, não corre atrás de turistas, e oferece a quem se dá ao trabalho de chegar até cá uma fatia extremamente densa de história portuguesa: dois mil e quinhentos anos em vinte e cinco quilómetros quadrados. É o tipo de viagem que muda como se olha para o resto do norte do país.

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