Penafiel em 24 Horas: Românico, Vinho Verde e Vagar
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Penafiel em 24 Horas: Românico, Vinho Verde e Vagar

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O Porto despreza Penafiel pela janela do comboio, e está errado. Vinho verde a sério na Quinta da Aveleda, cabras numa torre, românico sob nova luz e um miradouro feito para não fazer nada. 24 horas ao ritmo de quem cá vive.

Penafiel é daquelas terras que o Porto despreza pela janela do comboio. A linha do Douro passa-lhe ao lado, toda a gente se lembra de Amarante e do Marão, e Penafiel fica ali, no meio do caminho, a ser ignorada. É um erro. Esta é a capital discreta do românico do Vale do Sousa, território de vinho verde feito a sério e de uma vida de café que não tem pressa nenhuma. Em vez de a riscar de uma lista de viagens de um dia a partir do Porto, proponho o contrário: ficar 24 horas e fazer as coisas ao ritmo de quem cá vive, que é um ritmo deliberadamente lento.

Penafiel fica a 35 minutos do Porto pela A4. De comboio, há ligações regulares na linha do Douro até à estação de Penafiel, mas atenção: a estação fica no fundo do vale, a uns bons dois quilómetros do centro histórico, que está no alto. Vai ter de apanhar táxi ou autocarro para subir. Se puder, venha de carro. Os sítios bons aqui estão espalhados pela paisagem e o transporte público entre eles é uma questão de fé.

Manhã: café primeiro, perguntas depois

Comece pelo óbvio: um café no centro. Penafiel acorda devagar e às 8h30 da manhã o Largo do Padre Américo e as ruas em volta da Câmara estão entregues a quem vai trabalhar e a quem já não trabalha há anos e prefere a esplanada. Peça um galão e uma fatia de bolo de bolacha ou, se tiver sorte com a padaria, uma broa quente. O pequeno-almoço aqui custa-lhe menos de três euros e ninguém o apressa.

O que ninguém lhe diz sobre Penafiel é que o verdadeiro espetáculo não está na cidade, está em redor dela, espalhado pelo Vale do Sousa em forma de igrejas românicas dos séculos XII e XIII. A Rota do Românico passa por aqui com força. São templos de granito baixos, sólidos, com portais esculpidos que parecem desenhados por mãos que tinham todo o tempo do mundo. Não tente vê-los todos num dia: é receita para frustração e dor de pescoço.

A melhor forma de os abordar não é com um guia a debitar datas, é com uma máquina fotográfica na mão e alguém que sabe onde a luz cai. Por isso recomendo começar a manhã com o tour de fotografia que percorre o românico de Penafiel sob nova luz. A vantagem é dupla: aprende a olhar para a pedra em vez de só passar por ela, e leva para casa imagens que valem mais do que cinquenta selfies iguais às de toda a gente. A luz da manhã, oblíqua e baixa, é precisamente a que faz os relevos dos portais saltarem da parede.

Um intervalo verde antes do almoço

Antes de comer, vale a pena esticar as pernas no Parque da Cidade de Penafiel. É um daqueles parques municipais que as cidades pequenas fazem bem e as grandes esquecem: relvados, lagos, caminhos sombreados e uma população de avós, corredores e crianças que o usam como sala de estar ao ar livre. Não é um destino em si, é um respiro. Dez minutos num banco aqui, com o som das crianças ao fundo, fazem-lhe mais pela manhã do que mais uma igreja.

Meio-dia: a Aveleda, e porque é que vale a deslocação

Agora a parte séria. A norte da cidade, a uns dez minutos de carro, está a Quinta da Aveleda, e é provavelmente a melhor razão isolada para vir a Penafiel. É a casa de uma das marcas de vinho verde mais conhecidas de Portugal, mas esqueça o rótulo que vê no supermercado: o que interessa aqui é o sítio. A propriedade está na mesma família desde o século XIX e nota-se na obsessão pelo detalhe.

A maneira certa de a viver é com a degustação de vinhos e queijos na Quinta da Aveleda. O vinho verde é o herói local e merece ser provado em casa: fresco, ligeiramente petulante, com aquela acidez que limpa o palato e pede comida. Provado ao lado de queijos da região, percebe-se de repente porque é que este vinho existe. Não foi feito para impressionar críticos, foi feito para acompanhar uma mesa. Reserve com antecedência, sobretudo ao fim de semana, e conte com cerca de hora e meia. Confirme valores e horários localmente, que mudam com as épocas.

Mas o segredo da Aveleda, o que faz os habitués voltar, não é a adega. São os jardins românticos da Quinta da Aveleda. São talvez os mais bonitos jardins privados do norte de Portugal abertos ao público: caminhos de camélias antigas, fontes, um lago, casotas e construções de fantasia oitocentista, e até cabras anãs que vivem numa torre. Sim, leu bem, cabras numa torre. É o tipo de excentricidade que só uma família rica do século XIX poderia ter inventado e que hoje é puro deleite. Reserve uma hora boa só para deambular sem rumo. Em abril e maio, com as camélias e a glicínia em flor, é difícil bater.

Para o almoço, fique pela região. O Vale do Sousa é terra de comida farta e honesta. Procure um restaurante de aldeia que sirva cabrito assado no forno a lenha ao domingo, ou arroz de cabidela, ou bacalhau à moda do norte. Acompanhe, claro, com vinho verde da casa, servido em malga ou copo grosso. Uma refeição completa com vinho num sítio destes anda pelos 15 a 20 euros por pessoa. Fuja dos sítios com fotografias dos pratos na montra: nessa parte do país, isso é quase sempre mau sinal.

Tarde: subir ao Sameiro

Depois do almoço, com o vinho verde a pedir uma caminhada para assentar, suba ao Jardim do Sameiro, o Parque Zeferino de Oliveira. É o miradouro da cidade, um jardim em socalcos no ponto mais alto de Penafiel, de onde se vê o vale do Sousa a abrir-se em todas as direções. É o sítio onde os penafidelenses levam quem os visita para mostrar a terra. Vá ao fim da tarde, quando a luz aquece e os campos lá em baixo passam a dourados. Leve uma garrafa de água, sente-se num banco de pedra e não faça absolutamente nada durante meia hora. É o melhor uso possível do seu tempo.

Se ainda lhe sobrar energia e a manhã de fotografia lhe abriu o apetite para a pedra românica, esta é a hora de revisitar uma ou duas igrejas pela conta própria, agora que já sabe o que procurar. A luz do final do dia sobre o granito é diferente da da manhã, mais quente, e os mesmos portais contam-lhe outra história.

Comparar com os vizinhos

Penafiel funciona muito bem como porta de entrada para um norte mais largo. Se este dia lhe souber a pouco, a uns quarenta minutos está Braga, e vale conhecer o nosso guia da cidade que não pede licença ao tempo. E se calhar viajar na primavera, a Semana Santa em Braga é um dos espetáculos religiosos mais impressionantes da Península. Penafiel pode muito bem ser a primeira noite de uma rota mais longa pelo Minho e pelo Douro.

Noite: jantar sem pressa

Penafiel não é uma cidade de vida noturna, e ainda bem. A noite aqui é uma questão de mesa. Jante por volta das 20h, à portuguesa tardia, num dos restaurantes do centro. Se o almoço foi de carne, equilibre com peixe: bacalhau, em qualquer das suas mil formas, raramente desilude no norte. Volte ao vinho verde ou, se quiser subir um degrau, peça um tinto do Douro, que está logo ao lado. Termine com um doce conventual e um café cheio.

A seguir, dê um passeio pelas ruas do centro histórico já sem o movimento do dia. As fachadas de granito iluminadas, as esplanadas a fechar, o silêncio que se instala: é nessa altura que Penafiel mostra quem é de verdade. Uma cidade que não precisa de provar nada a ninguém e que sabe perfeitamente que quem cá chega volta a aparecer.

O essencial, em três linhas

  • Como chegar: 35 minutos de carro do Porto pela A4. De comboio na linha do Douro, mas a estação fica longe do centro, em baixo no vale.
  • Quando ir: primavera, pelas camélias da Aveleda e pela luz sobre o granito. Evite o pico do calor de agosto a meio do dia.
  • Reservas: marque a degustação na Aveleda e o tour de fotografia com antecedência, sobretudo ao fim de semana. Confirme sempre horários localmente.
  • Orçamento: conte com 50 a 80 euros por pessoa para um dia completo com tour, degustação e duas refeições.

No fim, o truque de Penafiel é este: não tente vencê-la, acompanhe-a. Beba o vinho à temperatura certa, deixe as cabras na torre surpreendê-lo, sente-se no Sameiro a ver o vale e perceba que viagens curtas, bem feitas, valem mais do que três cidades despachadas num dia. O Porto que continue a olhar pela janela do comboio. Você fica.

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