Quinta da Aveleda
Penafiel
Oito hectares de jardim romântico inglês com sequoias, sobreiros e um eucalipto centenário, plantados por seis gerações da família Guedes da Silva. A Aveleda continua a ser casa privada e adega em laboração, e é essa diferença que se sente. Vá com sapatos fechados e reserva feita.
Há uma certa arrogância em chamar a qualquer jardim português de "romântico" sem qualificar o termo. O século XIX inundou a Europa de imitações de Capability Brown, paisagens artificialmente desarrumadas para parecerem naturais, com lagos que não deviam estar ali e ruínas falsas construídas de propósito. Os Jardins da Quinta da Aveleda, em Penafiel, são a exceção honesta a esse pastiche. Têm cento e tal anos de árvores que cresceram exatamente onde deviam, e foi a família Guedes da Silva quem, ao longo de seis gerações, decidiu deixá-las em paz.
Oito hectares. É a primeira coisa que se deve perceber antes de calçar sapatos errados. Não é um jardim de domingo à tarde com uma volta de quarenta minutos, é uma propriedade com declives, caminhos de terra batida, recantos com bancos de pedra húmida e árvores que exigem que se levante o queixo até doer o pescoço. Há sequoias plantadas no final do século XIX, sobreiros que viram passar a Primeira República, e um eucalipto centenário que é, francamente, o protagonista silencioso de tudo isto. Não vá esperar canteiros geométricos à francesa: a Aveleda foi pensada à inglesa, com o jardim a fingir que sempre esteve ali, e a verdade é que, ao fim de tanto tempo, já é difícil acreditar no contrário.
Os caminhos levam a uma série de pequenas construções decorativas: um templete neogótico, uma capelinha, uma fonte com azulejos. Algumas são autênticas peças do romantismo tardio português, outras foram acrescentadas porque ficavam bem na fotografia da época. Não interessa muito distinguir umas das outras. O conjunto funciona.
A morada é Rua da Aveleda, nº 2, 4560-570 Penafiel. A quinta fica na freguesia de Lordelo, a cerca de cinco quilómetros do centro de Penafiel, e é um daqueles sítios em que o GPS funciona bem mas a sinalização local também: a Aveleda é instituição, toda a gente sabe onde fica. De carro, saída da A4 em Paredes/Penafiel, depois alguns minutos por estrada nacional. Sem carro, há autocarros locais que servem Lordelo, mas o horário é o que é, e o táxi a partir de Penafiel não fica caro.
Se vem do Porto, conte com 35 a 40 minutos de carro fora das horas de ponta. Vale a pena emparelhar a visita com uma manhã em Penafiel, que tem mais para oferecer do que a fama lhe dá: leia o nosso guia sobre a cidade para famílias ou, se gosta de coisas mais concretas, o roteiro de artesanato.
A Aveleda não é só jardim. É uma das adegas históricas de Vinho Verde, a casa que produz a marca Aveleda e o Casal Garcia, que provavelmente bebeu numa esplanada qualquer sem prestar grande atenção. A visita combina o jardim com a parte vitivinícola, e a recomendação honesta é: faça as duas coisas. O jardim sozinho é bonito, mas perde metade do contexto sem perceber porque é que aquela família ali plantou árvores em vez de mais vinhas.
As visitas funcionam por marcação. Não apareça à porta a contar entrar, especialmente ao fim de semana. Telefone para o +351 255 718 200 ou marque pelo site oficial em aveleda.com. Há vários tipos de experiência, da mais simples (visita ao jardim e prova de dois vinhos) à mais elaborada, com almoço e prova alargada. O preço entra na categoria €€: razoável para o que oferece, sem ser baixo. Confirme diretamente o valor e os horários, que variam por época do ano e não estão necessariamente publicados de forma consistente.
Sapatos fechados, sempre. Os caminhos têm pedra solta, raízes e zonas húmidas onde até em pleno verão há sombra e musgo. Se chove, é lama. Leve casaco mesmo em dias quentes: o coberto vegetal cria um microclima sensivelmente mais fresco do que a temperatura de Penafiel ali ao lado. Se vem com crianças, ótimo, há espaço para correr, mas não há parque infantil nem cafetaria-cantina dentro do jardim. Para isso, o Parque da Cidade de Penafiel serve melhor outro tipo de tarde.
Maio e junho são os meses bons. As camélias já passaram, as hortênsias ainda não rebentaram em pleno, mas a luz é a melhor do ano e os jardins respiram. Setembro também: vindima, cheiro a mosto, menos turistas. Evite agosto se puder, não pelo calor (que é tolerável sob o coberto), mas porque é a altura em que toda a gente decide visitar adegas no Norte e o ritmo das visitas guiadas perde a calma que faz com que valha a pena estar ali.
Se calhar visitar Penafiel em junho, aproveite as Festas do Corpo de Deus: a cidade transforma-se durante uns dias e o contraste com a quietude da Aveleda é interessante. Para quem vem em julho, o Penafiel Racing Fest traz outro tipo de visitante à região.
A Aveleda é daquelas visitas que se justificam por si só, mesmo que não goste particularmente de vinho. Vá pelos jardins, fique pela prova, saia com a sensação de que finalmente percebeu o que é o Vinho Verde sem ser pelo guardanapo da esplanada. É o tipo de propriedade que continua privada e em funcionamento, e isso nota-se: nada disto é cenário, é uma casa que ainda é casa, com gente que trabalha lá, e essa diferença é a razão pela qual a Aveleda não cheira a museu.