Penafiel a Pé: Trilhos por Dificuldade e Paisagem
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Penafiel a Pé: Trilhos por Dificuldade e Paisagem

· · Penafiel

Toda a gente passa por Penafiel a caminho do Douro e quase ninguém calça as botas. Erro. Do passeio plano no Parque da Cidade às descidas duras ao rio Sousa, eis os trilhos da cidade organizados por dificuldade e paisagem, com prova de vinho verde como recompensa.

Penafiel não se vende a si própria. Fica a quarenta minutos do Porto pela A4, toda a gente passa por ela a caminho de Amarante ou do Douro, e quase ninguém pára para calçar as botas. Erro. Esta é terra de vale, de rio Sousa a cavar granito, de socalcos de vinha verde e de igrejas românicas que parecem ter sido plantadas no século XII e esquecidas ali. Andar a pé por aqui não é um desporto extremo: é a forma certa de perceber por que razão esta parte do Vale do Sousa tem a densidade de património que tem. Organizei o que se anda em Penafiel por dificuldade e por aquilo que se vê, do passeio de domingo de sapatilhas à caminhada que pede joelhos em condições. Sem inventar quilometragens que não confirmei: onde houver dúvida, confirme localmente no posto de turismo.

Antes de começar: o terreno e a estação

Penafiel é norte profundo, o que significa duas coisas. Primeiro, é verde porque chove, e chove a sério de novembro a março. Os trilhos junto ao rio ficam escorregadios e o granito molhado é traiçoeiro, por isso a melhor janela vai de abril a outubro, com maio e setembro a ganharem por pontos: temperatura amena, luz longa, e a vinha ou rebentada ou carregada. Segundo, o desnível aqui não vem de montanha alta, vem de vale encaixado. Sobe-se e desce-se constantemente entre a cota do rio e os planaltos das aldeias. Parece pouco no mapa e cansa mais do que se espera.

Leve água, porque as fontes nem sempre são de confiança, e calçado com piso, não ténis de cidade. E uma nota prática que muita gente ignora: o transporte público para os pontos de partida rurais é fraco. Se vier do Porto sem carro, a caminhada mais honesta começa e acaba na própria cidade.

Nível 1: Fácil, para todos, paisagem urbana e ajardinada

Volta ao Parque da Cidade

Se nunca andou em Penafiel, comece aqui. O Parque da Cidade de Penafiel é o aquecimento perfeito: caminhos planos, sombra, lago, e a vantagem nada despicienda de ter casas de banho e cafés por perto. É o trilho que recomendo a quem viaja com crianças, com avós, ou simplesmente com vontade de esticar as pernas sem compromisso. Vá ao fim da tarde, quando a luz desce sobre a relva e a cidade vem cá para fora fazer a sua própria volta. Dá para fazer várias voltas e somar distância sem nunca se afastar do conforto.

A meia hora de passo lento por aqui não vos transforma em montanhistas, mas serve para calibrar as pernas e para perceber a escala da cidade antes de subir aos miradouros.

O Sameiro, miradouro de bolso

Subindo um degrau na exigência, mas ainda firmemente no território do fácil, está o Jardim do Sameiro, também conhecido como Parque Zeferino de Oliveira. É um jardim de cota alta com vistas sobre o vale, e o truque é usá-lo como ponto de chegada de uma subida a pé desde o centro em vez de lá ir de carro. A subida pelas ruas da cidade aquece o motor, e a recompensa no topo é a paisagem do Sousa a abrir-se. Leve um lanche. É o género de sítio onde apetece ficar sentado mais tempo do que estava previsto.

Nível 2: Moderado, onde a paisagem paga o esforço

Os jardins e a vinha da Aveleda

Aqui entramos no que faz Penafiel valer a viagem. A Quinta da Aveleda é a casa do vinho verde que provavelmente já bebeu sem saber que era daqui, e a melhor maneira de a conhecer não é com o copo na mão à entrada, é a pé. Os jardins históricos da Quinta da Aveleda são um passeio em si mesmo: caminhos de buxo, camélias, fontes, animais, e aquele desenho romântico de jardim oitocentista que se anda devagar de propósito. O piso é cuidado e plano, por isso a dificuldade não está no terreno, está em querer ver tudo, que dá facilmente uma manhã.

O passo natural a seguir é alongar a caminhada pelos socalcos de vinha em redor. É aqui que a paisagem de Penafiel se torna verdadeiramente fotogénica: linhas de cepas, granito, e o verde que dá nome ao vinho. E já que estamos no tema, a melhor forma de fechar uma caminhada matinal é com a degustação de vinhos e queijos na própria quinta. Andar primeiro, beber depois, nunca o contrário: o granito molhado já é escorregadio que chegue sem ajuda do Loureiro. Confirme horários de visita e prova com antecedência, porque a quinta funciona com marcação e há épocas com mais procura.

O vale do Sousa e a Rota do Românico a pé

Penafiel é uma das capitais não oficiais da Rota do Românico, o circuito de igrejas, mosteiros e pontes medievais do Vale do Sousa. A maior parte das pessoas faz isto de carro, igreja a igreja, e perde precisamente a parte boa: os caminhos rurais que ligam os monumentos, por entre socalcos, soutos e aldeias de pedra. Caminhar parte deste território, mesmo que só um troço entre dois pontos românicos, muda completamente a experiência. Não invento aqui distâncias exatas nem numeração de percursos pedestres oficiais: peça o mapa atualizado no posto de turismo de Penafiel ou nos centros de interpretação da Rota, que indicam os troços sinalizados e o estado dos pisos.

O que posso garantir é o tipo de esforço. São caminhadas de subir e descer, de chão irregular, de granito e terra batida, ótimas em maio quando os campos estão verdes e duras em agosto à hora de almoço. Comece cedo. A luz da manhã no Vale do Sousa é a melhor que a região tem para dar, e há quem leve isso a sério ao ponto de fazer destes caminhos um exercício de fotografia. Se é o seu caso, o tour de fotografia pelo românico de Penafiel é a forma de aprender a ler estas pedras com outros olhos, guiado por quem conhece a luz e os ângulos.

Nível 3: Difícil, ou pelo menos exigente para as pernas

Difícil em Penafiel não quer dizer alta montanha. Quer dizer descer ao rio e voltar a subir, várias vezes, com peso às costas e sol em cima. Os troços junto ao Sousa, em particular os que descem a margens encaixadas e a antigas azenhas e pontes, são os que mais castigam, sobretudo na volta, quando o que era uma descida agradável se transforma numa subida que não acaba. Aqui o granito molhado é mesmo um perigo, não uma figura de estilo: depois da chuva, esses caminhos pedem bastão e cabeça fria.

Quem quiser somar distância e desnível deve encadear: começar no centro, subir ao Sameiro, descer ao vale, apanhar um troço da Rota do Românico e regressar. É um dia inteiro, e é a única forma de perceber Penafiel como um corpo só, em vez de pontos soltos num mapa. Leve almoço, porque entre aldeias nem sempre há onde comer, e os horários do comércio rural são generosos com a sesta. Não conte com cafés abertos a meio da tarde fora do centro.

Uma palavra sobre orientação: a sinalética da Rota do Românico é boa nos monumentos, mas os troços pedestres entre eles variam de manutenção. Não parta para o nível 3 só com intuição. Use mapa offline no telemóvel e, idealmente, fale com o turismo antes de ir, sobretudo se for sozinho.

Como organizar o dia, e o fim de semana

Se tem só uma manhã, faça os jardins da Aveleda e o Parque da Cidade, almoce na cidade e prove os vinhos verdes da região. Se tem um dia inteiro e pernas, troque os jardins por um troço a sério do vale do Sousa e suba ao Sameiro ao fim da tarde para a luz. Se tem fim de semana, divida: um dia de caminhada exigente, outro de românico e prova com a câmara ao pescoço.

Penafiel também funciona lindamente como base ou como paragem dentro de um plano maior. Se está a montar fugas a partir da cidade grande, vale a pena cruzar isto com o nosso guia das melhores viagens de um dia a partir do Porto, porque a combinação caminhada de manhã e vinho à tarde é exatamente o tipo de programa que justifica sair da cidade. E se quer alargar o roteiro para o coração do Minho, o nosso guia de Braga encaixa bem num norte feito de igrejas, jardins e mesa farta. Se calhar viajar na primavera, atenção que coincide com a Semana Santa em Braga, e isso muda alojamento e estradas em todo o norte.

O que comer quando as pernas pedem tréguas

Norte que se preze recompensa o esforço à mesa, e o Vale do Sousa não foge à regra. Não vou inventar nomes de restaurantes que não conheço o suficiente para garantir, mas digo-vos o que procurar: cabrito assado ao domingo, bacalhau em todas as suas formas, broa de milho a sério, e, claro, vinho verde da região servido bem fresco. Depois de uma caminhada de manhã, um almoço demorado com cabrito e uma garrafa de Loureiro ou Alvarinho é a definição correta de tempo bem gasto. Pergunte onde almoçam as pessoas que trabalham, não onde param os autocarros. A resposta costuma estar a uma rua de distância dos sítios óbvios.

O essencial, sem rodeios

  • Melhor época: de abril a outubro. Maio e setembro são o ponto doce. Evite os trilhos de rio depois de chuva forte.
  • Fácil: Parque da Cidade e Jardim do Sameiro. Plano, seguro, bom para todas as idades.
  • Moderado: jardins da Aveleda e socalcos de vinha, mais troços sinalizados da Rota do Românico.
  • Difícil: descidas ao Sousa e encadeamento centro-Sameiro-vale-românico num dia. Bastão recomendado.
  • Logística: venha de carro se quiser os pontos rurais. Sem carro, fique pela cidade e jardins.
  • Confirme localmente: horários da Quinta da Aveleda, estado dos troços pedestres e mapas atualizados da Rota do Românico.

Penafiel paga a quem anda. Não é uma cidade de fotografia rápida à janela do carro: é uma cidade de pernas, de subir ao miradouro, de descer ao rio, de atravessar a vinha até à pedra românica. Calce as botas, comece cedo, e deixe o vinho para depois da última subida.

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