O Outro Lado de Tomar: Para Lá dos Templários
A maioria dos visitantes chega a Tomar pelo Convento de Cristo e vai-se embora ao fim do dia, convencida que viu a cidade. Não viu. A Tomar real começa às 18h, quando os autocarros partem, e este é o guia honesto para a encontrar.
Toda a gente vai a Tomar pelo Convento de Cristo. Sobem a colina, fotografam a Charola, compram um íman com a cruz templária, almoçam uma sopa de pedra apressada num restaurante da Praça da República, e às 16h já estão de volta à autoestrada. Saem convencidos de que viram Tomar. Não viram. Viram a capa do livro.
A cidade real, a que continua a funcionar quando os autocarros de turistas se vão embora, está nas margens. Está no Nabão a passar debaixo da Ponte Velha às sete da manhã, quando o nevoeiro ainda cobre a Mata dos Sete Montes. Está nas tasquinhas da Rua dos Moinhos onde se almoça por menos de dez euros sem ementa em quatro idiomas. Está na Levada, naquele bairro à beira-rio que poucos visitantes sequer sabem que existe, com os seus armazéns industriais a serem reconvertidos em ateliers e o cheiro a fermento dos pequenos lagares.
Este é um guia honesto para o outro Tomar. Não vou dizer-vos para saltar o Convento de Cristo, seria absurdo. Mas vou dizer-vos o que fazer depois, e onde dormir para que a cidade vos pertença um pouco mais do que pertence a quem dorme em hotel no centro e vai embora ao fim do dia.
O erro de chegar e ir embora no mesmo dia
Tomar não é um destino de day-trip, por mais que os tour operators de Lisboa insistam o contrário. A cidade muda completamente depois das 18h, quando o último autocarro turístico se vai e as esplanadas da zona ribeirinha começam a encher-se de locais. É essa a Tomar que vale a viagem.
O truque está em dormir fora. Não num hotel de cidade, num daqueles ruidosos lugares na Avenida Cândido Madureira. Dormir mesmo fora, na quinta, com vista de campo e sem trânsito, e fazer da cidade uma incursão diária em vez de uma maratona.
A minha primeira escolha é sempre a Quinta do Troviscal, junto à Albufeira de Castelo do Bode. É uma casa de família reconvertida em pequena unidade de turismo rural, com pomar, piscina virada para a barragem, e aquele silêncio que só se encontra a vinte minutos das primeiras luzes de Tomar. Os pequenos-almoços são feitos com fruta da propriedade e pão de uma padaria local. Para quem quer combinar a cidade com a barragem, e quem o não quer no Verão, é a base certa.
Se preferirem ficar do lado oposto, na floresta de pinhal a norte da cidade, a Quinta São José dos Montes é o tipo de sítio onde se chega para duas noites e se acaba a ficar quatro. É discreta, bem cuidada, com aquela hospitalidade rural que não é encenada para Instagram. Boa para quem viaja com crianças ou cães.
E depois há a Quinta da Ti Júlia, que é a opção mais pequena e mais íntima das três. Pequenas casas independentes, jardim, e uma simpatia genuína que faz a diferença numa estadia curta. Reservem com antecedência, especialmente nos meses da Festa dos Tabuleiros, ou nem pensem.
A vista que ninguém vos diz para ver
Toda a gente fotografa o Convento por fora. Pouca gente sobe ao Miradouro do Castelo de Tomar ao fim da tarde, quando a luz do sol baixa pela colina do Nabão e a cidade fica cor de telha velha. É uma subida curta, dez minutos a pé desde a Praça da República, e é o melhor sítio para perceber a geografia da cidade: a mata em baixo, o rio a desenhar um S, o Convento em cima como um navio encalhado.
Vão de tarde, por volta das 18h30 entre Maio e Setembro, mais cedo no Inverno. Levem uma garrafa de água, sentem-se num dos muros baixos, e fiquem até o castelo se acender. Não fotografem demasiado. Esta é uma daquelas vistas que ganha em ser olhada com calma.
Onde comer (e onde não comer)
Falo com franqueza: a maior parte dos restaurantes do centro histórico de Tomar vive do turismo de passagem, e nota-se. Ementas em quatro idiomas, fotografias dos pratos, sopa de pedra a sete euros com sabor a cubo de caldo. Há excepções, mas é preciso saber procurar.
A regra simples: afastem-se da Rua Serpa Pinto e da praça principal na hora de almoço. Vão para a zona da Várzea Pequena, para a zona ribeirinha do lado norte do Nabão, ou para os bairros a subir em direcção a Santa Iria. É aí que estão as casas onde os tomarenses almoçam o prato do dia por sete ou oito euros, com sopa, café e um copo de tinto incluídos.
O que pedir, sem hesitar:
- Sopa de pedra: sim, é um clichê, mas é da região (Almeirim fica perto e a tradição estendeu-se). Só peçam em casas onde a virem servir aos locais. Se a ementa traz fotografia, fujam.
- Bacalhau à Tomar: menos célebre que o à Brás ou o à Gomes de Sá, é a versão local com batata e ovo, cozinhado lentamente no forno. Em casas certas, é memorável.
- Fatias de Tomar: a sobremesa local, feita só de gemas e cozida a vapor numa panela específica. Não confundam com fatias douradas, são outra coisa. Acompanham bem com calda de canela.
Para o pequeno-almoço, esqueçam os hotéis. Procurem uma pastelaria de bairro qualquer onde o pão venha do forno ao lado e o café custe menos de um euro. É aí que se ouve a cidade a acordar.
A Mata dos Sete Montes ao amanhecer
É o pulmão de Tomar e quase ninguém de fora sabe que existe. Trinta e nove hectares de floresta dentro da cidade, atrás do Convento, com trilhos sombreados, uma fonte renascentista (a Fonte da Charola, que pouca gente visita porque está escondida no meio do bosque), e um silêncio que se nota mais por ser tão central.
O conselho prático: vão pela manhã cedo, antes das 9h. No Verão é a única hora civilizada, com a temperatura ainda agradável. No Inverno é quando o sol coa entre os pinheiros e os carvalhos de uma forma que vale a caminhada. A entrada é livre, e há vários percursos sinalizados de uma a duas horas.
Levem calçado confortável e, se for verão, repelente. Não há cafés dentro da mata, por isso bebam o café antes ou tragam água.
O rio que ninguém atravessa
O Nabão divide Tomar em duas e a maior parte dos visitantes só pisa o lado oeste, o do Convento e da Praça. O lado leste, a partir da Ponte Velha em direcção à zona ribeirinha sul, é onde está alguma da Tomar mais autêntica.
Andem pela Avenida Marquês de Tomar a pé, ao fim da tarde, quando os locais saem para passear até à zona dos Açudes. Atravessem a passagem pedonal junto ao mercado municipal e subam um pouco em direcção ao bairro da Várzea Pequena. As casas baixas, os quintais com laranjeiras, os pequenos talhos e mercearias: é aqui que se percebe que Tomar não é só uma cidade-postal templária, é uma cidade do interior do Centro com vida própria.
O mercado municipal, já agora, é melhor à sexta de manhã. Vão cedo. Comprem fruta da época, queijo de cabra da serra de Aire e Candeeiros, e azeite a granel se levarem garrafa. Custa metade do que pagam num supermercado e o sabor é outro.
Quando ir (e quando definitivamente evitar)
A grande pergunta. Os Tabuleiros, a festa quadrianual de Julho, são espectaculares, mas é como pensar em ir ao Porto durante o São João: ou se vai por isso, com tudo o que implica de multidão e preços, ou é melhor escolher outra altura. A próxima edição é em 2027.
As minhas preferências, por ordem:
- Maio: os campos em redor verdes, temperaturas perfeitas para caminhar, dias longos, e poucos turistas. O melhor mês, sem grande dúvida.
- Outubro: a luz do outono em Portugal central tem qualquer coisa de italiana, e a região de Tomar fica linda. Vindima já passou, mas há ainda restaurantes a fazer pratos de caça.
- Final de Janeiro/Fevereiro: frio, sim, mas o Convento praticamente vazio, e as quintas de turismo rural a metade do preço. Para quem aguenta uma lareira ao fim do dia, é uma das melhores formas de ver a cidade.
Evitar: Agosto a partir do dia 10, sobretudo aos fins-de-semana. Não é Tomar a culpa, é o calendário de férias de toda a gente.
Fugir da cidade sem fugir da região
Tomar é também base. A região oferece duas ou três coisas que vale a pena fazer e que poucos visitantes integram na visita.
A primeira é subir aos céus, literalmente. Voar de parapente sobre o coração do Ribatejo é uma das experiências mais memoráveis que se podem fazer na zona, e a vista panorâmica sobre o Tejo, os olivais e os campos do Ribatejo dá uma perspectiva que nenhuma fotografia restitui. Os voos biplaça com instrutor estão disponíveis para principiantes, mas dependem das condições meteorológicas, por isso confirmem com antecedência e tenham um plano B.
Para um dia mais terra-a-terra, e se levarem o carro, uma das melhores escapadas é subir a Viseu e fazer um troço da Ecopista do Dão de bicicleta, entre Viseu e Santa Comba. Não é a Tomar, claro, mas a uma hora e meia de carro, com uma noite por meio, faz uma combinação interessante para quem está a fazer Centro de Portugal.
Para quem gosta de guias honestos
Se este artigo vos interessou, há mais guias na mesma linha editorial que vale a pena ler antes de fazer a vossa rota pelo Centro de Portugal. O guia honesto dos trilhos de Abril em Caldas da Rainha serve para quem quer combinar Tomar com uma escapada à costa oeste sem cair em armadilhas turísticas. A Queima das Fitas de Coimbra explicada com franqueza é leitura obrigatória para quem vai estar em Maio e pensa em desviar-se até Coimbra. E para os que querem perceber a peregrinação de Fátima sem a brochura oficial, o guia honesto da peregrinação de 13 de Maio a Fátima dá o contexto que falta na maior parte dos sites.
A última coisa
Tomar não precisa de ser dramatizada. Não é uma cidade de mistério ou de segredos antigos por revelar. É uma cidade de província do Centro de Portugal, com um Convento espectacular, um rio bonito, e uma maneira muito sua de se viver sem pressas que se perde se a visitarem em quatro horas a meio de um circuito.
A diferença está em ficar uma noite. Em sentar-se ao Nabão ao fim da tarde. Em entrar numa tasca onde não esperam turistas e pedir o prato do dia sem perguntar o que é. Em acordar numa quinta a meia hora da cidade e levar o pequeno-almoço para o jardim. É isto que ninguém vos diz e é exactamente isto que faz a diferença entre ter ido a Tomar e ter conhecido Tomar.