O Outro Lado de Ribeira Grande: Para Lá do Cartão-Postal
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O Outro Lado de Ribeira Grande: Para Lá do Cartão-Postal

· · Ribeira Grande

A maioria dos visitantes de São Miguel passa por Ribeira Grande a caminho de outro destino. É um erro. Entre as únicas plantações de chá da Europa, o areal negro de Santa Bárbara e uma mesa sem filtros, a costa norte guarda o lado mais honesto dos Açores.

Ribeira Grande tem um problema de marketing. Fica na costa norte de São Miguel, a menos de trinta minutos de Ponta Delgada, e a maioria dos visitantes passa por lá a caminho de outra coisa qualquer, das lagoas, das fumarolas, do centro histórico da capital. Quando param, é para tirar uma foto à ponte sobre a ribeira e seguir viagem. É uma pena. Porque Ribeira Grande é, provavelmente, a cidade mais honesta dos Açores: não tenta ser nada que não é, e é exactamente por isso que merece a vossa atenção.

Uma Cidade que Trabalha

A primeira coisa que se nota em Ribeira Grande é que não é um cenário montado para turistas. É uma cidade que trabalha. Há lojas de ferragens, mercearias com tomates empilhados à porta, cafés onde os velhos se sentam de manhã à noite sem que ninguém lhes peça para consumir mais. O centro histórico, organizado em torno da Igreja Matriz do Espírito Santo e da ribeira que dá nome à cidade, tem a escala certa, suficientemente pequeno para se percorrer a pé em meia hora, suficientemente grande para ter surpresas.

A arquitectura é aquele barroco açoriano despretensioso, com fachadas brancas e molduras em basalto negro que não precisam de iluminação cenográfica para impressionar. A Torre do Relógio, no centro, é o ponto de referência. Não é monumental, é útil, que é melhor. A partir dali, qualquer direcção serve.

O Norte É Outro Filme

A costa norte de São Miguel não se parece nada com a costa sul. É mais agreste, mais verde, mais despenteada. O mar aqui é bravo e as praias não são para estender toalha e bronzear, são para respeitar. E é exactamente isso que as torna extraordinárias.

Santa Bárbara é o exemplo perfeito. Uma praia de areia vulcânica negra, enquadrada por arribas cobertas de vegetação, com uma ondulação que atrai surfistas de toda a Europa. Se nunca fizeram surf em areia preta, com o Atlântico Norte a rugir, leiam o que escrevemos sobre uma sessão ao nascer do sol em Santa Bárbara, é uma experiência que muda a perspectiva sobre o que os Açores podem ser. Não é Bali, não quer ser. É melhor, porque é real e porque a água está fria o suficiente para vos lembrar que estão vivos.

Para quem não surfa, o passeio ao longo da costa entre Ribeira Grande e Santa Bárbara já vale a deslocação. O contraste entre os pastos verdíssimos e o basalto negro das formações costeiras é daquelas coisas que nenhuma fotografia consegue captar.

O Chá Que Ninguém Esperava

Vamos ser directos: a maioria das pessoas não associa a Europa à produção de chá. E no entanto, a poucos quilómetros de Ribeira Grande, estão as únicas plantações de chá da Europa. A Gorreana, a funcionar desde 1883, e Porto Formoso, mais pequena mas igualmente fascinante.

Já escrevemos em detalhe sobre as plantações da Gorreana e Porto Formoso, e vale a pena ler antes de ir. Mas o resumo é este: as fileiras de chá a perder de vista, com o oceano como pano de fundo, são uma das imagens mais improváveis e bonitas que vão encontrar em Portugal. A Gorreana tem visita livre e gratuita, podem percorrer os campos, ver a fábrica (que ainda usa maquinaria do século XIX), e provar os diferentes tipos de chá no final. Levem para casa o chá verde, é surpreendentemente bom e custa poucos euros.

Porto Formoso é mais intimista e menos visitada. Se tiverem de escolher uma, depende do que procuram: escala e história na Gorreana, tranquilidade em Porto Formoso. O meu conselho: façam as duas, estão a dez minutos uma da outra.

Comer em Ribeira Grande

A gastronomia de Ribeira Grande é a gastronomia de São Miguel sem os filtros. Não esperem menus de degustação com espuma de maracujá dos Açores, esperem porções generosas de cozido, peixe fresco, e queijo de São Jorge que chega de barco.

O A Merenda é o tipo de restaurante que faz Ribeira Grande valer a paragem ao almoço. Sem pretensões, sem decoração pensada para o Instagram, mas com comida que sabe exactamente ao que deve saber. É o tipo de sítio onde os locais comem, o que, na minha experiência, é sempre o melhor indicador.

De resto, a regra de ouro nos Açores aplica-se aqui: se vêem pescadores ou agricultores a almoçar num sítio, sigam-nos. Evitem os restaurantes junto às atracções turísticas, e procurem os que estão nas ruas secundárias do centro. Bife regional com molho de pimenta da terra é quase sempre uma aposta segura em qualquer mesa de São Miguel.

Para quem quiser explorar a cena gastronómica da ilha com mais profundidade, o nosso guia sobre uma expedição gastronómica por Ponta Delgada é um bom complemento, mas atenção, Ponta Delgada e Ribeira Grande são mundos diferentes à mesa. Em Ponta Delgada há mais oferta e mais variedade. Em Ribeira Grande, há mais autenticidade.

O Que Fazer Com Um Dia

Ribeira Grande não precisa de uma semana. Precisa de um dia inteiro, bem gasto. Aqui vai como eu o faria:

  • Manhã cedo: Café no centro, passeio pelas ruas antes das lojas abrirem. É quando a cidade é mais ela própria.
  • Meio da manhã: Plantações de chá, Gorreana primeiro, Porto Formoso depois. Reservem duas horas no total.
  • Almoço: Voltar ao centro para comer. A Merenda ou qualquer tasca que vos pareça cheia de locais.
  • Tarde: Praia de Santa Bárbara. Mesmo que não façam surf, o passeio costeiro e o cenário valem a viagem.
  • Final de tarde: De volta ao centro para um último café e uma caminhada ao longo da ribeira.

Quem tiver carro alugado (e devem ter, os autocarros em São Miguel existem mas não são práticos para turismo), Ribeira Grande fica a cerca de 25 minutos de Ponta Delgada pela estrada regional. O estacionamento no centro é fácil e, na maioria dos casos, gratuito.

O Contexto Maior

Os Açores estão a mudar. O turismo cresceu muito nos últimos anos, e Ponta Delgada já começa a sentir a pressão. Ribeira Grande ainda não, e é isso que a torna tão interessante agora. Não daqui a cinco anos, quando houver mais hostels e mais menus em inglês. Agora.

Se estão a planear uma viagem aos Açores e querem ir além de São Miguel, o nosso guia sobre 24 horas na Horta mostra outro lado do arquipélago, mais cosmopolita, mais virado para o mar aberto. E para quem quer os melhores panoramas do Faial, as vistas da Horta são difíceis de bater.

Mas voltemos a Ribeira Grande. O que esta cidade oferece não é espectáculo, é substância. Uma cidade real, com gente real, que não precisa da vossa aprovação mas que, se lhe derem tempo, vos vai surpreender. Não é o Açores do drone footage e dos reels de Instagram. É o Açores de verdade. E é bastante melhor.

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