NOS Alive em Algés: Guia Honesto do Festival em Lisboa
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NOS Alive em Algés: Guia Honesto do Festival em Lisboa

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Três dias no Passeio Marítimo de Algés, com o Tejo a refletir o pôr do sol e Lisboa a quarenta minutos de comboio. Um guia honesto para fazer o NOS Alive bem, sem cair em erros de principiante.

Há uma verdade incómoda sobre o NOS Alive que ninguém te diz quando compras o bilhete em Janeiro, ainda eufórico com o cartaz: o festival começa muito antes de pisares o recinto do Passeio Marítimo de Algés. Começa às 14h, quando decides se vais apanhar o comboio em Cais do Sodré ou se vais arriscar o Uber pela Marginal. Começa quando escolhes entre comer uma refeição decente antes ou render-te aos preços de dentro. E começa, sobretudo, quando percebes que três dias a dançar até às três da manhã exigem uma estratégia, não improviso.

Este guia é para quem quer fazer o NOS Alive bem. Não o festival idealizado das fotografias do Instagram, com ondas perfeitas atrás do palco principal, mas o festival real: o que tem pó vermelho que se cola às pernas, filas para o WC, cervejas a verter para dentro dos ténis e momentos de pura graça quando o The Cure, os Arctic Monkeys ou os Pearl Jam te lembram porque é que pagaste 180 euros por isto.

Porquê Algés e não outro sítio qualquer

O Passeio Marítimo de Algés é provavelmente o recinto mais bem localizado de qualquer festival europeu de grande escala. Estás a quinze minutos de comboio do centro de Lisboa, com o Tejo a refletir o pôr do sol atrás do palco NOS, e o Cristo Rei a piscar do outro lado da margem como um vigia bêbado. Não é o Primavera Sound em Barcelona, não tem a desmesura do Glastonbury, mas tem uma coisa que esses não têm: podes dormir num quarto decente em Lisboa e estar em casa quarenta minutos depois de o último concerto acabar.

Isto muda tudo. Significa que não precisas de aguentar três dias seguidos em campo de campismo. Significa que podes alternar noites de festival com manhãs no Miradouro da Senhora do Monte a curar a ressaca com vista. E significa, sobretudo, que a tua experiência do festival é também uma experiência de Lisboa. Não tens de escolher.

Quando ir e como apanhar bilhetes sem te arruinares

O NOS Alive acontece sempre no segundo fim-de-semana de Julho, quinta a sábado. As datas exactas variam ano a ano, mas a mecânica é a mesma há mais de uma década. Os bilhetes começam a ser vendidos em Outubro do ano anterior, em vagas. A primeira vaga, a chamada early bird, é onde está o desconto a sério, normalmente vinte a trinta euros abaixo do preço final. Se já estás a pensar ir, compra em Outubro. Não esperes pelo cartaz completo. O cartaz do NOS Alive não desilude nunca.

Há três tipos principais de bilhete que importam:

  • Bilhete diário: bom se só te interessa um headliner específico. Ronda os 75 a 90 euros consoante o dia e a antecedência.
  • Passe 3 dias: a opção óbvia para quem quer a experiência completa. Anda pelos 160 a 195 euros.
  • Passe VIP: tens uma zona elevada com vista para o palco principal, casas de banho decentes e bar próprio. Custa cerca do dobro. Vale a pena se fores em grupo de quatro ou cinco e fizeres turnos para reservar lugar nos concertos grandes. Sozinho, é exagero.

Esquece o camping. Tecnicamente existe uma zona, mas comparada com a alternativa de dormir num apartamento em Santos ou num hotel em Belém, não há comparação. Lisboa está literalmente do lado.

Como chegar a Algés sem queres atirar-te ao Tejo

O CP, ou seja, o comboio da linha de Cascais, é a tua melhor amiga. Sai de Cais do Sodré de quinze em quinze minutos, demora doze minutos até Algés, custa menos de dois euros. Durante o festival reforçam frequências, mesmo durante a madrugada. À saída do festival, há comboios extra até pelo menos às 4h da manhã. Não há melhor sistema em nenhum festival que conheço.

O que NÃO deves fazer: ir de Uber ou Bolt durante as horas de pico. A Marginal fica engarrafada das 17h às 20h, vais demorar uma hora a fazer um percurso de quinze minutos e vais chegar com humor de cão. À saída, o surge pricing dispara para três ou quatro vezes o normal. Já vi pessoas pagarem cinquenta euros para irem de Algés a Alfama. Ridículo.

Se ficares hospedado perto de Belém, podes ir e voltar a pé. São cerca de quarenta minutos pela ciclovia ao longo do rio. À vinda, com luz, é um passeio. À volta, às 3 da manhã, ainda é seguro porque há sempre dezenas de pessoas a fazer o mesmo percurso. Para quem gosta de bicicleta, vale também explorar o roteiro descrito na nossa experiência ribeirinha de bicicleta com a Bike a Wish, ou descer toda a cidade até ao rio na rota descendente de Lisboa a Belém, que é uma boa maneira de chegar fresco ao festival se estiveres alojado mais para cima.

Dentro do recinto: a arquitectura da euforia

O NOS Alive tem cinco palcos principais. O Palco NOS é o gigante junto ao rio, onde tocam os headliners. O Palco Heineken fica do lado oposto e é onde aparecem os indies de gravadora grande. O Sagres é o palco rock alternativo. O Coreto é mais íntimo, geralmente para projectos portugueses. E há ainda o palco de electrónica, o Clubbing Stage, que abre mais tarde e fecha às tantas da manhã.

A regra de ouro: nunca consegues ver tudo. Aceita isso. Faz uma lista de seis ou sete concertos por dia que são prioritários e improvisa o resto. As distâncias entre palcos são curtas, cinco a sete minutos a andar com fluxo de pessoas, mas ao tentares apanhar dois headliners ao mesmo tempo só apanhas metade de cada e ficas frustrado.

Outra coisa que ninguém te diz: o som no Palco NOS é melhor a meio do recinto do que na primeira linha. À frente da barreira, o som vem dos altifalantes laterais e fica desequilibrado. A vinte ou trinta metros, está perfeitamente desenhado. Excepção: se estás ali pelo carisma do vocalista, então claro, vai para a frente. Mas se queres ouvir bem, posiciona-te no meio.

O que comer (e o que evitar) dentro e fora

A comida dentro do recinto melhorou imenso nos últimos anos. Há bifanas decentes, há uma tasca portuguesa que serve arroz de pato sério, há opções vegetarianas. Mas os preços são preços de festival: oito euros por uma sandes, três e meio por uma cerveja. Há ali um truque: come bem antes de entrar.

A minha estratégia: chego a Algés por volta das 17h, como uma refeição decente num dos restaurantes de bairro, entro no festival às 18h30 com a barriga cheia, e depois disso só preciso de petiscos. Poupa-se trinta euros por dia, fácil.

Para a pré-festival, se vens de Lisboa, há uma escolha óbvia: passa pelas Bifanas do Afonso a caminho do comboio. Quatro euros, dez minutos, e estás carregado de proteína e sal suficientes para sobreviver à primeira fase da noite. Não há sítio melhor para iniciar três dias de festival.

Para o café da manhã pós-concerto, sobretudo no domingo quando andas a arrastar-te pela cidade a fingir que estás bem, A Brasileira no Chiado serve um expresso decente e tem mesas na esplanada para te sentares a olhar para o Pessoa de bronze como se ele percebesse alguma coisa da tua dor de cabeça.

O que fazer entre dias: Lisboa como recompensa

Aqui é onde o NOS Alive ganha vantagem sobre qualquer festival da Europa. Tens três manhãs e três tardes em Lisboa, uma das cidades mais densamente interessantes do continente. Não as desperdices a dormir.

Na sexta-feira de manhã, se chegaste com tempo, recomendo o Museu Nacional de Arte Antiga. É o museu mais subvalorizado de Lisboa, com a colecção mais séria de pintura portuguesa antiga do país, incluindo os Painéis de São Vicente do Nuno Gonçalves. Está em Santos, perto do rio, o que significa que estás convenientemente a meio caminho de Algés.

Sábado de manhã, se ainda consegues abrir os olhos, vai ao Museu Calouste Gulbenkian. Os jardins valem a entrada por si só. Há um lago, há pavões, há sombra a sério. Senta-te uma hora, hidrata-te, e depois vai ver a colecção, que é uma das melhores curadorias privadas do mundo: tens egípcio, islâmico, René Lalique, Rembrandt, tudo num percurso compacto.

Domingo, depois do último dia, aproveita para fazer turismo de verdade. Se nunca foste a Sintra, o nosso guia dos bairros de Sintra dá-te um roteiro alternativo aos autocarros turísticos. Se ficas em Lisboa, o guia da cultura local em Lisboa mostra-te a cidade que não aparece nos roteiros do hotel.

A noite depois da noite

O festival fecha por volta das 3h. Se ainda tens corda, há duas opções honestas. A primeira é continuar o ambiente festivo numa zona como o Cais do Sodré, com bares abertos até às 6h ou mais tarde, sobretudo na Rua Nova do Carvalho.

A segunda, mais romântica e curiosamente perfeita para uma das três noites, é ir ouvir fado. Sim, eu sei, parece contraditório sair de um concerto dos Arctic Monkeys e ir parar a uma casa de fados, mas é precisamente esse contraste que torna a coisa memorável. Pediria ao O Faia uma noite acústica, com a Lenita Gentil ou qualquer outro nome da casa, antes do encerramento. Os fadistas começam por volta das 21h30 e há sessões até tarde, mas confirma horários à chegada da cidade. É o tipo de antídoto que faz o fim-de-semana fazer sentido.

Erros típicos que vais cometer (eu cometi-os todos)

Não levar protector solar. O sol em Algés bate em cheio no recinto até às 19h. Sai dali com queimadura de festival, aquela linha vermelha onde acabava o decote da t-shirt, e fica memória durante uma semana. Aplica antes de entrar, leva um stick para reaplicar.

Não levar dinheiro físico. O festival funciona com pulseira cashless, que carregas online ou em quiosques. As filas para carregar nos quiosques durante o festival são tortura. Carrega online antes, com uma margem generosa, e no fim devolvem o saldo.

Andar de chinelos. Vais ter os pés pisados, vai cair-te cerveja em cima, e o piso é irregular. Ténis velhos, sempre. Os que estás disposto a deitar fora no fim do domingo.

Ignorar a água. Levar garrafa vazia e encher nos bebedouros é permitido e essencial. Uma cerveja por cada garrafa de água. Não negociável.

Vale a pena? A resposta sincera

O NOS Alive não é perfeito. Os preços de comida e bebida são abusivos. O recinto enche demais no segundo dia. Há sempre um headliner que cancela. Mas há momentos, e há sempre dois ou três por edição, em que o Tejo está laranja, um clássico que sabes de cor está a soar no Palco NOS, há vinte mil pessoas a cantar contigo, e percebes que sim, era para isto que vieste. Que três dias de cansaço, de transporte e de filas se resumem àqueles oito minutos em que tudo está alinhado. E isso, em Lisboa, no Verão, com o rio a brilhar, é tão bom como qualquer festival no mundo. Para quem quer alargar essa experiência sazonal portuguesa noutro registo, o nosso roteiro dos doces de Páscoa em Mafra mostra outra face de como o calendário nacional se vive com a mesma intensidade fora dos grandes palcos.

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