Museus de Lamego: Quais Valem a Pena e Quais Pode Saltar
Lamego tem mais museus do que parece razoável para uma cidade de vinte mil habitantes, e nem todos valem o seu tempo. Um é dos melhores do norte do país. Outros pode saltar sem perder nada. Este guia diz qual é qual.
Lamego tem um problema curioso para uma cidade do seu tamanho: tem mais museus do que parece razoável. Numa terra de vinte mil habitantes encaixada entre o Douro e a Serra das Meadas, há quem visite quatro ou cinco coleções num só dia e saia com a sensação de ter visto sempre o mesmo. Não viu. Mas também não viu nada de jeito, porque andou de salão em salão sem critério. Este guia é para quem tem meio dia, talvez um dia inteiro, e não quer perder tempo com vitrines mortas quando podia estar a beber um copo de moscatel na Sé.
Vou ser direto: nem todos os museus de Lamego são iguais, e a hierarquia raramente coincide com o que os folhetos da câmara sugerem. Há um que justifica sozinho a viagem ao Douro. Há outros que são simpáticos se passar à porta. E há pelo menos um que pode adiar para a próxima vida sem perder nada de essencial.
O imperdível: Museu de Lamego
Comecemos pelo que interessa. O Museu de Lamego, instalado no antigo Paço Episcopal mesmo ao lado da Sé, é um dos três ou quatro museus de arte mais importantes ao norte do Mondego. Não estou a exagerar. É aqui que estão os cinco painéis sobreviventes do retábulo de Vasco Fernandes, o Grão Vasco, pintados entre 1506 e 1511 para a Sé. A Criação dos Animais, a Anunciação, a Visitação, a Apresentação no Templo e a Circuncisão. Cinco painéis de uma qualidade técnica e narrativa que põem em causa a ideia, ainda demasiado comum, de que a pintura portuguesa do início do século XVI era provinciana.
Se só tem tempo para um museu em Lamego, é este. Conte com duas horas, no mínimo. A bilheteira fica à entrada, o bilhete custa poucos euros (confirme localmente, os preços andam a mudar), e há descontos para estudantes e seniores. Encerra à segunda-feira, como praticamente todos os museus do país, o que continua a ser uma irritação para quem viaja em fins de semana prolongados.
Além do Grão Vasco, há uma coleção notável de tapeçarias flamengas do século XVI, das chamadas séries de Brussels, com cenas mitológicas e bíblicas. As tapeçarias são daquelas peças que fotografam mal e impressionam ao vivo. Vá com vagar. Repare nos olhares, nos cães debaixo das mesas dos banquetes, nas mãos. A escultura sacra, sobretudo as imagens de roca para vestir, é outro ponto forte, embora menos espetacular para olhos não treinados.
O truque para tirar partido
Não vá ao Museu de Lamego depois de almoço pesado. As salas são pouco iluminadas por opção museológica, o silêncio é total, e o sono cai em cima de quem chega com vinho do Douro a fazer digestão. A melhor hora é a abertura, por volta das dez da manhã. Está praticamente vazio. Pode parar dez minutos em frente a um único painel sem ninguém a fungar atrás de si.
O honesto: Museu da Capela de Nossa Senhora dos Remédios
Lá em cima, no topo dos célebres degraus, o Santuário de Nossa Senhora dos Remédios tem um pequeno núcleo museológico com peças religiosas, ex-votos, paramentos. Não é um museu no sentido pleno do termo. É mais um complemento à visita ao santuário. Mas tem o seu interesse, sobretudo a coleção de ex-votos: pinturas naïf onde devotos do século XVIII e XIX agradecem milagres com cenas de cavalos a derrubar cavaleiros, navios a afundar, crianças com varíola a serem salvas. É antropologia visual em estado puro.
Não vá lá só pelo museu. Vá pela subida. Subir os 686 degraus barrocos é uma experiência em si mesma, e escrevi sobre isso em detalhe noutro lado: a escadaria do santuário merece o seu próprio capítulo. Para o museu, conte vinte minutos. Para a subida e o miradouro lá em cima, conte uma manhã.
O curioso: Museu do Biscoito
Sim, existe. E sim, é dedicado ao biscoito de Lamego, esse biscoito seco e estaladiço que se molha em vinho do Porto e que poucos turistas conhecem fora da região. Não é grande coisa em termos de coleção: instrumentos antigos de padaria, fotografias, alguma documentação sobre as confrarias e o doce conventual. Mas tem charme e, mais importante, tem provas. Sair do museu sem comer um biscoito recém-saído do forno seria criminoso.
Para quem viaja com crianças ou com familiares mais avessos a iconografia mariana, este é um plano B decente. Vinte minutos lá dentro, mais o que demorar a comer um pacote de biscoitos. Custos: simbólicos.
O que pode saltar sem remorsos
Não vou nomear ninguém porque isto está sempre a mudar e algumas pequenas coleções municipais foram entretanto reorganizadas. Mas, em geral, desconfie de qualquer espaço que se anuncie como museu e não passe de duas salas com peças sem legendagem coerente, sem percurso de visita e sem horário fixo. Lamego tem dois ou três desses. Aparecem em mapas turísticos, parecem prometer algo, e quando lá chega está fechado ou o senhor que abre a porta não sabe muito mais do que o folheto.
Regra simples: se o sítio não tem site oficial atualizado, se não há referência num catálogo museológico nacional, e se não consegue confirmar horário por telefone, salte. Use o tempo para outra coisa.
Como organizar o dia de museus
Um dia bem feito em Lamego, do ponto de vista museológico e gastronómico, pode ser este:
- 9h30: Pequeno-almoço com biscoito e café no centro histórico.
- 10h: Abertura do Museu de Lamego. Duas horas, sem pressa.
- 12h30: Almoço numa casa de comida tradicional. Bola de carne, cabrito assado, vinhos da região.
- 14h30: Subir aos Remédios, com paragem no museu lá em cima.
- 16h30: Descer com calma, fotografar a fachada barroca contra a luz da tarde.
- 17h30: Café e mais um biscoito na Praça do Comércio.
- 19h: Aperitivo. E aqui começa outra história.
Onde dormir para fazer isto bem
Lamego não tem grandes hotéis no centro histórico, e tanto melhor. A melhor opção, para quem quer acordar a dois minutos da Sé e do Museu, é uma casa pequena com personalidade. A Casa do Pó é exatamente isso: alojamento local discreto, bem decorado, gerido com olho de quem sabe receber. Ficar ali poupa-lhe carro, estacionamento e o aborrecimento de subir e descer da periferia ao centro várias vezes ao dia.
Beber e jantar depois do museu
Visitar museus dá fome. Dá também sede, sobretudo quando as salas estão muito aquecidas no inverno. Lamego não é uma cidade de grande vida noturna no sentido das capitais, mas tem três sítios que funcionam bem para fechar o dia.
O Brian Boru Irish Pub é uma anomalia simpática numa cidade onde se esperaria apenas tasca tradicional. Cerveja a sério, ambiente descontraído, ideal para conversa depois de horas em silêncio museológico. Não vá esperando comida irlandesa autêntica, vá pela cerveja e pela atmosfera.
Para quem prefere petiscos e copo de vinho do Douro com música de fundo, o Old Rock Caffe faz o trabalho. É um daqueles sítios onde o nome promete uma coisa e o lugar entrega outra, mais calmo do que a designação faria supor.
Se for de copos elaborados, o MARIA chic Lamego tem uma carta de cocktails que destoa positivamente do que se esperaria numa cidade do interior. Ambiente cuidado, preços de cidade pequena, boa carta de gins. É o sítio para acabar a noite, não para começar.
Quando ir, quando evitar
A pior altura para ver museus em Lamego é o fim de agosto, durante a Festa de Nossa Senhora dos Remédios. Não porque os museus estejam piores, mas porque a cidade fica intransitável, os restaurantes lotam e as filas no Museu de Lamego, raras no resto do ano, aparecem. Vá entre outubro e maio, com preferência por uma manhã de semana em novembro ou fevereiro, quando o frio mantém os turistas longe e o Douro está mais bonito.
Setembro e início de outubro têm outra vantagem que não tem nada que ver com museus: são meses de vindima. Combine os museus de manhã com uma tarde a pisar uvas, e o dia transforma-se. Recomendo a visita à Quinta da Pacheca em época de vindimas, mesmo do outro lado do rio. É a tarde mais memorável que se pode ter num raio de cinquenta quilómetros.
Estender a viagem
Uma cidade só de museus dá meio dia. Lamego justifica mais do que isso, e a região circundante ainda mais. Se tem dois ou três dias, vale a pena ir a Sabrosa, do outro lado do rio, conhecer quintas onde os autocarros turísticos não chegam. Escrevi sobre as quintas de Sabrosa que ninguém conta, e o ponto de partida natural é Lamego.
Para quem cá está em junho, há uma alternativa de programa que sai do circuito habitual: os Santos Populares em Sabrosa não têm a escala dos de Lisboa, mas têm uma intensidade que as cidades grandes já perderam. Em maio, vale outra excursão, esta para nordeste, em direção a Torre de Moncorvo, onde os jardins floridos compensam a hora e meia de carro: deixei o guia detalhado de Torre de Moncorvo na primavera para quem quer puxar a viagem para lá do óbvio.
O que levar para casa
Não compre íman do Grão Vasco. Compre, isso sim, um pacote bom de biscoitos de Lamego, uma garrafa de espumante da região (Lamego tem produção de espumante de qualidade muitas vezes ignorada) e, se o orçamento permitir, uma reprodução em livro do catálogo do Museu de Lamego. O catálogo é a coisa mais bem feita que sai da museologia portuguesa nos últimos anos. Vale cada euro.
Resumo prático
- Imperdível: Museu de Lamego, duas a três horas.
- Vale o desvio: núcleo museológico dos Remédios, vinte minutos, combinado com a subida.
- Para um momento ligeiro: Museu do Biscoito, mais como pausa do que como visita.
- Saltar: tudo o que se anuncie como museu sem horário fixo nem catálogo.
- Melhor altura: manhãs de meia-semana, fora de agosto.
- Onde dormir: centro histórico, alojamento pequeno.
- Onde fechar o dia: uma cerveja, um copo, um cocktail. Por esta ordem.
Lamego é uma cidade que premia quem decide o que quer ver. Quem entra em todos os museus porque pagou um passe sai cansado e confuso. Quem escolhe um e o vê bem, com tempo, sai com a sensação de ter percebido alguma coisa sobre a pintura portuguesa do século XVI, sobre a religiosidade barroca, sobre a forma como uma cidade do interior conseguiu, durante séculos, ser mais sofisticada do que a sua escala faria supor. Faça a segunda escolha. Vai dormir melhor.