Lamego ao Anoitecer: Vinho e Petiscos para Famintos
Em Lamego, jantar é uma maratona estratégica de três paragens: um copo de Douro branco no Old Rock Caffe, petiscos a sério no MARIA chic, e o Tawny final no Brian Boru. Um itinerário para os que sabem que petiscar exige método.
Há uma hora em Lamego, por volta das 18h30, em que a luz fica cor de telha velha e os comerciantes começam a fechar as portas com aquele ranger lento de quem já o faz há trinta anos. É a hora certa para começar a beber. Não a sério, ainda não, mas com intenção: um copo de branco do Douro algures perto da Sé, uma tábua de queijo da Serra com pão de centeio, e a paciência de quem sabe que a noite vai ser longa.
Esquecem-se demasiado de Lamego. Os autocarros param em Peso da Régua, despejam turistas em Pinhão, e Lamego fica ali, dez minutos acima da margem sul do Douro, com a sua escadaria barroca e os seus restaurantes que servem cabrito a sério. Pena para eles, sorte para nós. Porque jantar em Lamego, feito com método, é uma das melhores maneiras de passar uma noite no norte de Portugal. E sim, eu disse método. Petiscar exige estratégia. Caso contrário, às 21h já está cheio e sem fome para o cabrito que o esperava às 22h.
O plano: três paragens, um princípio
O princípio é simples: nunca jantar tudo num sítio. Em Lamego, a graça está em mover-se. Comer uma alheira aqui, beber um copo ali, partilhar uma tábua mais à frente, e acabar a noite num sítio onde alguém ainda esteja a tocar guitarra mal afinada. Três paragens é o número certo. Quatro é ambicioso. Cinco é só para profissionais ou para quem dormiu a sesta.
Antes de começar, uma sugestão prática: durma em Lamego. Não tente fazer isto e voltar ao Porto a conduzir, porque há vinho do Douro a sério à mesa e a IP3 à noite não é amiga de ninguém. A Casa do Pó, um alojamento local no centro histórico, faz exactamente o trabalho: cama decente, paredes velhas, e a possibilidade de voltar a pé do jantar sem pensar em mais nada do que no próximo copo de água com gás.
Onde estacionar (e porque é que isto interessa)
Lamego tem o defeito de quase todas as cidades portuguesas com centro histórico: ruas estreitas, sentido único pouco intuitivo, e estacionamento que evapora depois das 19h. A solução é deixar o carro no parque junto ao Mercado Municipal, ou no parque do Santuário em cima, e descer a pé. Vinte minutos a descer a escadaria principal e está no centro. Vinte minutos a subir, depois do jantar, é menos divertido. Vão a pé. O fígado agradece.
Primeira paragem: o aperitivo é uma coisa séria
O aperitivo em Lamego não é vodka tonic. É um copo de branco do Douro, idealmente um Rabigato ou um Códega do Larinho, frio mas não congelado, com qualquer coisa salgada por baixo. As azeitonas de Trás-os-Montes que servem cá em cima são meio doces, meio amargas, com um corte fino de alho. Não comam mais do que dez. Vão precisar do estômago.
Para arrancar, vão ao Old Rock Caffe, um espaço com personalidade no centro. Não é o sítio mais sofisticado da cidade, e isso é parte do encanto. Pedem um copo de branco, ou se já estiver calor, uma cerveja artesanal de pressão. A carta de petiscos costuma ter algumas tábuas decentes para começar: queijo, presunto, talvez umas alheiras pequenas com salada. Não façam asneira de pedir tudo aqui. Isto é o aquecimento. Comam uma coisa, bebam duas. Próxima.
A regra dos vinhos
Se nunca beberam branco do Douro em Lamego, têm duas opções: pedir conselho ao empregado e confiar, ou ler a carta com calma. Os brancos do Douro mudaram tudo na última década. Já não é só o tinto pesado de avô que se esperava no Norte. Há brancos com acidez, com mineralidade, com aquela coisa de citrinos verdes que pede peixe e queijo e azeitona. Se vir um Niepoort branco na carta, peça. Se vir um Quinta da Pacheca branco, peça também. Se vir um Casa de Mouraz, levante-se e abrace o empregado.
Segunda paragem: aqui é que se come a sério
Esta é a paragem onde se senta. Não muito tempo, mas o suficiente para pedir três ou quatro pratos do meio da carta e dividir tudo. O MARIA chic Lamego, com a sua proposta mais cuidada, é um bom sítio para esta fase da noite. O nome pode soar pretensioso mas a casa serve coisas a sério: petiscos modernos com produto regional, copo de vinho a preço civilizado, e um espaço onde não se sentem deslocados nem de calças de ganga nem de camisa.
O que pedir? Comecem por uma tábua mista, ou por alguma coisa quente. Se houver migas, peçam. Se houver bochechas, peçam também. A regra é simples: dois pratos por pessoa, partilhados, com um copo de tinto do Douro por cabeça. Não tinto pesado de inverno. Um Douro mais elegante, fresco, com fruta vermelha. Algo da margem do Pinhão se for possível.
O que NÃO pedir
Sejam honestos convosco: estão a passar uma noite em Lamego, não vão pedir polvo à lagareiro. Polvo come-se em Olhão. Aqui, comam o que vem da terra: porco, cabrito, alheiras, queijos da Serra da Estrela e do Tarouca. Salmão grelhado num restaurante de Lamego é uma rendição. Se virem bacalhau na carta, hesitem. Pode ser bom, mas pode ser o prato que tinham para o turista distraído. Façam perguntas. Os empregados em Lamego são, de modo geral, honestos. Se algo não estiver bom, dizem-vos antes de pedirem.
Intervalo: as escadas, sempre as escadas
Entre a segunda e a terceira paragem, façam uma coisa que ninguém faz: subam algumas das escadas de Lamego à noite. Não as 686 todas, claro. Mas trinta ou quarenta degraus chegam para arejar a cabeça, fazer espaço para a próxima rodada, e ver Lamego iluminada por baixo, com a Sé recortada contra o céu escuro. Se quiserem fazer isto a sério durante o dia, há uma boa experiência dedicada à subida dos 686 degraus do Santuário, que vale a pena para entender a escala daquela escadaria com luz natural.
À noite, a escadaria tem outra qualidade. Está vazia. Os turistas foram-se. Só ficam os locais que cortam caminho para casa, e ouve-se o som de pratos a serem lavados nas cozinhas dos restaurantes do centro. Cinco minutos disto e voltam para a terceira paragem com sede renovada.
Terceira paragem: o copo final, sem pressa
A última paragem é menos sobre comida e mais sobre não querer ir para a cama. Lamego não tem uma vida nocturna de Lisboa. É uma cidade de província, com lógica de província, e isso é uma virtude. As pessoas conhecem-se. Os empregados sabem o que vocês beberam na semana passada. As 23h em Lamego têm o ambiente das 2h em Lisboa, sem o cansaço.
O Brian Boru Irish Pub, uma instituição local para o copo de fecho, é onde acabar. Sim, sei o que estão a pensar. Vim ao Douro para acabar num pub irlandês? Sim, vieram. Porque a verdade é que o Brian Boru é o sítio onde se mistura o português que mora ao lado com o estrangeiro que está cá há dois meses a estudar enologia. Pede-se uma Guinness, ou se ainda houver coragem, um copo de Porto Tawny, e fala-se com quem está ao lado. É assim que se aprende qualquer coisa sobre Lamego que não está nos guias.
Porto Tawny vs. Vintage: a discussão certa para o fim da noite
Se vão acabar com Porto, façam a coisa bem. Tawny envelhecido em casco, dez anos no mínimo. Esqueçam o Vintage para esta hora, é pesado demais. O Tawny tem nozes, frutos secos, caramelo, e bebe-se a uma temperatura ligeiramente fresca, não gelada. Se virem um 20 anos na carta e tiverem cinco euros a mais no bolso, façam o investimento. Vale cada cêntimo.
O dia seguinte: a ressaca civilizada
O dia seguinte em Lamego deve começar tarde. Pequeno-almoço às 10h, café duplo, pão fresco com manteiga. Depois, dependendo da estação, há sempre algo para fazer no Douro Vinhateiro que não envolve mais álcool. Em Setembro, a melhor coisa de todas é meter-se numa vindima participativa com pisa de uvas na Quinta da Pacheca. Sim, com os pés, sim, descalços, sim, é tão bom quanto parece.
Se for primavera, considerem uma viagem curta a outras zonas do Douro profundo. Torre de Moncorvo em flor é um destino subestimado para parques e jardins na primavera, e fica a uma hora e meia de carro pelo interior, com paragens em miradouros pelo caminho. Em Junho, vale fazer o desvio até Sabrosa para os Santos Populares, uma das festas mais autênticas do Douro. E se levarem a sério a coisa do vinho e quiserem ver quintas que não estão em todos os guias, há um bom guia das quintas escondidas de Sabrosa que evita as paragens turísticas óbvias.
Notas finais para os famintos
Algumas coisas que aprendi a ferro e fogo, a partilhar com quem nunca cá veio.
- Reservem. Sexta e sábado à noite, especialmente no MARIA chic, sem reserva é roleta russa. Liguem na véspera. Em português é melhor, mas em inglês não há drama.
- Custos realistas: contem com 25 a 35 euros por pessoa para uma noite completa de petiscos e três copos. Mais se quiserem garrafa. Lamego é dos sítios com melhor relação preço-qualidade do norte.
- Não jantem antes das 20h. Os locais comem entre as 20h30 e as 22h. Antes disso, está vazio, e vazio em Lamego não é charme, é frio.
- Aprendam a pedir conta. "A conta, por favor" funciona. Esperar que tragam sem pedir, em Portugal, é uma rota directa para a frustração.
- Levem agasalho, mesmo em Julho. Lamego está a 500 metros de altitude e as noites refrescam de uma maneira que apanha os turistas vindos do Algarve completamente desprevenidos.
O resto, descobrem por vocês. Uma boa noite em Lamego não se planeia ao minuto. Tem-se uma estrutura, três paragens, e depois deixa-se a cidade fazer o resto. Sentam-se ao balcão, ouvem conversas dos vizinhos de mesa, deixam o empregado sugerir um copo a mais. A certa altura, perceberão que já passa da meia-noite e que ninguém parece ter pressa. É exactamente isso. Era para isso que cá vieram.