Mirandela: Muito Mais Que a Melhor Alheira do Mundo
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Mirandela: Muito Mais Que a Melhor Alheira do Mundo

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Esqueça a alheira de supermercado. Em Mirandela, a gastronomia é um ritual de fogo, azeite e pão que exige tempo e estômago. Descubra onde encontrar a verdadeira mesa transmontana, entre a Ponte Velha e os olivais de xisto.

O Regresso à Princesa do Tua

Chegar a Mirandela pela A4 é um exercício de paciência recompensado pelo olfato. Mal as janelas do carro descem, o ar muda. Deixa de ser o oxigénio neutro do litoral para passar a ser uma mistura densa de carvalho queimado, azeite virgem e aquele toque metálico que o rio Tua empresta à cidade. Muitos cometem o erro de tratar esta cidade como uma área de serviço glorificada no caminho para Bragança ou Espanha. Param, compram uma caixa de alheiras num quiosque qualquer e seguem viagem. É um erro de principiante. Mirandela não se prova à pressa; exige que estacione o carro perto da Ponte Velha, que ignore as esplanadas óbvias para turistas e que procure onde os locais, aqueles de mãos calejadas e olhar direto, estão a almoçar.

A cidade, conhecida como a "Princesa do Tua", tem uma elegância que contrasta com a rudeza das montanhas em redor. Mas não se engane: a cozinha aqui é tudo menos delicada. É uma gastronomia de sobrevivência que se tornou alta cozinha regional pela força da qualidade dos ingredientes. Se quer entender o que realmente move esta terra, recomendo a leitura do guia Para lá da Alheira: A Alma Comestível de Mirandela, onde mergulhamos na resiliência desta gente que transformou o pão e o alho numa instituição nacional.

A Alheira: O Engano Mais Saboroso da História

Não podemos falar de Mirandela sem despachar o elefante na sala. A alheira é o prato nacional, mas aqui é um dogma. A história é conhecida, mas vale a pena repetir para os distraídos: foi inventada pelos cristãos-novos (judeus convertidos à força) para enganar a Inquisição. Como não podiam comer porco, criaram um enchido feito de pão, aves e caça, que parecia um chouriço normal pendurado no fumeiro. O engano salvou vidas e, séculos depois, salva-nos a nós de refeições medíocres.

Mas atenção: nem toda a alheira de Mirandela é igual. Esqueça as que encontra no supermercado em Lisboa. A verdadeira alheira de Mirandela IGP (Indicação Geográfica Protegida) tem de ser frita em azeite da terra ou, melhor ainda, grelhada lentamente nas brasas. A pele deve estar estaladiça, quase a rebentar, e o interior deve ser cremoso, mas com pedaços identificáveis de carne desfiada e pão de trigo de crosta rija. No restaurante O Grulha, um clássico incontornável na Rua da República, a alheira é tratada com o respeito que merece. Não peça com batatas fritas e ovo a cavalo se quiser ser levado a sério; peça com grelos de nabo cozidos e um fio generoso de azeite local. É esse o contraste, o amargo dos grelos contra a gordura untuosa do enchido, que define o paladar transmontano.

Onde Comer a Sério

  • O Grulha: Onde a aristocracia local e os viajantes informados se cruzam. A Posta é magnífica, mas comece sempre pela alheira grelhada. Espere pagar cerca de 25€ a 30€ por pessoa com vinho da casa.
  • Toca do Javali: Se gosta de caça, este é o seu lugar. O javali estufado com castanhas faz esquecer qualquer dieta. Ambiente rústico, sem floreados, focado no que chega ao prato.
  • Flor de Sal: Para uma abordagem mais moderna e uma vista privilegiada sobre o rio. É o sítio onde a tradição se veste de gala. Mais caro, mas a carta de vinhos justifica a visita.

O Azeite: O Ouro Líquido de Trás-os-Montes

Se a alheira é a rainha, o azeite é o rei absoluto. Mirandela está no coração da Denominação de Origem Protegida (DOP) de Trás-os-Montes. Aqui, as oliveiras das variedades Cobrançosa, Verdeal e Madural crescem em solos de xisto, sob um sol que não perdoa no verão e um frio que corta no inverno. O resultado é um azeite com uma personalidade agressiva: picante, amargo e com notas de erva fresca.

Não compre azeite sem marca em garrafões de plástico à beira da estrada. Vá aos produtores. A Quinta do Romeu, a poucos quilómetros da cidade, produz um dos melhores azeites biológicos do mundo. É um azeite que não serve apenas para cozinhar; serve para ser o protagonista. Um pedaço de pão de centeio quente mergulhado num prato com este azeite é, para mim, uma refeição superior a muitos menus de degustação de cidades cosmopolitas. Se visitar a cidade em Fevereiro, durante a Feira da Alheira, verá como o azeite é o fio condutor de tudo, desde os enchidos até aos doces de Natal.

Para Lá do Prato: Digestão com Vista

Depois de uma refeição que pesaria no estômago de um titã, a subida aos miradouros da cidade não é opcional, é medicinal. O Tua serpenteia lá em baixo, e a malha urbana de Mirandela revela as suas diferentes épocas. Para uma perspetiva histórica, o Miradouro do Paço dos Távoras é o ponto de partida ideal. Dali, vê-se a Ponte Velha e percebe-se porque é que esta localização foi estratégica durante séculos. É o sítio para tirar a fotografia obrigatória, mas também para observar o ritmo lento da cidade.

Se quiser afastar-se um pouco mais do centro e ver Mirandela integrada na paisagem bruta de Trás-os-Montes, suba ao Miradouro da Igreja de São Bento. A vista alcança os olivais a perder de vista e as serras que escondem aldeias onde o tempo parece ter parado em 1950. E para os que não têm medo de conduzir por estradas secundárias, o Miradouro de Franco oferece uma paz que o centro da cidade, com o seu trânsito por vezes caótico, não consegue proporcionar.

A Posta e o Cordeiro: Os Outros Protagonistas

Embora a vizinha Bragança reclame a exclusividade da Posta Mirandesa, em Mirandela come-se carne de vitela de qualidade equivalente. O segredo está no corte, alto, para que o interior fique rosado e suculento, e no sal grosso. Nada de molhos complicados. Apenas a carne, o fogo e, talvez, um molho de azeite e alho para quem não resiste. O Anho (cordeiro) assado no forno de lenha é outra estrela, especialmente aos domingos. É uma carne tenra, que se desprende do osso com o toque do garfo, servida com arroz de forno que absorveu todos os sucos da assadura.

Se estiver de passagem e quiser algo mais leve (se é que isso existe por aqui), procure as "Cristas de Galo", um doce conventual à base de ovos e amêndoa que é uma especialidade local. Mas não se iluda: em Mirandela, a leveza é um conceito relativo. Aqui, a comida é uma afirmação de identidade.

A Estrada Continua: Chaves e Montesinho

Mirandela é o centro geográfico de um nordeste que tem muito para dar. Se depois de tanta gordura e proteína sentir necessidade de purificar o sistema, siga para norte. A cerca de 45 minutos, encontrará o conforto térmico de Chaves. Recomendo que explore O Legado das Legiões: Um Mergulho nas Águas Termais de Chaves para perceber como os romanos já sabiam o que faziam quando decidiram banhar-se naquelas águas a 73 graus.

Ou, se preferir o isolamento absoluto e a crueza da montanha, continue até à fronteira. O Parque Natural de Montesinho é o antídoto perfeito para a vida moderna. No inverno, o fumo que sai das chaminés das casas de pedra é o único sinal de vida. Para entender essa mística, leia O Silêncio de Montesinho: Um Refúgio de Inverno na Última Fronteira de Portugal. É o complemento ideal para esta viagem: depois do banquete de Mirandela, o recolhimento de Montesinho.

Dicas Práticas para o Viajante

  • Quando ir: O outono e o inverno são as épocas de ouro. É quando os enchidos estão prontos, quando as castanhas acompanham os pratos e quando o frio justifica as refeições pesadas. No verão, Mirandela pode ser um forno.
  • Como chegar: A A4 é a via rápida, mas se tiver tempo, a Estrada Nacional 15 oferece curvas e vistas que a autoestrada esconde. De autocarro (Rede Expressos), a viagem do Porto demora cerca de 2h30.
  • O que trazer: Azeite, sempre. Alheiras de um produtor certificado (verifique o selo IGP). E mel de rosmaninho, que aqui tem um sabor intenso e escuro.

Mirandela não é uma cidade para quem gosta de meias medidas. Ou se entra no espírito transmontano, aceitando que o colesterol vai subir e que o vinho tinto é a única bebida aceitável, ou mais vale ficar pelo litoral. Mas garanto-lhe: depois de provar uma alheira verdadeira, daquelas que têm história em cada pedaço de pão, as outras vão parecer-lhe apenas plástico. E é esse o perigo de Trás-os-Montes: uma vez que se prova o real, o resto torna-se irrelevante.

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