Miradouro do Paço dos Távoras
Mirandela
Esqueça por um momento a alheira e suba ao Alto de São Bento para ver Mirandela como ela é: um vale rasgado pelo rio Tua. Do adro da igreja, a vista sobre as 20 arcadas da Ponte Velha é o melhor antídoto para a pressa de quem está apenas de passagem.
Mirandela é, para muitos, uma paragem de conveniência. Um desvio na A4 para abastecer o estômago com carne fumada e seguir viagem. Mas quem se fica pelo prato perde a espinha dorsal desta terra. Para entender o que move esta cidade transmontana, é preciso subir. Deixe o centro, as esplanadas junto ao rio e a azáfama do comércio e aponte para o Alto de São Bento. É lá, no adro da Igreja de São Bento, que a geografia de Mirandela finalmente faz sentido.
O acesso faz-se subindo pela Rua de São Bento, um percurso que atravessa um bairro de feição mais tradicional, longe do asfalto impessoal das novas avenidas. Pode ir de carro, há algum espaço para estacionar perto da igreja, mas a pé a subida serve para abrir o apetite e para sentir a mudança de temperatura. Mirandela é famosa pelo seu microclima: um forno no verão, um frigorífico húmido no inverno. Lá em cima, no miradouro, corre quase sempre uma brisa que limpa o horizonte.
O edifício da Igreja de São Bento, localizado em São Bento, 363 (5370-363 Mirandela), é uma construção sólida, feita de pedra que parece ter nascido do próprio solo. Não espere a exuberância dourada das igrejas do Porto ou de Braga. Aqui, a beleza reside na sobriedade. O granito é o material dominante, conferindo ao espaço uma sensação de permanência. A fachada é simples, com um portal que denuncia a sua cronologia barroca sem cair no exagero. O que realmente importa aqui, no entanto, é o que está à volta da igreja.
Do adro, a vista abre-se sobre o vale do Rio Tua. É um panorama vasto, onde o rio desenha uma curva preguiçosa que abraça a cidade. Daqui consegue-se contar as vinte arcadas da Ponte Velha, um monumento que sobrevive a cheias e ao tempo, servindo de elo de ligação entre as duas margens. A cidade estende-se abaixo de nós como um mapa em relevo: o casario antigo, apertado e irregular, contrasta com as novas urbanizações que crescem em direção às encostas. É um ponto de observação privilegiado para perceber como a "Cidade Jardim" ganhou o seu nome, com as margens do rio bem cuidadas e o verde a interromper o cinzento do betão.
O miradouro tem uma classificação de 4.6 estrelas, e embora não existam centenas de críticas online para ler, o consenso de quem aqui chega é o mesmo: este é o melhor lugar para ver o pôr-do-sol na região. O preço (€) é o de um passeio gratuito, ou no máximo o custo de uma chamada para o +351 934 063 571 se quiser confirmar se existe algum evento religioso que possa condicionar o acesso ao adro. O site da Câmara Municipal (www.cm-mirandela.pt) oferece mais detalhes sobre o património local, mas a experiência sensorial de estar ali não se traduz em pixels.
Depois de contemplar o vale, a descida para a cidade torna-se obrigatória. Afinal, estamos em Mirandela e a fome acaba por reclamar o seu lugar. Para entender a fundo o que se come por aqui, o nosso guia Para lá da Alheira: A Alma Comestível de Mirandela explica por que razão o fumo é o perfume oficial da cidade. O miradouro serve de prefácio visual para esse banquete; lá de cima, vêem-se as hortas que fornecem os grelos e as oliveiras que dão o azeite transmontano, elementos tão cruciais para a gastronomia local como a própria alheira.
Se planeia visitar, evite as horas de maior calor no verão, quando o granito parece devolver todo o sol que acumulou durante o dia. O final da tarde é o momento de eleição. Não há um código de vestimenta rigoroso, mas lembre-se que está num espaço religioso; o respeito pelo silêncio do lugar é a única regra não escrita. Não há cafés ou quiosques mesmo em cima do miradouro, por isso leve água se for a pé. É um espaço de contemplação pura, sem distrações comerciais, o que é uma raridade nos dias de hoje.
Mirandela não se revela totalmente a quem fica apenas pela margem do rio. É preciso ganhar perspetiva. O Miradouro da Igreja de São Bento oferece precisamente isso: o contexto necessário para apreciar a resiliência de uma cidade que cresceu num vale apertado e que continua a ter no Rio Tua o seu espelho mais fiel. Vá pela vista, fique pelo silêncio e saia de lá pronto para enfrentar as mesas fartas que o esperam no centro.