Miradouro da Igreja de São Bento
Mirandela
Esqueça as vistas urbanas por um momento. A 546 metros de altitude, o Miradouro de Franco oferece uma perspectiva de 'ecrã panorâmico' sobre o imenso olival de Mirandela que nenhuma ponte na cidade consegue igualar.
Esqueça, por momentos, a imagem postal de Mirandela. Aquela do rio Tua, das pontes e das esplanadas onde a alheira é servida com o automatismo de quem sabe que o turista não quer outra coisa. Se quer realmente perceber o que faz desta região um dos territórios mais crus e fascinantes de Portugal, tem de sair do centro. Tem de meter o carro na Estrada de Franco (5370-120 Mirandela) e subir. O destino não é um monumento, nem um restaurante com estrela Michelin, mas sim o Miradouro de Franco, cravado a 546 metros de altitude na Serra de Santa Comba.
A maioria dos visitantes contenta-se com as vistas urbanas, como o Miradouro da Igreja de São Bento, que tem o seu mérito pela proximidade, ou o Miradouro do Paço dos Távoras, útil para enquadrar o centro histórico. Mas Franco é diferente. É uma experiência de 'widescreen' real, onde o horizonte não é interrompido por telhados de zinco ou publicidade luminosa. Aqui, o que se vê é a espinha dorsal de Trás-os-Montes: uma sucessão de vales e montes dominados por um exército de oliveiras que parece não ter fim.
Deste ponto de observação, a paisagem deixa de ser natureza selvagem para se tornar um mapa de trabalho. O olival não está aqui por estética; é a economia local desenhada no xisto. A luz em Mirandela tem uma qualidade particular, especialmente ao final da tarde, quando o prateado das folhas das oliveiras contrasta com o castanho seco da terra. É este o cenário que justifica a fama do azeite da região, e vê-lo de cima ajuda a compreender o esforço hercúleo que é colher em terrenos onde as máquinas mal conseguem entrar.
Ao contrário de outros miradouros que tentam 'vender' a vista com painéis explicativos gastos pelo sol ou binóculos de moeda que nunca funcionam, Franco é despojado. Tem uma classificação de 4.7 estrelas não porque ofereça luxos, mas pela honestidade da perspectiva. O silêncio só é quebrado pelo vento que fustiga a serra e, ocasionalmente, pelo som de algum tractor ao longe. É o sítio ideal para quem, como eu, prefere o cheiro a esteva e a terra seca ao rebuliço das zonas turísticas.
Não se pode falar desta vista sem pensar no que ela produz. Olhar para estes vales é olhar para a despensa de Mirandela. Se está a planear o seu dia, recomendo que suba aqui antes do almoço. Abra o apetite com o ar puro da Serra de Santa Comba antes de descer novamente à cidade para explorar o que descrevemos no guia Para lá da Alheira: A Alma Comestível de Mirandela. Há uma lógica quase matemática: o esforço da subida e a crueza da paisagem pedem o conforto de uma refeição pesada, honesta e sem pretensões.
Muitos perguntam se vale a pena o desvio. A minha resposta é curta: se quer ver Mirandela como os locais a sentem, sim. Se quer apenas uma foto rápida para as redes sociais, fique pela ponte velha. Franco exige um pouco mais do motor do carro e da sua disposição para o isolamento, mas recompensa com uma clareza visual que os pontos turísticos do centro simplesmente não conseguem replicar.
Para chegar ao Miradouro de Franco, siga pela Estrada de Franco a partir de Mirandela. A subida é constante mas o asfalto está em condições decentes. Não espere encontrar cafés ou casas de banho públicas no topo; leve água e, se for no Verão, prepare-se para o calor abrasador da 'Terra Quente'. O preço (€) é, obviamente, o do combustível, já que o acesso é livre e gratuito.
Evite os dias de nevoeiro cerrado, comuns no Inverno transmontano, pois a visibilidade pode ficar reduzida a poucos metros, anulando todo o propósito da viagem. Vá num dia de céu limpo, quando se consegue ver as ondulações do terreno até perder de vista. É aí que o Miradouro de Franco se justifica como o melhor camarote para observar a força desta terra.