Mirandela Além da Alheira: O Guia das Melhores Pastelarias
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Mirandela Além da Alheira: O Guia das Melhores Pastelarias

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Em Mirandela, o café é um ritual de sobrevivência ao calor. Dos lendários Papos de Anjo da Flor de Aveiro ao folar recheado da Pastelaria Ramos, descubra onde os locais se refugiam.

O Ritual do Açúcar e o Calor do Tua

Chegar a Mirandela no pino do verão é uma experiência que testa a resistência de qualquer viajante. A cidade, famosa pelo seu microclima de extremos, o povo diz que são nove meses de inverno e três de inferno —, exige uma estratégia de sobrevivência que passa, obrigatoriamente, por saber onde se meter à sombra. Mas esqueça os centros comerciais climatizados. Em Mirandela, a resistência faz-se nas esplanadas viradas para o Tua ou no mármore fresco das pastelarias que guardam segredos de gema de ovo e açúcar com séculos de idade. Se quer entender esta terra, tem de aceitar que o café aqui não é apenas cafeína; é o lubrificante social que precede uma alheira e sucede um cozido transmontano.

A primeira paragem é inegociável. A Pastelaria Flor de Aveiro, situada na Praça do Município, mesmo em frente à Câmara, é o epicentro do vício local. Não se deixe enganar pelo nome que remete para o litoral; o que aqui se faz é puramente transmontano na sua opulência. O pedido é obrigatório: Papos de Anjo. Se nunca provou, imagine uma nuvem feita quase exclusivamente de gemas de ovo, batidas até à exaustão, cozidas e depois mergulhadas num xarope de açúcar que brilha como ouro líquido. Custam pouco mais de um euro e valem cada caloria. É um doce que exige uma bica (espresso) curta e sem açúcar para equilibrar a balança. O serviço é rápido, à moda antiga, sem grandes floreados, mas com a eficiência de quem sabe que tem o melhor produto da cidade nas mãos.

Entre o Folar e os Peixinhos de Chila

Enquanto a Flor de Aveiro domina os Papos de Anjo, a Pastelaria Ramos, um pouco mais acima, é onde deve ir se quiser explorar a diversidade da doçaria regional. Aqui, o destaque vai para os Peixinhos de Chila. Não há peixe real envolvido, claro, mas sim a polpa da abóbora chila, transformada num fio doce e transparente, envolto numa massa finíssima e frita. É uma textura crocante que dá lugar a um interior húmido. É o tipo de lugar onde os locais compram o folar para levar para casa. O Folar de Mirandela é uma lição de anatomia suína: pão de massa lêveda, generosamente recheado com presunto, chouriço e salpicão. Ao contrário do folar doce do sul, este é uma refeição completa disfarçada de lanche. Se estiver de passagem, peça uma fatia; se for esperto, compre um inteiro para a viagem até ao Miradouro de Franco, onde pode comer com a melhor vista sobre o vale.

Para quem prefere um ambiente mais clássico, a Pastelaria Lord, na Rua da República, mantém aquele charme de café de província onde o tempo parece ter estagnado nos anos 90, no bom sentido. É o lugar ideal para observar a fauna local: os advogados que discutem casos à porta do tribunal, os agricultores que vêm tratar de papéis à cidade e os reformados que leem o jornal de ponta a ponta. Peça uma Queijada de Mirandela. Ao contrário das de Sintra, estas têm uma consistência mais densa e um sabor a queijo mais pronunciado, muitas vezes com um toque de canela que fica na memória. É um café para se estar, não para passar.

A Esplanada como Estação de Observação

Quando o sol começa a baixar, mas o calor teima em não sair das paredes de granito, o destino é a margem do rio. O Tua é o coração de Mirandela e as esplanadas ao longo da Avenida Nossa Senhora do Amparo são o melhor lugar para ver a vida passar. O Café Avenida é um clássico. Não espere especialidades gourmet; peça uma cerveja gelada ou um café e concentre-se no espetáculo do Jato d'Água. Este repuxo, que se eleva a dezenas de metros de altura no meio do rio, é o orgulho da cidade. É um exercício de contemplação: o som da água a cair, a ponte medieval (que todos chamam de romana) em pano de fundo e o movimento dos patos que ignoram olimpicamente os turistas.

É nestas mesas de metal que se planeia o resto do dia. Se o apetite começar a abrir, vale a pena ler o nosso guia Para lá da Alheira: A Alma Comestível de Mirandela para saber onde jantar. Mas antes disso, suba até ao Miradouro do Paço dos Távoras. A subida é curta, mas a perspetiva sobre os telhados da zona antiga e a curva do rio justifica o esforço. É o ponto onde se percebe a escala da cidade: pequena o suficiente para se conhecer num dia, mas densa o suficiente em sabores para nos fazer querer voltar.

Conselhos Práticos para o Viajante

Se vem do Porto ou de Lisboa, a viagem pela A4 é rápida, mas cansativa. Mirandela é o ponto de paragem perfeito antes de seguir para norte, talvez em direção a Chaves para relaxar, como sugerimos em O Legado das Legiões: Um Mergulho nas Águas Termais de Chaves.

  • Horários: A maioria das pastelarias abre cedo, por volta das 07:30. É a melhor hora para apanhar o folar acabado de sair do forno.
  • Preços: Um café e um doce raramente passarão dos 2,50€. Mirandela continua a ser extraordinariamente acessível.
  • O que evitar: Não peça "um pastel de nata" por instinto. Está em Trás-os-Montes; peça o que é da terra. O pastel de nata aqui é um figurante; os Papos de Anjo são os protagonistas.
  • Estacionamento: Tente deixar o carro perto do mercado municipal ou nas zonas mais periféricas e caminhe. A zona central é estreita e o trânsito pode ser irritante nas horas de ponta.

Ao fim do dia, se o calor permitir, uma última visita ao Miradouro da Igreja de São Bento oferece a despedida perfeita. Dali, vê-se a cidade a acender as luzes e o Tua a refletir o laranja do céu. É o momento de decidir se fica para jantar ou se leva uma caixa de Papos de Anjo para o caminho. A resposta correta, obviamente, é ambos. Mirandela não se visita com pressa, nem com estômago vazio. Se estiver a planear uma rota mais longa pelo Nordeste Transmontano, não deixe de consultar o guia sobre O Silêncio de Montesinho, pois o contraste entre a vivacidade de Mirandela e a paz da serra é o que define esta região.

A Geografia do Sabor

Para o turista desatento, todas as pastelarias parecem iguais, mas há nuances. O segredo está em observar onde os locais param as suas carrinhas de caixa aberta. Se vir três ou quatro carrinhas estacionadas em segunda fila à porta de um café sem nome pomposo, entre. É lá que o café é mais forte e o folar tem mais gordura (da boa). A cultura de café em Mirandela é democrática: une o senhor doutor e o operário da construção civil na mesma barra de zinco. Não há cerimónias. É chegar, pedir, comer e seguir viagem. Mas, se tiver tempo, sente-se. Ouça o sotaque carregado, a franqueza transmontana e deixe-se envolver pela hospitalidade que, por aqui, se mede em gramas de açúcar e mililitros de café.

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