Julho em Viana do Castelo: Arraiais, Sardinhas e Vinho Verde
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Julho em Viana do Castelo: Arraiais, Sardinhas e Vinho Verde

· · Viana do Castelo

Os Santos Populares são em junho e a Agonia é em agosto, mas julho é quando o Alto Minho faz as festas a sério: arraiais de freguesia anunciados a foguetes, sardinha na broa e caldo verde à meia-noite. Guia prático para os encontrar a partir de Viana do Castelo, com praias para os dias e fado para as noites sem festa.

Vamos esclarecer uma coisa antes de comprar o bilhete de comboio: os Santos Populares, no sentido estrito, acontecem em junho. Santo António a 13, São João na noite de 23 para 24, São Pedro a fechar o mês. Quem chega a Viana do Castelo em julho à espera de marchas e manjericos vai encontrar outra coisa. E, na minha opinião, encontra melhor. Julho no Alto Minho é a época dos arraiais de freguesia, as festas que não aparecem em nenhum roteiro oficial, organizadas por comissões que passaram o inverno inteiro a vender rifas e febras para pagar a banda filarmónica e o fogo de artifício. Não há bilheteira, não há pulseira, não há aplicação. Há um campo de futebol ou um adro de igreja, um palco montado na véspera, e a certeza de que alguém vai acabar a noite a dançar com a vizinha de 80 anos ao som de uma concertina.

O calendário que ninguém explica aos turistas

Viana do Castelo tem um problema de comunicação delicioso: a sua festa grande, a Romaria de Nossa Senhora d'Agonia, é em agosto. É a romaria mais famosa de Portugal, com as mordomas carregadas de ouro ao peito, os gigantones, os tapetes de flores na Ribeira. Mas é também a semana em que a cidade transborda, os alojamentos esgotam com meses de antecedência e o preço de tudo sobe em conformidade. Junho tem os santos, agosto tem a Agonia, e julho fica no meio, aparentemente vazio. Aparentemente. Porque é precisamente em julho que as freguesias do concelho e dos vales do Lima e do Neiva fazem as suas festas. Cada uma tem o seu santo padroeiro, a sua comissão, o seu fim de semana. O resultado é que, num sábado qualquer de julho, há quase sempre um arraial a menos de vinte minutos de carro do centro de Viana. Só precisa de saber procurar.

Como se encontra um arraial (método científico)

Primeiro instrumento: os ouvidos. No Minho, as festas anunciam-se com foguetes lançados ao meio-dia da véspera e na manhã do próprio dia. Se ouvir três estouros secos vindos dos montes, há festa nessa direção. Segundo instrumento: os cartazes. Olhe para os vidros dos cafés, para os postes de eletricidade, para a porta da junta de freguesia. Os cartazes de arraial minhoto são um género artístico próprio: fundo amarelo ou vermelho, fotografia da banda ou do conjunto musical, letra gorda a anunciar "grandioso arraial" e "sessão de fogo preso". Terceiro instrumento, o mais fiável: pergunte. Entre num café, peça um cimbalino, e pergunte ao balcão onde é a festa este fim de semana. Vai sair de lá com indicações, opiniões sobre qual das bandas é melhor, e provavelmente uma recomendação de onde estacionar.

Regras de etiqueta, porque existem: leve dinheiro vivo e em notas pequenas, porque o quiosque das febras não aceita multibanco. Chegue depois das 21h, porque antes disso é só a missa e o jantar das famílias. E não filme tudo. O arraial não é conteúdo, é convívio. Dance mal, que ninguém repara, e aceite o copo de vinho que lhe oferecerem, que recusar é mais ofensivo do que entornar.

A liturgia da mesa: sardinha na broa, caldo verde à meia-noite

A gastronomia do arraial é curta e perfeita, e há décadas que ninguém sente necessidade de a inovar. A sardinha assada come-se em cima de uma fatia de broa de milho, que serve simultaneamente de prato, guardanapo e segundo prato, porque a broa embebida na gordura da sardinha é discutivelmente melhor do que a própria sardinha. O caldo verde aparece por volta da meia-noite, servido em malga, e faz mais pela sua sobrevivência até às três da manhã do que qualquer café. A bifana e a febra no pão asseguram a proteína, a fartura assegura o açúcar, e o vinho verde tinto, servido fresco em copo de plástico ou em malga de barro, assegura tudo o resto. É áspero, é gaseificado, mancha tudo o que toca, e ao terceiro copo faz todo o sentido do mundo. Não vai gastar muito: um jantar completo de arraial custa menos do que uma entrada num restaurante médio da cidade. Os valores exatos variam de festa para festa, mas a regra é simples: se lhe parecer caro, não é um arraial a sério.

Se quiser perceber de onde vem esta cozinha antes de a comer num campo de futebol, faça primeiro o food tour de marisco e tradição em Viana do Castelo. É a melhor forma de calibrar o paladar: percebe-se a diferença entre a cozinha do mar de Viana, com o seu peixe e marisco da costa, e a cozinha de festa do interior do concelho, toda ela porco, milho e couve. São dois mundos que vivem a quinze minutos um do outro.

Os dias são para o mar, as noites para a festa

O arraial só começa à noite, o que deixa o dia inteiro livre, e Viana resolve esse problema com uma costa que envergonha destinos com o triplo do marketing. A Praia do Cabedelo, do outro lado do rio Lima, é o areal grande, com dunas e o vento de nortada que à tarde enche a água de kitesurfistas. Vá de manhã se quer sossego, vá à tarde se quer espetáculo. A Praia Norte é a opção urbana, a poucos minutos a pé do centro, mais rochosa, com piscinas de água salgada e o melhor fim de tarde da cidade. E a Praia de Afife, uns quilómetros a norte, é a selvagem: dunas, ondas a sério, e a sensação de que o Minho guardou ali um pedaço de costa só para quem se dá ao trabalho. O comboio regional da Linha do Minho tem paragem em Afife, mas confirme os horários localmente, porque nem todos os serviços param.

Aviso honesto sobre a água: isto é o Atlântico norte. Em julho, a temperatura do mar arrefece conversas. Entra-se aos gritos e sai-se convertido. Os locais fazem-no com uma naturalidade que demora anos a adquirir.

Quando a noite não tem festa: fado em terra de concertinas

Nem todas as noites de julho têm arraial, e para essas existe uma alternativa improvável: fado. O Minho é território de concertina, de bombos e de cantares ao desafio, o que torna uma casa de fado em Viana uma espécie de embaixada cultural. A Amália em Viana é exatamente isso, e funciona melhor do que deveria: depois de duas noites de bandas filarmónicas e fogo de artifício, uma guitarra portuguesa em sala fechada é quase uma desintoxicação. Vá numa terça ou quarta, quando as freguesias descansam, e reserve com antecedência.

Decifrar a cidade antes de a abandonar pelas freguesias

Viana merece mais do que ser dormitório de arraiais. O centro histórico é compacto e denso, com a Praça da República, o chafariz renascentista, as fachadas manuelinas e o monte de Santa Luzia por cima de tudo, com a basílica e o funicular mais longo do país a subir até lá. Pode fazer tudo isto sozinho com um mapa, mas a visita guiada ao centro histórico de Viana do Castelo dá-lhe o contexto que as placas não dão, incluindo a relação da cidade com o bacalhau, os estaleiros e o mar, que explica por que razão isto nunca foi uma terra pequena, apenas uma terra discreta.

Se ficar com o bichinho das romarias

O arraial é uma porta de entrada. A seguir vêm as romarias grandes, e o calendário minhoto é generoso o ano inteiro. Barcelos fica a meia hora de comboio na mesma Linha do Minho e tem em maio uma das festas mais bonitas do norte: leia o nosso guia honesto da Festa das Cruzes em Barcelos e marque já no calendário do próximo ano. E se viaja com filhos, o guia de Barcelos para famílias resolve-lhe um dia inteiro de programa sem birras.

Notas práticas, sem rodeios

  • Chegar: comboio da Linha do Minho desde Porto Campanhã, com serviços regulares ao longo do dia. O regional demora mais mas custa pouco; confirme horários e preços na CP.
  • Dormir: julho é incomparavelmente mais fácil e barato do que a semana da Agonia em agosto. Se a ideia é conhecer Viana com calma, julho é o mês certo.
  • Arraiais: entrada livre, dinheiro vivo, jantar tardio, regresso ainda mais tardio. Se for de carro, beba em conformidade ou nomeie um condutor antes do primeiro copo de verde.
  • Fogo de artifício: quase todos os arraiais terminam com fogo. Se viaja com cães ou crianças pequenas sensíveis ao barulho, planeie a retirada antes da meia-noite.
  • Programa de dia: praia de manhã, centro histórico ou Santa Luzia à tarde, sesta obrigatória, arraial à noite. Repetir até o corpo aguentar.

Junho tem a fama, agosto tem o ouro e as multidões. Julho tem as festas em que ninguém está a olhar para si, e é por isso que são as melhores. Siga os foguetes.

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