Gouveia: Escapadas de Um Dia que Valem a Viagem
Gouveia é discreta, mas fica no centro de tudo. Manteigas a 30 minutos, as Aldeias de Xisto a menos de uma hora, Linhares da Beira a 20. Cinco escapadas, cinco paisagens diferentes, nenhuma a mais de 60 minutos.
Gouveia tem aquele ritmo raro de uma vila que não precisa de provar nada a ninguém. De manhã, os cafés enchem-se de reformados com meia de leite e torrada, a conversa é sobre o tempo e o preço do queijo, e quem passa pela Rua da República nota logo que aqui ninguém tem pressa. Mas o que muita gente não percebe é que Gouveia é um ponto de partida brutal para explorar a Serra da Estrela e a Beira Interior. A vila fica estrategicamente posicionada entre vales e planaltos, com estradas que sobem para altitudes improváveis e descem para aldeias onde o tempo parou (sem exagero, desta vez).
Antes de sair, porém, comece pelo óbvio: suba ao Monte do Calvário. Não porque seja obrigatório para turistas, mas porque a vista de lá em cima dá-lhe o mapa mental de tudo o que vai explorar nos dias seguintes. Num dia limpo, consegue ver a linha da serra inteira a estender-se para sul. É o tipo de panorâmica que explica por que razão os pastores desta região sempre souberam orientar-se sem GPS.
Manteigas e o Vale Glaciar do Zêzere
A primeira escapada que recomendo é Manteigas. Fica a cerca de 30 minutos de carro por estradas de montanha que, sejamos honestos, são metade da experiência. A N232 sobe em curvas apertadas entre pinheiros e blocos de granito, e quando chega ao topo e começa a descer para o vale, percebe que está a entrar num dos vales glaciares mais impressionantes da Península Ibérica.
Manteigas é uma vila pequena, encaixada entre montanhas, com uma energia própria. Não é propriamente um destino de praia, mas tem carácter. O centro é compacto, percorre-se a pé em vinte minutos, e a melhor coisa que pode fazer é calçar botas e ir trilhar. O percurso dos Poços de Neve é provavelmente o trilho mais emblemático da Serra da Estrela: cerca de 12 quilómetros (ida e volta) ao longo do vale, passando por estruturas circulares de pedra onde se armazenava neve nos séculos passados. Se quer perceber a história e a logística do trilho, o nosso guia sobre Manteigas e os Poços de Neve explica tudo em detalhe.
Para almoçar, procure um restaurante no centro que sirva cabrito assado ou truta do rio Zêzere. Não vou inventar nomes de restaurantes que não conheço, mas pergunte a qualquer local e vão apontar-lhe o sítio certo em dois segundos. Conte com 12 a 18 euros por pessoa para uma refeição completa com vinho da região.
Aldeias de Xisto: Começando pela Covilhã
A segunda escapada é mais longa, cerca de 50 minutos até à Covilhã, mas vale cada quilómetro. A Covilhã em si é uma cidade interessante, construída na encosta da serra com vistas absurdas para o vale do Cova da Beira. Mas o verdadeiro motivo para ir nesta direcção é usar a Covilhã como ponto de partida para as Aldeias de Xisto.
As Aldeias de Xisto são um conjunto de povoações recuperadas onde as casas são construídas em xisto, uma pedra escura que dá às aldeias um aspecto dramático, especialmente ao final da tarde quando a luz rasante faz tudo brilhar. Aldeias como o Piódão (que tecnicamente fica no concelho de Arganil, mas é acessível a partir desta rota) ou Janeiro de Cima e Janeiro de Baixo são exemplos perfeitos. O nosso roteiro de um dia da Covilhã às Aldeias de Xisto dá-lhe o itinerário completo, com paragens, tempos e dicas práticas.
Uma nota importante: as estradas para algumas destas aldeias são estreitas e sinuosas. Não é difícil, mas exige atenção. E encha o depósito antes de sair, porque bombas de gasolina são raras no interior profundo.
Fundão e as Cerejeiras em Flor
Se estiver em Gouveia entre finais de março e meados de abril, há uma escapada que não pode ignorar: o Fundão e o vale das cerejeiras. A região do Fundão é o maior produtor de cereja em Portugal, e quando as árvores florescem, o vale transforma-se numa coisa que parece saída de um postal japonês, mas com presunto e queijo da serra em vez de sushi.
A viagem de Gouveia ao Fundão demora cerca de uma hora, pela A25 e depois pela nacional. O espectáculo das cerejeiras concentra-se nas encostas da Serra da Gardunha, especialmente à volta de aldeias como Alcongosta e Soalheira. É um fenómeno efémero, dura duas a três semanas no máximo, e o timing depende do clima desse ano. O nosso guia para ver as cerejeiras em flor no Fundão tem toda a informação sobre quando ir, onde estacionar e que aldeias visitar.
Mesmo fora da época das cerejeiras, o Fundão merece uma visita. O centro da cidade tem sido revitalizado nos últimos anos, com uma cena gastronómica crescente e um mercado municipal onde se encontra fruta da região a preços ridiculamente baixos.
Seia e o Museu do Pão
A escapada mais curta a partir de Gouveia é Seia, a apenas 15 minutos de carro. Seia é muitas vezes vista como a rival de Gouveia pela porta de entrada da Serra da Estrela, uma competição que os locais levam bastante a sério.
O grande chamariz de Seia é o Museu do Pão, instalado num edifício amplo à entrada da cidade. Confesso que o nome não promete muito, mas o museu é surpreendentemente bom: percorre a história do pão desde as civilizações antigas, tem uma padaria onde se pode comprar pão acabado de fazer, e inclui uma secção sobre a importância do pão na cultura serrana. A entrada custa poucos euros e é um programa perfeito para uma manhã.
Depois do museu, desça ao centro de Seia para almoçar. A cozinha é semelhante à de Gouveia, muito focada em cabrito, enchidos, queijo da serra e pão de centeio. Um almoço com sopa, prato, sobremesa e café raramente passa dos 15 euros.
De Seia, pode também seguir pela estrada que sobe à Torre, o ponto mais alto de Portugal continental (1993 metros). A estrada é boa e alcatroada até ao topo. No inverno pode precisar de correntes para a neve, mas no resto do ano é acessível a qualquer carro. Lá em cima, a paisagem lunar e o frio cortante, mesmo em junho, fazem-no sentir que está noutro país.
Linhares da Beira: O Castelo que Domina o Vale
A última sugestão é Linhares da Beira, uma aldeia histórica a cerca de 20 minutos de Gouveia. Se há uma escapada que resume tudo o que a Serra da Estrela tem de bom, é esta.
Linhares tem um castelo medieval no topo de um esporão rochoso, com vistas que parecem impossíveis. A aldeia em si é minúscula, toda em pedra, com uma atmosfera que em dias de semana é de um silêncio quase total. Há uma igreja românica, uma antiga judiaria marcada com cruzes na pedra, e um foral de D. Afonso Henriques. Linhares também é conhecida entre praticantes de parapente, porque as correntes térmicas do vale são ideais para voos longos. Se lhe interessa, há operadores locais que organizam voos tandem. Confirme preços e disponibilidade localmente.
Para voltar a Gouveia, pode tomar o caminho directo pela estrada municipal, ou fazer um desvio pelo miradouro de São Domingos para mais uma vista sobre o vale do Mondego.
Dicas Práticas para Todas as Escapadas
- Gouveia tem uma estação de serviço à saída da vila em direcção à serra. Encha sempre o depósito antes de partir para qualquer uma destas viagens.
- Transporte público existe, mas é escasso. Para estas escapadas, carro é praticamente obrigatório. Se não tem carro, informe-se sobre serviços de transfer na região.
- Os meses de maio a outubro são os melhores para trilhos. No inverno, as altitudes acima de 1200 metros podem ter gelo ou neve.
- Leve sempre um casaco extra, mesmo no verão. Na serra, a temperatura pode cair 10 graus em minutos quando o nevoeiro desce.
- O queijo Serra da Estrela DOP é vendido em vários produtores ao longo destas rotas. Compre directamente ao produtor e pague menos do que nas lojas turísticas de Lisboa.
Gouveia não é o tipo de destino que aparece em capas de revista. E talvez seja exactamente por isso que funciona tão bem como base. Está no centro de tudo, sem a confusão de tudo. Cinco escapadas, cinco experiências completamente diferentes, nenhuma a mais de uma hora de distância. Se isso não é um bom argumento para ficar mais do que uma noite, não sei o que é.