Gouveia à Mesa: Onde Comem os Locais na Serra
Em Gouveia, come-se cabrito com míscaros a preços de há 20 anos, queijo Serra da Estrela à colher e rodízios serranos a 20 euros em Folgosinho. Este é o guia para comer onde comem os locais na vertente norte da Serra da Estrela.
Gouveia não é o tipo de cidade que aparece nas listas de "melhores restaurantes de Portugal". Não tem chefs com estrelas, não tem menus de degustação a 120 euros, não tem pratos servidos em pedras de xisto com espuma de qualquer coisa. E é precisamente por isso que se come tão bem aqui.
Estamos na vertente norte da Serra da Estrela, onde a altitude muda tudo: a erva que o gado come, o leite que as ovelhas dão, o tempo que a carne leva a criar sabor. A gastronomia de Gouveia não é sofisticada. É directa, generosa e honesta. E se quiser perceber o que isso significa na prática, tem de se sentar onde se sentam os locais.
Folgosinho: O Albertino e a tradição do rodízio serrano
Vamos começar fora do centro, porque a melhor refeição do concelho de Gouveia está a cerca de 15 minutos de carro, na aldeia de Folgosinho. O Albertino é um daqueles sítios que desafia qualquer lógica urbana: uma antiga mercearia e taberna transformada em restaurante, onde a ementa não existe no sentido convencional. Senta-se, e os pratos começam a chegar.
O conceito é simples: rodízio de comida serrana. Arroz de cabidela de coelho, feijoada de javali, vitela de Folgosinho estufada, borrego assado no forno, leitão. A comida chega à mesa em travessas generosas, e o objectivo é provar tudo. O preço ronda os 20 euros por pessoa, vinho incluído. Leia isso outra vez: vinte euros por uma refeição de três horas com meia dúzia de pratos, pão caseiro e vinho da região.
O Albertino fecha à segunda-feira. Aos domingos e terças, serve apenas almoço. Nos restantes dias, almoço e jantar. A morada é Adro de Viriato 8, Folgosinho. Reserve com antecedência, especialmente aos fins-de-semana, porque o sítio tem fama e os 72 lugares enchem rápido.
Folgosinho, já agora, é uma aldeia que merece tempo. Ruas estreitas, casas de granito, quadras populares escritas nas paredes, e vistas largas para a serra. É terra de Viriato, dizem. Se depois de almoçar n'O Albertino ainda conseguir mexer-se, dê um passeio pela aldeia antes de regressar a Gouveia.
O Júlio: O cabrito que vale a deslocação
De volta a Gouveia, na Rua do Loureiro, n.º 11A, o Restaurante O Júlio é outra história. É mais discreto, mais contido, o tipo de sítio que se descobre por indicação de alguém que vive ali. O senhor Júlio tem mais de 40 anos de casa, e a cozinha é regional sem concessões.
O que pedir? Cabrito. Ponto. O cabrito assado no forno é a referência, mas peça o cabrito com míscaros (cogumelos selvagens da serra) se estiver na época. A feijoca à pastor da Serra da Estrela também vale a pena, uma espécie de feijão com enchidos e carnes que é uma refeição inteira num prato. E há um prato chamado "batatinhas do céu" que, apesar do nome foleiro, é surpreendentemente bom.
O Júlio tem paredes de granito, toalhas de mesa discretas e uma cozinha visível com forno a lenha. A carta de vinhos é dominada pelo Dão, que é exactamente o que deve ser nesta zona. Fecha à terça-feira. Os preços são razoáveis, confirme localmente porque podem variar.
O queijo que manda em tudo
Não se pode falar de comer em Gouveia sem falar de queijo. O Queijo Serra da Estrela é o rei da mesa, e Gouveia está dentro da zona geográfica de produção DOP. Este queijo é feito exclusivamente com leite cru de ovelha Bordaleira, coagulado com flor de cardo (Cynara cardunculus), uma planta que cresce espontaneamente na serra.
O resultado, quando é bom, é um queijo de pasta semi-mole, cremoso no interior, com uma casca lavada e um sabor intenso que equilibra sal, acidez e uma gordura limpa. Quando é muito bom, abre-se a casca com uma faca e come-se à colher, com pão de centeio e um tinto do Dão.
Encontra queijo Serra da Estrela em praticamente todos os restaurantes de Gouveia, mas para comprar um inteiro, procure produtores locais nos mercados ou nas queijarias da região. A qualidade varia muito. Um bom queijo Serra da Estrela curado não é barato (pode ultrapassar os 20 euros por unidade), mas é uma experiência completamente diferente do que se encontra no supermercado.
Os enchidos e o pão: a base de tudo
Antes de qualquer prato principal, a mesa serrana começa quase sempre com enchidos: chouriça, farinheira e morcela. Comem-se "a seco", cortados às rodelas com pão da região, enquanto se espera pelo resto. É o aperitivo local, e funciona melhor do que qualquer entrada elaborada.
O pão, aqui, é de centeio ou de milho. Denso, escuro, com crosta grossa. Não é pão bonito, é pão sério. E é o acompanhamento perfeito para tudo o que vem a seguir, seja cabrito, borrego ou simplesmente queijo com marmelada, que é a combinação clássica da serra.
Restaurante O Gouveia: tradição no centro da cidade
Para quem prefere não sair do centro, o Restaurante O Gouveia é uma opção sólida. Cozinha tradicional beirã, com pratos como secretos, lagartos e as sopas da região. Os preços são acessíveis e o serviço é directo, sem floreados. Não é o tipo de restaurante que inspira artigos de revista, mas é onde muita gente de Gouveia almoça regularmente, e isso diz alguma coisa.
Cova da Loba: para quem quer sair da caixa
Se estiver com disposição para conduzir um pouco mais, o Restaurante Cova da Loba em Linhares da Beira merece o desvio. Linhares é uma das 12 Aldeias Históricas de Portugal, e a Cova da Loba faz uma leitura mais criativa da gastronomia serrana: peito de pato caramelizado com cerejas, borrego grelhado com arroz de cogumelos, pudim de amêndoa com azeite e mel. Não é comida de avó, é comida de serra com ambição. Os preços são mais altos do que n'O Albertino ou n'O Júlio, mas o cenário e a qualidade justificam.
Quando ir e como chegar
Gouveia fica a cerca de 3h30 de Lisboa e 2h do Porto, sempre por auto-estrada até Celorico da Beira e depois estrada nacional. Carro é essencial. Não vale a pena tentar fazer isto de transportes públicos, a menos que tenha paciência infinita e nenhuma pressa.
A melhor altura para comer na serra é o Outono e o Inverno. Os míscaros aparecem entre Outubro e Dezembro, o queijo curado atinge o seu melhor entre Janeiro e Março, e o frio faz com que um ensopado de cabrito ou uma feijoca sejam exactamente o que o corpo pede. No Verão come-se bem na mesma, mas perde-se parte do contexto.
Se estiver a planear uma viagem à Serra da Estrela, vale a pena combinar Gouveia com uma subida ao Monte do Calvário para as vistas, ou estender a viagem até Manteigas e os seus poços de neve. E se vier do lado da Covilhã, considere fazer o roteiro de um dia pelas Aldeias de Xisto. Na Primavera, pode ainda passar pelo Fundão para ver as cerejeiras em flor na Gardunha.
O essencial
- Vá a Folgosinho almoçar n'O Albertino. Reserve antes. Espere gastar 20 euros e sair a rolar.
- No centro de Gouveia, O Júlio é a escolha certa para cabrito. Peça o cabrito com míscaros se for época.
- Compre queijo Serra da Estrela a produtores locais, não no supermercado. Pergunte nos restaurantes quem recomendariam.
- Beba Dão. Tinto no Inverno, branco no Verão. É a região vinícola que faz par com esta comida.
- Traga apetite. A comida na serra não se serve em doses de prova.