Ericeira em Julho: Piscinas Naturais, Trilhos e Festas
Em julho a Ericeira é uma vila a duas velocidades: vazia às sete da manhã, intransitável às onze. Guia honesto às piscinas naturais que ainda têm espaço, aos trilhos da Rota Vicentina, e ao peixe fresco que sai da lota antes do meio-dia.
Há um momento, por volta das sete da manhã em julho, em que a Ericeira ainda pertence aos pescadores e aos surfistas. O nevoeiro matinal cola-se à Rua Doutor Eduardo Burnay, os cafés da Praça dos Navegantes ainda estão a meio do primeiro turno, e do lado da Ribeira d'Ilhas chegam os primeiros carros com as pranchas atadas aos tejadilhos. Duas horas depois, a vila será outra coisa completamente diferente: cheia, ruidosa, com filas à porta da Mercearia Nova para o pão e meninos de fato de banho a correr para a Praia dos Pescadores. Mas às sete, ainda há ar para respirar. É esse o segredo de julho aqui: chegar cedo, almoçar tarde, e nunca tentar fazer tudo no mesmo dia.
Julho é o mês mais difícil para visitar a Ericeira e também o melhor. A temperatura da água da Reserva Mundial de Surf raramente passa dos 18°C mesmo em pleno verão, o que assusta toalhas alugadas em meia hora na Praia do Sul e mantém o oceano a uma temperatura que os locais chamam de "fresca" e os turistas brasileiros de "impossível". Estacionamento perto do centro depois das 10h é uma quimera. Mas se planearem bem, a recompensa é uma das semanas mais densas de vida do calendário português: festas, peixe, trilhos e piscinas naturais que ficam praticamente vazias se souberem a hora certa.
As piscinas naturais que os locais usam (e as que evitam)
A primeira coisa a perceber é que "piscina natural" na Ericeira significa duas coisas muito diferentes. Há os tanques construídos pelo homem, como a Poça da Maria Pia ou a piscina oceânica abaixo do Forte do Cavalar, e há os recifes naturais que enchem com a maré alta. Os primeiros são previsíveis e cheios. Os segundos exigem que se consulte a tabela de marés todas as manhãs.
A Poça é o cartão postal: tanque retangular cravado na rocha, com vista para o forte e para a paisagem urbana branca da vila. Em julho, esqueçam ir entre as 11h e as 17h, salvo se a ideia for fazer fotografia para Instagram com cabeças desconhecidas em segundo plano. Funciona muito melhor às 8h da manhã, com a água ainda parada da noite anterior, ou depois das 19h, quando as famílias começam a recolher para jantar e a luz fica âmbar contra as casas brancas.
Para quem quer fugir do centro, o Algés do Norte e a Foz do Lizandro têm zonas de poças que enchem com a maré e onde os miúdos da vila aprendem a apanhar caranguejos. Não há restaurantes ali, não há chuveiros, não há nada além de rocha vulcânica escura, pequenos charcos verdes e o ruído dos surfistas mais a sul. Levem água, fruta e protetor solar de fator alto: o reflexo na rocha queima de uma maneira que a praia comum não faz.
Trilhos: caminhar antes do calor
Quem nunca caminhou na costa entre Ericeira e Magoito não percebe verdadeiramente porque é que esta zona é Reserva da Biosfera. O trilho dos Pescadores, parte do sistema mais alargado da Rota Vicentina, passa por arribas calcárias, plantações de chorão (a planta suculenta que cobre as falésias) e miradouros sobre praias quase inacessíveis. Em julho, a regra é simples: começar antes das 8h e estar de volta antes das 11h, ou esperar pelas 17h30. Caminhar entre o meio-dia e as quatro da tarde no verão alentejano da costa é um erro que se paga em insolação.
Para quem quer um percurso estruturado, o nosso guia de caminhadas na Rota Vicentina em Ericeira foi escrito a pensar na primavera, mas a maior parte dos trilhos funciona em julho com os ajustes horários que mencionei. As distâncias variam entre 6 e 14 km e podem fazer-se de mochila pequena, garrafa de 1,5L e chapéu. Sapatilhas de trail são preferíveis a sandálias: a rocha aqui é cortante e os caminhos têm secções de areia solta nas dunas.
Uma nota prática: vários trilhos passam por terrenos privados onde os proprietários toleram peões mas não toleram lixo nem cães à solta. Se levarem cão, trela curta e saco. Já vi multas em juízo de paz por isto e nem todos os juízes simpatizam com turistas distraídos.
O centro histórico em meia manhã
A Ericeira tem um centro pequeno que se faz em duas horas de caminhada lenta. O ponto de partida lógico é o Pelourinho da Ericeira, na praça central, símbolo do estatuto de vila concedido em 1229 por D. Sancho II. É baixo, simples, com a coroa típica do estilo manuelino tardio, e está rodeado de cafés que servem galões a preços ainda razoáveis se ficarem no balcão (a esplanada custa quase o dobro em julho).
A partir daí, sigam para a Igreja de São Pedro, o templo principal da vila. A devoção a São Pedro pesa muito por aqui, e não por acaso: o santo é padroeiro dos pescadores, e a procissão de 29 de junho ainda enche as ruas. Em julho ainda se sentem os ecos das festas, e é frequente encontrar bandeirinhas penduradas entre os candeeiros pelo menos até à segunda semana do mês. O interior da igreja tem azulejaria do século XVIII que vale uma visita de 15 minutos, especialmente nos painéis laterais que retratam cenas da vida do santo.
O passeio fecha bem no Forte de Nossa Senhora da Natividade, construído em 1706 para defender o porto dos corsários. Hoje serve sobretudo como miradouro: dali vê-se toda a baía, a piscina natural abaixo e, em dias claros, até ao Cabo da Roca. Subam ao final da tarde, quando o sol incide a oeste e a pedra do forte fica cor de mel. Levem casaco fino: o vento norte que aqui se chama "nortada" não brinca, mesmo em julho.
Festas populares: o que ainda acontece em julho
As grandes festas de São Pedro são em junho, mas julho não é mês morto. A Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem, normalmente celebrada no primeiro fim de semana de agosto, começa a preparar-se já em julho com a chegada das primeiras barracas à zona da Praia dos Pescadores. As ruas enchem-se de papel cortado, há ensaios de filarmónica e os bares à beira-mar prolongam horários até passar da meia-noite.
Mais discretas, mas igualmente interessantes, são as festas das freguesias rurais à volta da Ericeira. Em Carvoeira, Santo Isidro de Pegões e na Encarnação, há arraiais de verão com sardinha assada na rua, baile com música ao vivo (esperem repertório que vai de Quim Barreiros a Tony Carreira sem pedido de desculpas), e fogo de artifício barato mas eficaz. São festas para quem quer ver Portugal real, sem turistificação. Cheguem antes das 21h se quiserem sardinhada decente: depois disso, as filas são bíblicas.
Para contexto histórico, vale a pena ler o nosso guia sobre cultura local em Lisboa, tradições e bairros: muitas das festividades costeiras da região seguem padrões semelhantes aos arraiais de Alfama e Graça, com adaptações locais. A diferença é que aqui há mais peixe e menos manjerico.
Onde comer (sem ser num menu turístico)
A regra de ouro para comer na Ericeira em julho: nunca confiar num restaurante que tenha empregado à porta a oferecer mesa em inglês. Os bons sítios não precisam. A vila tem uma frota pesqueira pequena mas ativa, e o que sai da lota da Ericeira chega às cozinhas em horas, não em dias. Sardinha, sargo, robalo de anzol, lulas, polvo, percebes em quantidades razoáveis se vierem da costa de Sintra.
O Mar das Latas Wine & Food é uma das casas onde se percebe que o conceito da Ericeira contemporânea já não é só o restaurante de peixe grelhado tradicional. Conservas portuguesas de boa qualidade, garrafa de vinho aberta sem grandes cerimónias, mesas pequenas onde se petisca lentamente. É o tipo de sítio onde o casal ao lado vai pedir uma lata de mexilhões em escabeche, pão de fermentação lenta e uma garrafa de vinho de talha alentejano, e onde se passam três horas sem sentir. Reservem se forem fim de semana: a capacidade é pequena e em julho enche.
Para peixe puro, o caminho é o mercado: cheguem cedo (antes das 11h), comprem o que estiver mais fresco, e levem a um dos restaurantes da Rua das Furnas que fazem grelhado por encomenda. Custa menos de metade do que pedir o mesmo peixe pronto na carta. Os locais fazem isto há décadas. Os turistas pagam três vezes mais a 50 metros de distância.
Excursões fáceis a partir da Ericeira
A vila é base perfeita para explorar a região oeste e a Serra de Sintra. Mafra está a 12 km, com o convento monumental que vale a meia tarde, e na época da Páscoa a tradição doceira é forte: para quem visita na altura certa, o nosso guia sobre doces de Páscoa em Mafra dá pistas que servem o ano inteiro, porque várias pastelarias mantêm receitas tradicionais durante todo o verão.
Sintra está a uns 30 minutos de carro pela estrada da costa, evitando a A21 que em julho tem trânsito assustador a partir das 9h. Se vão a Sintra, façam-no de manhã muito cedo ou ao final da tarde, e usem o nosso guia de bairros de Sintra para sair do circuito Palácio da Pena - Quinta da Regaleira - Cabo da Roca, que em julho é uma autêntica via crucis turística. Há bairros inteiros de Sintra que ficam vazios mesmo em pico de verão.
Onde dormir e quanto custa
A Ericeira em julho deixou de ser barata há uns dez anos. Um quarto duplo em hotel decente no centro raramente desce abaixo dos 150€ por noite, e os apartamentos no Booking partem dos 120€ se reservarem com antecedência. A alternativa séria é ficar a 5-10 km da vila, em Mafra, Encarnação ou São Lourenço, onde se encontram casas de campo entre 70 e 100€ com piscina, jardim e estacionamento. Carro torna-se obrigatório, mas em julho carro torna-se obrigatório de qualquer maneira: o autocarro Mafrense funciona, mas com frequência reduzida ao fim de semana.
Para surfistas, há hostels e surf camps na Ribeira d'Ilhas e em São Lourenço, com pacotes que incluem pequeno almoço, aulas e transporte para as praias. Custos médios: 350 a 600€ por semana, dependendo da época e do conforto. Julho é alta estação, reservem com pelo menos seis semanas de antecedência.
O que evitar
Três coisas para não fazer em julho na Ericeira. Primeiro: não conduzir até ao centro depois das 10h, deixem o carro nos parques periféricos (há um grande junto ao quartel dos bombeiros) e desçam a pé. Segundo: não entrar na água sem perceber as correntes, especialmente em Ribeira d'Ilhas e Coxos, que são praias de surfistas avançados e não de banhistas. Há bandeira amarela e vermelha que se ignora por conta e risco. Terceiro: não pedir o prato do dia em restaurantes da avenida principal sem perguntar o preço primeiro. Em julho, alguns aproveitam-se.
Por fim, uma sugestão pessoal: reservem uma noite para ficar até depois das 23h num miradouro como o do forte ou o de Santa Marta. Em julho, com a maré baixa, ouve-se o oceano a quebrar contra a rocha numa frequência que durante o dia se perde no ruído da vila. É de graça, dura uma hora, e é provavelmente a melhor coisa que a Ericeira oferece em pleno verão.