Praias do Algarve em Junho: Ericeira Manda Cumprimentos
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Praias do Algarve em Junho: Ericeira Manda Cumprimentos

· · Ericeira

Junho é a janela de ouro no Algarve: água a 19º, esplanadas com mesa livre, preços a metade. Mas planear a partir da Ericeira tem regras próprias. Cinco praias escolhidas a dedo, um itinerário de três dias, e o que comer (e o que nunca pedir).

Há um pequeno problema com este artigo e é melhor admiti-lo já: estamos em Ericeira, a falar das melhores praias do Algarve em Junho. Sim, são 300 quilómetros a sul. Sim, a água é mais quente. E sim, Junho é a janela de ouro, aquela semana e meia antes de Lisboa inteira decidir que precisa de uma sombrinha em Albufeira. Mas se está a ler isto a partir da Ericeira, ou se calhou aqui parar a planear umas férias em Portugal, fique cinco minutos. Porque a forma como se faz uma escapadela ao Algarve em Junho a partir da costa de Ericeira é diferente da forma como se faz a partir de qualquer outro sítio do país, e ninguém costuma dizer isto em voz alta.

Comecemos pelo óbvio: Junho no Algarve é uma negociação. A água ainda está fresca (uns 18-19º na primeira quinzena, 20-21º no fim do mês, confirme localmente porque o Atlântico tem humor próprio), as esplanadas ainda têm mesas livres ao almoço, e os preços de alojamento são metade do que vão ser em Agosto. Em troca, há manhãs de nevoeiro que os locais chamam cacimbo e que podem prolongar-se até às 11h. É o preço a pagar. Pague-o.

Porquê sair da Ericeira em Junho (e voltar)

A Ericeira em Junho é gloriosa. Vou ser honesto, é provavelmente mais bonita do que metade do Algarve nesta altura do ano. O surf ainda corre, os trilhos da Rota Vicentina estão em pleno e a vila não está ainda em modo Agosto. Para quem quer ficar, recomendo passar uma manhã a fazer caminhadas na Rota Vicentina pelos trilhos costeiros antes do calor apertar, e acabar o dia no Mar das Latas Wine & Food, onde a carta de conservas e copos faz sentido com a luz das oito da noite a entrar pelas janelas.

Mas a questão é esta: o Algarve em Junho oferece uma coisa que a Ericeira não oferece. Calor seco, água quase morna ao fim da tarde, escarpas calcárias laranja contra mar turquesa. É outro país dentro do país. E o melhor é que se faz num fim de semana longo, três noites bem aproveitadas, e volta-se a casa antes que a vila comece a ficar cheia de tábuas no tejadilho.

Como chegar sem perder a manhã

A regra de ouro: não conduza tudo de uma vez. São cerca de 3h30 de Ericeira a Lagos pela A2, mais hora e meia se quiser ir até Sagres. Saia de Ericeira ao final da manhã, almoce em Alcácer do Sal (a tasca da praça do peixe vale uma paragem), e chegue ao Algarve a tempo do banho do fim da tarde, quando a luz fica âmbar e as praias começam a esvaziar. Combustível em Junho de 2026 anda à volta dos 1,70€/litro o gasóleo, confirme antes de partir. Portagens A2 Lisboa-Algarve: aproximadamente 23€.

As praias que valem mesmo a pena em Junho

Vou poupar-vos a lista das vinte praias mais bonitas do Algarve porque já existem mil. Vou dar-vos cinco, escolhidas com critério específico: tem de estar gerível em Junho (leia-se: não cheia), tem de ter algo que justifique a deslocação a partir de Lisboa, e o estacionamento não pode ser um pesadelo. Se uma praia falha em qualquer destes três pontos, fora.

Praia da Marinha (Lagoa)

Sim, está em todas as listas. Sim, é justificado. As escarpas estriadas, o duplo arco rochoso na ponta este, a água que parece corrigida em Photoshop. O truque é simples: chegue antes das 10h ou depois das 17h. A meio do dia em Junho ainda é gerível, mas a partir do dia 15 começa a apertar. O estacionamento de cima é gratuito e geralmente tem lugar até às 11h. Leve água, sombra própria e calçado que aguente a descida pelas escadas de pedra (são íngremes, há quem desista a meio).

Praia do Camilo (Lagos)

200 degraus de madeira para descer, e os mesmos 200 para subir no regresso. É o filtro natural que mantém a praia menos lotada do que a vizinha Dona Ana. Em Junho consegue-se um lugar na areia sem stress até depois do almoço. O detalhe que ninguém vos diz: na maré baixa, há um túnel natural que liga a praia principal a uma segunda baía mais pequena. Aproveite as marés (consulte tábuas oficiais antes), porque é nessa segunda baía que se nada sozinho em Junho.

Praia da Falésia (Albufeira/Vilamoura)

Seis quilómetros de areia ao pé das falésias cor de ocre. A escala importa: mesmo quando há quinhentas pessoas na praia, parecem cinquenta porque há espaço para todos. Em Junho, escolha a entrada do Alfamar ou da Falésia Mar, mais próxima de Olhos de Água, em vez da entrada central de Vilamoura. Há menos sombrinhas alugadas, mais espaço, e o passeio em cima da falésia ao pôr do sol é dos mais bonitos da costa.

Praia do Carvalho (Lagoa)

Aqui está o segredo, se há algum. Entra-se por um túnel escavado na rocha (literalmente um túnel, com escadas). A praia é pequena, talvez 80 metros de areia, e em Junho ao meio da semana tem trinta pessoas. Trinta. A água é cristalina, as paredes da escarpa caem na vertical, e há uma sensação de gruta que nenhuma outra praia algarvia tem. O senão: não há apoio de praia, traga tudo. E o estacionamento é improvisado, chegue cedo.

Praia do Beliche (Sagres)

Para quem está disposto a fazer mais 1h15 de carro desde Lagos. Beliche é a praia certa para o vento de Junho, protegida do nordeste pela escarpa, com a água do Atlântico aberto e a sensação de estar no fim do mundo, porque está praticamente. O bar de praia (quando aberto, confirme localmente) serve um polvo grelhado que é o melhor da zona. Combine com uma volta ao Cabo de São Vicente ao fim da tarde, ver o sol cair na borda da Europa, e perceberá porque é que vale a pena ir até ali.

Onde comer sem cair em armadilhas para turistas

Regra geral: se a ementa está traduzida em seis línguas e tem fotografias dos pratos, ande para a frente. Se o empregado lhe diz "hoje só temos isto e isto", sente-se. Em Junho, a maior parte dos restaurantes ainda funciona em modo de inverno, com cozinheiros locais que não foram contratados à pressa para a época. É o melhor mês para comer no Algarve.

Não vou dar nomes específicos de restaurantes porque a rotação de cozinheiros é alta e o que recomendo hoje pode estar diferente em Setembro. Mas vou dar-vos quatro regras práticas: peça sempre o peixe do dia em vez do cartão, pergunte sempre se há cataplana feita na hora (mínimo 40 minutos de espera, é bom sinal), evite os restaurantes na primeira linha de praia (os melhores estão a 200 metros para o interior), e nunca peça sangria. Quem bebe sangria no Algarve é turista de uma noite. Peça um vinho branco de Lagoa, está em Junho na sua melhor altura.

Pratos para procurar

  • Carapau alimado: carapau cozido, desfeito, temperado com azeite, vinagre, alho e coentros. Pré-banho perfeito.
  • Estupeta de atum: salada fria de atum cru desfiado com tomate e cebola, típica de Vila Real de Santo António. Encontra-se no sotavento.
  • Xerém com conquilhas: a polenta algarvia com bivalves. Pesado para o almoço, perfeito para um jantar tardio.
  • Doce fino algarvio: figos cheios, morgado, queijinho de figo. Para acompanhar um café às 17h, a sério.

Três dias bem feitos: o itinerário honesto

Saia de Ericeira na sexta de manhã. Pernoite duas noites em Lagos (boa base, com vida nocturna e proximidade às melhores praias da zona) e uma terceira em Sagres se quiser fechar com chave de ouro, ou regresse via Évora se quiser variar o caminho de volta.

Sexta

Chegada a Lagos ao fim da tarde. Banho rápido na Praia do Camilo se ainda houver luz, jantar leve na zona pedonal de Lagos, dormir cedo.

Sábado

Praia da Marinha de manhã (chegada às 9h), almoço em Carvoeiro (peça polvo, não bacalhau), tarde na Praia do Carvalho, fim de tarde na muralha de Lagos com um copo. Jantar tardio.

Domingo

Manhã em Sagres: Praia do Beliche, Cabo de São Vicente para fotos sem multidão. Almoço de polvo ou amêijoas em Sagres. Regresso a Lagos para um último mergulho na Falésia, ou estrada para casa via A22+A2.

Se vai voltar à Ericeira, planeie a chegada para depois das 20h, porque o tráfego na A2 a partir das 16h domingo é quase tão hostil como Agosto em Albufeira. Outra opção: dormir uma terceira noite em Sagres ou Sines, partir segunda de manhã com calma.

O que NÃO fazer no Algarve em Junho

  • Não vá às grutas de Benagil de barco grande às 14h. Está cheio, é caro, e a luz é pior do que de manhã. Vá de caiaque ou stand-up paddle entre as 8h e as 10h, ou esqueça por agora.
  • Não tente fazer uma praia diferente por dia. O Algarve premeia quem fica. Duas praias por dia, com tempo para o almoço lento, é o ritmo certo.
  • Não conduza à noite por estradas secundárias do interior algarvio. Há javalis. A sério.
  • Não acredite no Instagram. Aquela praia paradisíaca com três pessoas? Foi tirada em Março às 7h da manhã. O resto do tempo é assim como em todo o lado.

De volta a Ericeira: a luz é outra

Quando voltar, vai notar a diferença. O Atlântico em Ericeira tem outro carácter, mais bravo, mais cinzento mesmo em pleno Junho. Vai apreciar mais o que tem à porta. Faça uma volta lenta pelo centro histórico, pare junto ao Pelourinho da Ericeira, entre na Igreja de São Pedro com calma, e termine numa caminhada até ao Forte de Nossa Senhora da Natividade para ver o pôr do sol. A perspectiva de quem acabou de fazer 600 km de costa portuguesa em três dias é diferente.

Se este artigo lhe abriu o apetite por outras escapadas a partir de Lisboa e arredores, dê uma vista de olhos ao nosso guia dos bairros de Sintra, ao roteiro de cultura local em Lisboa, ou, se ainda estiver no humor de tradição doce, ao nosso roteiro pelos doces de Páscoa em Mafra. Junho é o mês de fazer Portugal devagar. Aproveite antes que Julho chegue com as suas multidões e os preços dobrem da noite para o dia. A sério: dobram.

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