Da Ericeira às Praias Fluviais: Fugir ao Calor de Agosto
O Atlântico na Ericeira raramente passa dos 17 graus em agosto, e o interior do país ferve a 38. A solução é a mesma para os dois problemas: as praias fluviais do Centro, de Loriga ao Poço da Broca, a menos de três horas da vila. Ondas de manhã, poças de granito à tarde, jantar de peixe ao regresso.
Agosto na Ericeira tem uma ironia que ninguém explica aos visitantes: toda a gente vem fugir ao calor, e depois descobre que o Atlântico da costa oeste raramente passa dos 17 graus. A nortada levanta a meio da tarde, o mar fica picado, e o banho que planeou transforma-se em três minutos de coragem seguidos de vinte de recuperação na toalha. Entretanto, a cem quilómetros para o interior, o termómetro marca 38 graus e as aldeias do Centro derretem ao sol. A solução para os dois problemas é a mesma: as praias fluviais. Água doce, morna nas represas de montanha, sombra de amieiros, e um país inteiro entre a serra e o mar que a maioria dos turistas nunca vê. Este é o roteiro para quem está na Ericeira em agosto e quer trocar a multidão da Praia dos Pescadores por uma poça de granito na Serra da Estrela, com regresso a tempo do jantar na vila.
Primeiro, aproveite a Ericeira de manhã cedo
Não vale a pena arrancar para o interior às sete da manhã. O calor lá dentro só aperta a sério depois do meio-dia, e a Ericeira às oito da manhã é outra vila: o estacionamento junto ao Largo das Ribas ainda tem lugares, as esplanadas estão a montar mesas, e o mar está mais calmo antes da nortada. Se surfa, é a melhor janela do dia. As aulas de surf na Ericeira durante o verão concentram-se precisamente nestas horas, e quem nunca subiu numa prancha pode começar com uma aula para iniciantes em São Sebastião, uma praia mais protegida do vento do que as do centro da vila.
Sem pressa de sair, dê uma volta pelo casco antigo. O Pelourinho da Ericeira e a Igreja de São Pedro ficam a poucos minutos a pé um do outro, e o Forte de Nossa Senhora da Natividade é o sítio certo para perceber porque é que esta vila foi porto de pesca antes de ser capital do surf. Quinze minutos em cada um chegam. A Ericeira não é vila de museus, é vila de mar, e o mar em agosto vê-se melhor do que se toca.
A rota das praias fluviais do Centro
Do centro da Ericeira até à zona das praias fluviais mais bonitas do país são entre duas e três horas de carro, consoante o destino. Parece longe. Não é: é uma viagem de ida e volta perfeitamente possível num dia, e ainda melhor com uma noite pelo meio numa aldeia de xisto. Leve dinheiro em numerário para os cafés de aldeia, chinelos que aguentem pedra molhada, e parta com o depósito cheio, porque as bombas de gasolina rareiam na serra.
Loriga: a piscina glaciar da Serra da Estrela
Se só puder escolher uma, escolha Loriga. A praia fluvial fica no fundo de um vale glaciar na encosta da Serra da Estrela, alimentada pela ribeira que desce da montanha, com uma represa que forma uma piscina natural de água transparente. A água é fria, mas fria de montanha, não fria de Atlântico: ao fim de um minuto o corpo habitua-se e ao fim de dez ninguém quer sair. Em agosto enche aos fins de semana, por isso a regra é simples: vá a um dia de semana e chegue antes das onze. O café junto à praia serve o essencial, mas a aldeia de Loriga, uns minutos acima, tem mais opções para almoçar.
Poço da Broca: o postal da ribeira de Alvoco
Na Barriosa, concelho de Seia, a ribeira de Alvoco cai numa cascata pequena e forma o Poço da Broca, uma poça funda rodeada de lajes de pedra e um passadiço de madeira. É provavelmente a praia fluvial mais fotografada do Centro, o que em agosto significa concorrência. O truque é o mesmo de Loriga: dias de semana, manhã cedo. A recompensa é mergulhar numa água que parece vidro, debaixo de castanheiros, num silêncio cortado apenas pela cascata.
Fraga da Pena: a cascata da Benfeita
Perto da Benfeita, no concelho de Arganil, à beira da Mata da Margaraça, a Fraga da Pena é mais cascata do que praia: uma queda de água em socalcos com poças pequenas na base. Não é sítio para nadar, é sítio para molhar os pés, respirar ar dez graus mais fresco do que no vale, e perceber porque é que os locais guardam este segredo com algum ciúme. Combina bem com almoço numa aldeia próxima e caminhada curta pela mata.
Foz d'Égua e Piódão: xisto e água
A poucos quilómetros do Piódão, a aldeia de xisto mais famosa de Portugal, fica a Foz d'Égua: duas ribeiras que se encontram, uma ponte de pedra, uma poça funda para mergulhos e um cenário que parece desenhado. Vá primeiro à água, depois ao Piódão, e não ao contrário: a aldeia às cinco da tarde, quando as excursões já partiram, é infinitamente melhor do que ao meio-dia.
Praia das Rocas: a opção com família
Se viaja com crianças que se aborrecem em poças de granito, a Praia das Rocas, em Castanheira de Pera, é a resposta: uma lagoa artificial na ribeira de Pera com piscina de ondas, areia e infraestrutura completa. Tem entrada paga, com valores que convém confirmar localmente, e em agosto enche cedo. Não é a experiência selvagem de Loriga, mas é uma tarde inteira resolvida.
Reconquinho e Avô: os clássicos do Mondego e do Alva
Para fechar a lista, dois clássicos: a praia fluvial do Reconquinho, em Penacova, com areal à beira do Mondego, e a praia fluvial de Avô, em Oliveira do Hospital, onde o rio Alva passa mesmo por baixo da aldeia. Avô é o género de sítio onde se almoça numa esplanada a ver os miúdos a saltar da ponte, e onde agosto ainda sabe a férias de antigamente.
Logística sem stress
- Quando ir: dias de semana, sempre. Sábados e domingos de agosto transformam qualquer praia fluvial num parque de estacionamento.
- Horário: chegue antes das 11h ou depois das 17h. A água à tarde está mais quente, mas a sombra e o espaço desaparecem.
- O que levar: chinelos de sola grossa, protetor solar, água, e comida de reserva. Nem todas as praias têm café aberto todos os dias.
- Segurança: as poças naturais não têm vigilância permanente em todos os casos. Confirme localmente antes de mergulhar de cabeça, a profundidade varia com o verão.
- Combustível: abasteça antes de subir a serra.
O regresso: jantar com vista de mar
A melhor parte deste plano é o fim. Sai-se da serra ao fim da tarde, apanha-se o pôr do sol algures na A23 ou no IC8, e chega-se à Ericeira com fome e sal nenhum na pele. É a altura de reservar mesa no Mar das Latas Wine & Food, onde a carta de vinhos e a cozinha de mar fazem justiça a um dia bem passado. Peça a sugestão do dia e deixe-se aconselhar no vinho: é esse o espírito da casa.
E se o regresso for sem pressa, há dois desvios que valem a pena. Mafra fica a caminho e merece paragem, sobretudo para quem gosta de doçaria conventual: o nosso roteiro de doces tradicionais de Mafra dá o contexto, mesmo fora da Páscoa. E Sintra, meia hora a sul, é um mundo próprio que pede mais do que uma tarde: o guia de bairros de Sintra ajuda a escolher por onde começar sem cair nas filas dos palácios.
Agosto em Portugal não obriga a escolher entre mar frio e interior a ferver. Com a Ericeira como base, tem os dois mundos a menos de três horas um do outro: ondas de manhã, poças de granito à tarde, peixe fresco ao jantar. Poucos países cabem tão bem num só dia.