Costa Vicentina em Agosto? Fuja Para São João da Pesqueira
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Costa Vicentina em Agosto? Fuja Para São João da Pesqueira

· · São João da Pesqueira

Às 10h30 de uma manhã de agosto, a fila para estacionar em Odeceixe já dobra a esquina. As praias da Costa Vicentina continuam selvagens, o acesso é que não. Damos-lhe o roteiro para sobreviver ao sudoeste, e uma alternativa que ninguém considera: São João da Pesqueira, onde agosto é a antecâmara da vindima.

Todos os anos acontece o mesmo. Em julho, meia Lisboa jura que este ano vai ser diferente, que vai finalmente descobrir a Costa Vicentina a sério: as praias selvagens, as aldeias caiadas, os percebes comidos com os dedos ao pôr do sol. Em agosto, essa mesma meia Lisboa está parada numa fila para estacionar em Odeceixe às 10h30 da manhã, com o termómetro do carro a marcar 34 graus. As praias continuam selvagens. O acesso a elas, nem por isso.

Este artigo ia ser um roteiro clássico: Odeceixe, Zambujeira do Mar, Carrapateira, banhos gelados, jantares de peixe. E vai ser, em parte, porque a Costa Vicentina em agosto ainda vale a pena para quem souber jogar o jogo. Mas vai ser também outra coisa: uma proposta contrária. Porque enquanto o país inteiro aponta para sudoeste, há um canto do Douro, São João da Pesqueira, onde agosto é a antecâmara da vindima, as quintas têm piscina virada para os socalcos e ninguém lhe disputa a toalha. Leia até ao fim antes de meter o carro na A2.

O que agosto faz à Costa Vicentina

Comecemos pelos factos. A costa entre Porto Covo e Sagres está protegida pelo Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, o que significa que não há muros de betão à beira-mar nem resorts em cima das falésias. É por isso que continua a ser a costa mais bonita de Portugal continental. É também por isso que a capacidade de carga é limitada: aldeias pequenas, parques de estacionamento pequenos, restaurantes pequenos. Em agosto, tudo isto rebenta pelas costuras.

Junte-se a equação o festival: no início de agosto, o Sudoeste enche a zona da Zambujeira do Mar com dezenas de milhares de festivaleiros. Se a sua ideia de praia selvagem inclui silêncio, evite a primeira quinzena naquela zona ou abrace o caos de vez. Não há meio termo.

Dito isto, há regras que funcionam:

  • Chegue à praia antes das 9h ou depois das 17h. A luz das 18h na costa vicentina é, aliás, a melhor do dia.
  • Em Odeceixe, a praia tem dois lados: o mar de um lado e a foz do rio Seixe do outro. Com crianças, o lado do rio é a jogada óbvia, água mais quente e sem ondulação.
  • Na Carrapateira, escolha entre a Bordeira, enorme e ventosa, e o Amado, a praia das escolas de surf. Se quer aprender a apanhar uma onda, é no Amado; confirme preços e horários das escolas localmente.
  • O Trilho dos Pescadores da Rota Vicentina é espetacular, mas em agosto caminhe só de manhã cedo. Não há sombra nenhuma nas falésias, e isto não é uma força de expressão.
  • Percebes: come-os nesta costa ou não os come. Peça-os cozidos, simples, e não discuta o preço, que varia com o mar. É trabalho de risco e paga-se como tal.

O roteiro possível: três praias, duas aldeias

Odeceixe

A aldeia fica no cimo da encosta, a praia a três quilómetros, na foz do Seixe, mesmo na fronteira entre o Alentejo e o Algarve. O anfiteatro de falésias que abraça o areal é daquelas paisagens que justificam a fama toda. Em agosto há um pequeno comboio turístico entre a aldeia e a praia; use-o e poupe-se ao estacionamento.

Zambujeira do Mar

Uma aldeia branca pousada à beira da falésia, com a praia lá em baixo. Fora da semana do festival, recupera uma certa calma ao fim da tarde, quando as famílias sobem da praia e as esplanadas enchem. Perto dali, nas falésias da zona do Cabo Sardão, as cegonhas fazem ninho nas rochas sobre o mar, um caso raro na Europa e um bom pretexto para um desvio.

Carrapateira e Aljezur

Carrapateira é a aldeia mais crua do trio, entre duas praias gigantes. Aljezur, com o seu castelo no alto, merece a paragem pelo casario e pela batata-doce, que aqui é assunto sério, com direito a festival no outono. Em agosto, coma-a em versão doce ou frita, onde a encontrar.

A proposta contrária: troque o Atlântico pelo rio

Agora a parte em que lhe dizemos para fazer exatamente o oposto de toda a gente. Enquanto a EN120 está entupida de carrinhas com pranchas no tejadilho, o Douro vinhateiro atravessa agosto quase vazio. Sim, faz calor a sério, dias de 38 e 40 graus não são notícia. Mas o Douro em agosto joga-se de manhã e ao fim da tarde, com piscina e vinho pelo meio, e São João da Pesqueira, a autoproclamada capital do vinho do Porto, é a base perfeita para esse jogo. Fica a pouco menos de duas horas do Porto e a um mundo de distância de qualquer fila para estacionar.

Agosto é, além disso, o mês em que a região inteira prende a respiração antes da vindima. As uvas estão a acabar de amadurecer nos socalcos, as quintas afinam lagares e logística, e há uma tensão boa no ar que nenhum outro mês tem.

Onde ficar: uma quinta com mais hectares do que hóspedes

A resposta curta é Ventozelo Hotel & Quinta, em Ervedosa do Douro, no concelho de São João da Pesqueira. É uma das maiores e mais antigas quintas da região, e a escala nota-se: em vez de um hotel com jardim, tem uma propriedade inteira de vinhas, olival e trilhos para percorrer antes do pequeno-almoço, quando a temperatura ainda deixa. É o anti-agosto vicentino: espaço a mais, gente a menos. Reserve com antecedência mesmo assim, porque quem descobre isto tende a voltar.

Comer sem reservas nem espumas

Para o almoço de todos os dias, faça como os locais e sente-se no JC Snack Bar, na vila. Nada de menu de degustação nem de empratamentos com pinça: comida direta, ambiente de terra, contas que não assustam. É o tipo de casa onde o prato do dia é a melhor decisão possível, e onde se percebe rapidamente quem é de cá e quem está só de passagem. Horários e pratos variam, confirme localmente.

Vinho, obviamente, e uma sombra para a sesta

Não se vem a São João da Pesqueira sem provar o que a terra faz melhor. As provas de vinho na Quevedo são a porta de entrada certa: um produtor familiar da vila, provas descontraídas, e a possibilidade de perceber a diferença entre um tawny e um ruby explicada por quem os faz, não por um guião decorado. Em agosto, marque a prova para o fim da tarde e deixe a manhã para o rio.

Entre a prova e o jantar, dois programas. O primeiro é o miradouro de São Salvador do Mundo, com as suas capelas empoleiradas no granito sobre a garganta da Valeira, o troço do rio que era tão perigoso que teve de ser dinamitado no século XVIII e onde o barão de Forrester, o inglês que mapeou o Douro, morreu afogado em 1861. O segundo, mais pachorrento, é o Parque da Mata do Cabo, a sombra pública da vila: leve fruta, água e um livro, e faça aquilo a que agosto no interior obriga, que é não fazer nada entre as 14h e as 17h.

E se conseguir esticar até setembro

Aqui está o verdadeiro golpe de mestre deste plano: quem troca a Costa Vicentina por São João da Pesqueira em agosto está a posicionar-se para a vindima. Em setembro, pode inscrever-se na vindima na Quinta da Gricha e pisar uvas num lagar de granito com o mosto pelos joelhos, uma experiência que nenhuma praia, por mais selvagem, consegue igualar. Datas dependem da maturação das uvas, por isso confirme com antecedência.

E se este canto do Douro lhe abrir o apetite, o distrito não acaba aqui. Do outro lado do rio, as quintas de Sabrosa que ninguém conta merecem um dia inteiro, e quem planear com um ano de avanço pode apontar os Santos Populares em Sabrosa para o junho seguinte. Para a primavera, guarde Torre de Moncorvo em flor, quando a amendoeira e os jardins fazem do nordeste outra coisa completamente diferente.

Como decidir

Se o que quer é mar, vá à Costa Vicentina, mas vá com as regras acima: madrugar, fugir da semana do Sudoeste, aceitar que agosto ali se paga em paciência. Se o que quer é férias, no sentido antigo da palavra, dormir bem, comer bem, beber melhor e não ver multidões, aponte o carro ao Douro. Em São João da Pesqueira, o único engarrafamento que vai encontrar está dentro de uma garrafa. E esse, garantimos, vale a espera.

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