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São João da Pesqueira: Amendoeiras, Oliveiras e Vinho no Planalto

· · São João da Pesqueira

Toda a gente passa por São João da Pesqueira a caminho de outro sítio. Erro: a vila no planalto a 500 metros é uma das melhores bases do Douro, com amendoeiras em flor em fevereiro, quintas honestas e metade dos turistas do Pinhão.

Há uma coisa que os folhetos do Douro nunca te contam: o vinho é só metade da história. A outra metade está nas amendoeiras que floreiam em fevereiro pelas encostas de São João da Pesqueira, nas oliveiras centenárias que ninguém fotografa porque toda a gente está virada para o rio, e no azeite que se faz aqui em pequenos lagares de família e que devia estar em todas as cozinhas do país. Mas não está. Porque São João da Pesqueira, apesar de ser oficialmente a capital do concelho com mais vinha plantada do Douro, continua a ser tratada como paragem rápida entre Pinhão e Vila Nova de Foz Côa.

Erro. Grande erro.

Esta vila no planalto, a 500 metros de altitude, é um dos sítios mais interessantes para quem já fez o Douro de barco, já provou os Vintage clássicos e quer perceber o que está debaixo da camada turística. É terra de monte, de pão, de queijo de cabra e de gente que ainda fala alto na praça quando o café fica caro. É também, e isto é importante, uma das melhores bases para explorar o Douro Superior sem pagar os preços inflacionados das quintas mais conhecidas do Cima Corgo.

Porquê vir em vez de ficar no Pinhão

Vou ser direto: o Pinhão é bonito mas é caro e está sempre cheio. São João da Pesqueira fica a 20 minutos de carro pela N222 (sim, aquela estrada que a revista alemã elegeu como a melhor do mundo para conduzir, e por uma vez não estavam a exagerar), tem metade dos turistas e o dobro da personalidade.

A vila propriamente dita tem o tamanho certo: dá para percorrer a pé numa manhã. A Praça da República, com o pelourinho manuelino no meio, é onde a vida acontece. Senta-te num dos cafés de manhã, peço-te, e ouve. Vais perceber em meia hora porque é que esta região vota como vota, come o que come e bebe o que bebe. O sotaque transmontano-duriense é uma coisa séria, e aqui ouve-se sem filtros.

O melhor momento para chegar? Final de fevereiro, início de março, quando as amendoeiras estão em flor e o planalto fica cor-de-rosa pálido. Ou setembro, claro, na vindima, quando o cheiro do mosto se cola à roupa e às memórias. Agosto também funciona, mas leva chapéu: a temperatura passa facilmente os 38 graus e o sol no planalto não perdoa.

Onde dormir (e a opção óbvia é mesmo a melhor)

Já estive em várias quintas do Douro e a maioria sofre do mesmo problema: ou são caras demais para o que oferecem, ou são lindas mas estão no fundo de um vale onde o telemóvel não apanha e o jantar acaba às nove. A Quinta de Ventozelo, com o seu hotel rural a meio caminho entre Ervedosa do Douro e o rio, faz as duas coisas bem. É uma quinta histórica, dos vinhos Cockburn, com 400 hectares e edifícios agrícolas restaurados com sentido. Os quartos estão divididos por casas (a Casa do Lavrador, a Casa do Forno, a Casa do Tanoeiro) e o restaurante, o Cardenha, faz cozinha duriense decente sem cair no esnobismo das adegas finas.

O segredo aqui é pedir um quarto virado para sul, beber o Reserva da casa ao pôr do sol no terraço, e jantar no segundo dia o cabrito assado. Confirma no momento da reserva se o cabrito está na ementa, porque rodam o menu por estação.

Verdes, sombras e o sítio onde os locais vão

Há um problema crónico do Douro: muita pedra, pouca sombra. Quando chega o calor de julho e agosto, os turistas começam a procurar desesperadamente onde se esconder do sol entre as 13h e as 17h, e acabam metidos em adegas com ar condicionado a provar vinhos que já não conseguem distinguir.

A solução fica à porta da vila. O Parque da Mata do Cabo é um pulmão verde que poucos visitantes conhecem, com pinheiros adultos, mesas de merenda, percursos pedestres e uma temperatura sempre cinco graus abaixo do resto da vila. Leva uma garrafa de água, um livro, e meio queijo de cabra da região com pão de Favaios. Almoço resolvido por menos de dez euros. Há famílias inteiras que passam ali os domingos de verão, e ninguém vai dizer mal de quem se junta. Pelo contrário: provavelmente vão oferecer-te um cálice de moscatel antes de saíres.

Se andas com cães, é dos melhores sítios da região para passear sem trela apertada. Se vens com crianças, há espaço para correr e árvores para trepar. Coisas básicas, mas raras no Douro.

O assunto sério: provas de vinho sem turismo

Em São João da Pesqueira concentram-se algumas das quintas mais importantes do Douro, e o problema é que muitas se transformaram em parques temáticos enológicos com bilhetes a 80 euros por cabeça. Há alternativas mais honestas.

A primeira é fazeres uma prova comparada entre a Quinta do Pessegueiro e a Quinta do Crasto, duas filosofias diferentes de fazer vinho no mesmo concelho. Pessegueiro joga a carta do terroir e da elegância, com vinhos mais frescos e estruturados; Crasto vai pela força e pela complexidade dos Vinhas Velhas. Provar lado a lado é a melhor aula de Douro que podes ter num dia, e percebes finalmente o que significa "socalcos pré-filoxera" para além da etiqueta romântica.

Se andas por aqui em setembro ou início de outubro, há uma coisa que não devias perder, e que vou recomendar até ficar rouco: pisar uvas em lagar de granito na Quinta da Gricha, à maneira antiga. Sim, é turístico. Sim, está em todos os roteiros. Mas há uma razão para isso: é genuinamente uma das experiências mais divertidas que se podem ter no Douro, especialmente ao fim do dia, com música, vinho a circular e estranhos a tornarem-se amigos com os pés cor de mosto. Leva calções e calçado fácil de tirar. Não leves nada branco.

Comer: o que é local e o que é teatro

A vila tem uma meia dúzia de restaurantes e tascos. Não vou inventar nomes nem inventar pratos: digo-te o que pedires onde quer que vás, e raramente vais cair mal.

  • Posta de vitela maronesa: a raça é da serra a norte, mas chega a estes restaurantes e é difícil estragar. Mal passada, com sal grosso e um fio de azeite local.
  • Cabrito assado no forno a lenha: aos fins de semana, sobretudo na Páscoa e nas vindimas. Pergunta na véspera, porque costuma estar reservado.
  • Bola de carne ou folar: enchimentos dentro de pão. Lanche perfeito para levar num percurso pedestre.
  • Queijo de cabra transmontano: cura de meses, casca lavada. Come com mel da região e nozes.
  • Bolos de amêndoa: para perceberes porque é que a amêndoa importa tanto neste planalto.

Para beber: vinho da casa, quase sempre da região, quase sempre bom. Se quiseres jogar pelo seguro, pede um tinto Reserva de qualquer produtor de São João da Pesqueira. Se quiseres ser educado com o empregado, pergunta o que ele bebe ao jantar. Recebes uma resposta honesta.

Café? O da praça serve. Não procures a especialidade da casa nem o flat white. Estás no Douro, não em Lisboa.

Miradouros que valem o desvio

O concelho de São João da Pesqueira tem dois miradouros que toda a gente do Douro recomenda e por boas razões. O São Salvador do Mundo, com o seu santuário no alto e a vista vertiginosa sobre a curva do rio na barragem da Valeira, é dos mais espectaculares do país. Vai ao fim da tarde, quando o sol bate de lado nas vinhas, e leva uma jaqueta porque o vento naquele penhasco é constante.

O outro, menos conhecido, é o Miradouro do Sabordela, mais ao centro do concelho, com vistas para o planalto agrícola em vez do rio. É aqui que percebes o que esta terra realmente é: uma altíssima esplanada agrícola, mais parecida com a Mancha do que com a Toscana, salpicada de amendoeiras e oliveiras, e só perto da orla é que cai abruptamente para a vinha do Douro. Os fotógrafos vão sempre ao primeiro. Vai aos dois.

Estender a viagem: o triângulo profundo do Douro

Se vais ficar três ou quatro dias, e devias, faz desta vila a tua base e explora o triângulo Pesqueira-Sabrosa-Torre de Moncorvo. Cada uma tem uma personalidade diferente e juntas dão-te o retrato completo do Douro real, longe dos cruzeiros e dos autocarros.

Sabrosa, do outro lado do rio, é terra de Magalhães (sim, aquele) e de algumas das melhores quintas familiares da região. Tem um circuito de quintas pouco mediáticas que vale a pena fazer com calma e sem GPS confuso. Se calhares por lá em junho, há uma coisa que muda completamente a experiência: as festas dos Santos Populares em Sabrosa são uma das melhores do interior norte, com fogueiras, manjericos, sardinhas e bandas filarmónicas em modo competição. Nada de cordões de cidade. É a versão profunda da festa.

Torre de Moncorvo, a sudeste, é o reino absoluto da amêndoa, com a maior mancha de amendoal de Portugal e festivais dedicados à flor em fevereiro/março. Para quem gosta de natureza, há um conjunto de jardins e parques que ficam particularmente bonitos na primavera, e que merecem um dia inteiro de exploração lenta.

Como chegar e o que custa

De carro, é a única forma honesta. De Lisboa são quatro horas pela A1 e A24; do Porto, duas horas pela A4. O combóio do Douro vai até ao Pocinho mas o serviço é limitado e depois precisas de transporte para subir ao planalto, o que não é prático.

Estacionamento na vila é gratuito e fácil fora dos dias de mercado (segundas-feiras). Combustível: enche no Pinhão ou em Vila Real, porque no planalto os preços tendem a ser ligeiramente mais altos.

Orçamento médio por dia, em dupla, em época normal: 80 a 120 euros em alojamento de quinta, 50 a 70 em refeições, 30 a 50 em provas e atividades. Total razoável: 200 euros por dia para um casal que coma e beba bem sem extravagâncias. Em agosto, multiplica por 1,3.

O que NÃO fazer

Não venhas para um dia. Sério, não vale a pena: vais conduzir mais do que vais ver, e a parte boa desta região é o ritmo lento. Mínimo dois dias, ideal três.

Não venhas só pelo vinho. Esse é o erro de toda a gente. Vem pelo conjunto: vinho, sim, mas também azeite, amêndoa, queijo, pão, paisagem agrícola e tempo parado. Se só queres provar Porto Vintage, fica no Vila Nova de Gaia e poupa a gasolina.

Não tentes fazer tudo. Escolhe duas quintas, um miradouro, um restaurante, um piquenique. Deixa o resto para a próxima. O Douro premeia quem volta.

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