Caldas da Rainha à Mesa: Pratos Regionais e Onde Encontrá-los
Da bola de Berlim com gemas a mais ao pé-de-burrinho apanhado à mão na Lagoa de Óbidos: um roteiro honesto pela mesa de Caldas da Rainha, com preços, tascas e a regra de ouro do arroz malandro.
Há uma coisa que ninguém vos diz sobre Caldas da Rainha: a cidade come bem antes das nove da manhã. Enquanto os turistas ainda dormem em Óbidos, a 15 minutos dali, o Mercado da Praça da República já está num burburinho civilizado, com peixe fresco da Foz do Arelho a chegar em caixas de esferovite e legumes do oeste que parecem ter vindo direitos de uma natureza-morta do século XIX. É aqui, neste mercado coberto de ferro forjado, projetado no século passado e ainda em atividade diária, que se começa qualquer conversa séria sobre a cozinha das Caldas.
Esta não é uma cidade de cozinha espetáculo. Ninguém vai a Caldas da Rainha para comer estrelas Michelin. Vai-se por outra razão: porque a região do Oeste é uma das despensas mais subestimadas de Portugal e porque os pratos daqui, do lavagante ao caldo de peixe, foram construídos por gente que vive entre a Lagoa de Óbidos, o Atlântico e a horta. O resultado é uma cozinha sem complexos, com manteiga a mais para os puristas e sal q.b. para o resto de nós.
O peixe e os bivalves: começar pelo óbvio
Há três coisas que se comem na Foz do Arelho e em Salir do Porto que não se comem em mais lado nenhum com a mesma honestidade: caldeirada, arroz de marisco e ameijoas. Não é exagero. A Lagoa de Óbidos é, na prática, um viveiro natural, e os pescadores locais ainda apanham ameijoa à mão, com a água pelo joelho, exatamente como faziam os avós. O sabor é diferente do que se compra congelado, mais salgado, mais a maresia, com uma textura que se desfaz na língua sem ser pastosa.
O meu conselho prático: vão à Foz do Arelho a um dia de semana, fora da época alta, e procurem um restaurante junto à praia onde se vejam carrinhas de pescadores estacionadas à porta. Não vou inventar nomes de casas que possam fechar amanhã, mas a regra é simples: lista pequena, manuscrita, com peixe do dia. Se a ementa tiver pizza, fugir. Um arroz de marisco para dois deve andar pelos 35 a 45 euros, dependendo de quanto lavagante traz, e vem sempre malandro, nunca seco. Isto é importante: arroz seco em Caldas é heresia.
Antes ou depois do almoço, vale a pena subir até ao Miradouro da Foz do Arelho, sobretudo se o vento estiver de feição. A vista sobre a barra, onde a lagoa encontra o oceano, é o tipo de coisa que se vê uma vez e se passa a citar em conversas. Do lado oposto da lagoa, o Miradouro de Salir do Porto oferece a outra metade do quadro: a duna gigante que parece ter sido emprestada do Saara por engano administrativo, e que, há quem diga, é a maior da Europa.
A caldeirada que vale a viagem
A caldeirada de peixe das Caldas não é a do Algarve. Não tem o doce do pimento maduro nem o açafrão. Tem cebola estufada longamente, batata cortada à navalha, tomate, vinho branco do Oeste (provavelmente da casta Fernão Pires) e três ou quatro espécies de peixe consoante o dia. Tamboril, raia, safio, robalo: é uma cozinha de aproveitamento inteligente, e é isso que a torna boa. Quando comerem uma caldeirada destas, e me perdoem o conselho de bar de aldeia, peçam pão alentejano para molhar. Não há discussão possível.
A horta do Oeste e os pratos de carne
Aqui o assunto complica-se um pouco. Caldas da Rainha não é uma cidade de carne, mas, à volta dela, especialmente na direção do Cadaval e do Bombarral, a tradição é forte. O prato mais sério é o cabrito assado no forno, regado com vinho da região e acompanhado por batata a murro e grelos. É um prato de domingo, de festa, e raramente está disponível em pequenas quantidades. Se virem cabrito numa ementa, é porque alguém assou um animal inteiro nessa manhã. Encomendem sem hesitar.
Outro clássico, mais quotidiano, é a sopa da pedra de Almeirim, que não é tecnicamente de Caldas mas escorre pela região com naturalidade. E depois há a versão local da sopa de feijão com couve, simples, com chouriço e um fio de azeite virgem do Oeste por cima. Pedida com pão caseiro, é um almoço completo por menos de 8 euros em qualquer tasca que se preze.
Para quem queira combinar a mesa com algum exercício, sugiro um aperitivo de manhã, almoço a meio, e uma caminhada de tarde. Os trilhos da primavera nas Caldas são curtos, planos e atravessam pinhal e horta. Dá para queimar o que se comeu e voltar com fome para o jantar, que é, em última análise, o objetivo de qualquer viagem honesta.
A bola de Berlim de Caldas: a única que importa
Se há um doce que os locais defendem com a paciência de um sommelier explicando uma colheita má, é a bola de Berlim. A das Caldas é uma bola de Berlim séria: a massa é mais densa que a da praia (que é, sejamos honestos, uma esponja), o creme amarelo é feito com gemas a mais e baunilha a sério, e o açúcar polvilhado por cima é grosso. Comam-na de manhã, com uma bica curta, num dos cafés do centro histórico, na Praça da República ou nas ruas adjacentes.
Os outros doces locais que merecem uma viagem: as cavacas das Caldas (estaladiças, com glacê branco que estala ao morder), as trouxas-de-ovos, e os pasteis de feijão, ainda que estes últimos sejam mais associados a Torres Vedras. Todos partilham uma característica: gema a mais, açúcar a mais, e uma honestidade total quanto a essa indecência.
O lampreia, o sável e o que se come consoante a estação
A região oeste tem um calendário gastronómico marcado. Em janeiro e fevereiro, há quem ainda cozinhe lampreia à moda do Oeste, embora seja mais tradição do Minho. Na primavera, sável grelhado nas brasas, regado com limão e azeite. No verão, é tudo peixe e marisco. No outono, vêm os cogumelos do pinhal, as castanhas, e o início da época do cabrito. Se vão visitar as Caldas em maio, façam-no devagar e combinem a viagem com a peregrinação de Fátima a 13 de maio, que fica a uma hora de carro e marca o pulso religioso da região centro.
Onde comer: a lógica das tascas
Caldas da Rainha tem três tipos de restaurante e é importante saber distingui-los. Há a tasca, que abre ao almoço, fecha a meio da tarde, e tem ementa do dia escrita à mão num quadro de ardósia. Aqui paga-se entre 8 e 12 euros por uma refeição completa, com sopa, prato, sobremesa e café. É aqui que se come a sério.
Depois há o restaurante de praia, na Foz do Arelho e em Salir do Porto, que sobe de preço no verão mas continua a ser razoável fora de época. Esperem pagar 20 a 30 euros por pessoa, com vinho. Por fim, há os restaurantes do centro histórico, mais virados para os fins-de-semana e para quem vem de Lisboa, com cozinha contemporânea e preços de 35 a 50 euros por pessoa. São bons, alguns muito bons, mas raramente cozinham melhor do que as tascas. Cozinham diferente.
Uma dica que vale por dez: peçam sempre o vinho da casa antes de pedirem um vinho da carta. Os vinhos do Oeste, especialmente os tintos jovens da Castelão e os brancos da Fernão Pires e Arinto, são surpreendentes pela relação qualidade-preço. Um jarro de meio litro raramente passa dos 6 euros e acompanha quase tudo.
O mercado, mais uma vez
Voltemos ao princípio: o Mercado da Praça da República, o ex-líbris da cidade, em ferro forjado, projetado no fim do século XIX e ainda em atividade todos os dias. Mesmo que não tenham cozinha onde possam preparar nada, vão lá pela manhã, comprem um pacote de cavacas, um pão grande, queijo fresco da região e cerejas (se for estação, que vai do fim de abril a junho), e façam um piquenique. Quem disse que comer bem tem de ser num restaurante?
A meio da manhã, depois do mercado, faz sentido aproveitar para conhecer o lado cultural da cidade. Caldas é, sem fanfarra, uma das cidades portuguesas com mais museus por metro quadrado, e a maratona de museus pela cidade é uma forma honesta de combinar arte com almoço. O Museu Bordalo Pinheiro e a casa-museu de José Malhoa estão a poucos minutos a pé um do outro.
A questão do bivalve: ameijoa, pé-de-burrinho e mexilhão
Já falámos da ameijoa, mas há mais. O pé-de-burrinho (que é um molusco bivalve local, cuja casca lembra mesmo um pequeno pé de burro) é uma raridade fora da região da Lagoa de Óbidos. Servido cozido com uma vinagreta simples de azeite, vinagre, cebola roxa e coentros, é uma entrada que se aprende a apreciar à segunda dentada. Os mexilhões da costa atlântica próxima são maiores e mais carnudos que os do sul, e funcionam particularmente bem à bulhão pato, com alho, coentros e vinho branco.
Se quiserem combinar a refeição com uma experiência ao ar livre, recomendo a observação de aves na Lagoa de Óbidos, idealmente ao fim da tarde, quando a luz é menos dura e os flamingos rosados (sim, há flamingos) e as garças vêm pescar mais perto da margem. É uma forma de perceber que aquela lagoa não é só uma despensa para humanos. Continua a ser, antes de tudo, um ecossistema vivo.
Como chegar e onde dormir
De Lisboa, Caldas da Rainha está a cerca de uma hora pela A8. De comboio, a linha do Oeste leva cerca de duas horas, com partidas a partir de Sete Rios. De Coimbra, é uma viagem confortável de 90 minutos, e quem vier dessa direção pode combinar a ida com uma passagem por outra das festas da região centro, como a Queima das Fitas em maio.
Para dormir, a oferta divide-se entre o centro da cidade (boutiques pequenos, alguns em edifícios pombalinos restaurados) e a Foz do Arelho (hotéis de praia, mais sazonais). Para uma noite ou duas, prefiro o centro: dorme-se melhor, anda-se a pé a tudo, e o pequeno-almoço é mais sério.
Um último conselho, antes de subir para o miradouro com a barriga cheia: passem pelo Miradouro de Santa Catarina ao pôr do sol. Não é o miradouro mais bonito da região, mas é o mais discreto e o mais ventilado. Em julho, com calor a mais e turistas a mais em Óbidos, é onde os locais vão ler o jornal e fingir que ainda têm hora marcada para algum sítio. Levem uma garrafa de vinho do Oeste e mais nada. A cidade fica mais bonita vista de longe e com vinho na mão. Como quase tudo, aliás.