Caldas da Rainha à Chuva: Onde Refugiar-se Sem Tédio
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Caldas da Rainha à Chuva: Onde Refugiar-se Sem Tédio

· · Caldas da Rainha

Em Caldas da Rainha, um dia de chuva é uma desculpa para finalmente perceber a cidade. Da sala do Fado no Museu Malhoa à regra do pastel-rei contra o pastel de feijão, eis o roteiro que substitui a praia por algo melhor.

Há um momento muito específico em Caldas da Rainha que acontece sempre que o céu se fecha. São oito e meia da manhã, a chuva começa a bater nos toldos do mercado da fruta na Praça da República, e os turistas que tinham programado um dia de praia na Foz do Arelho ficam parados a olhar para o telemóvel como se ele tivesse a resposta. Não tem. A resposta está aqui, neste guia, e começa por uma verdade impopular: dias de chuva em Caldas da Rainha podem ser melhores do que dias de sol.

Digo isto sem ironia. A cidade foi construída à volta de um hospital termal do século XV. As suas melhores criaturas, da cerâmica de Bordalo Pinheiro aos pastéis de feijão, nasceram dentro de portas. O sol em Caldas é uma desculpa para fugir para a lagoa; a chuva é a desculpa para finalmente perceber a cidade.

A regra das três horas

Antes de avançarmos, uma regra prática que aprendi à custa de tardes mal planeadas: nunca dedique mais de três horas a um único interior em Caldas. A escala da cidade não o justifica, e o prazer está em saltitar entre cafés, museus e ateliers. Programe blocos de duas a três horas, separados por paragens curtas para café (€0,80 a €1,20, nunca mais do que isso, e desconfie se for) e os dias mais cinzentos transformam-se rapidamente.

Outra coisa: traga calçado fechado, não impermeável caro. Caldas tem calçada portuguesa molhada, que é traiçoeira para qualquer sola de borracha. As ruas mais escorregadias são a Rua de Camões e a descida da Rua das Montras, sobretudo em frente às montras de doçaria, onde o pavimento brilha mais do que os bolos.

Começar pelo Museu José Malhoa (e fazê-lo bem)

O Museu José Malhoa, no Parque D. Carlos I, é o ponto de partida óbvio. Está dentro do parque, o que significa que vai apanhar chuva entre o portão e a porta, e isso é parte do ritual. Não corra. O parque sob chuva, com os patos a desfilar nos canais e os ciprestes a pingar, é metade da experiência.

Lá dentro, ignore o instinto de tentar ver tudo. Vá direto à sala dos naturalistas portugueses do fim do século XIX. "O Fado" é a peça central, e merece os quinze minutos que vão tentar tirar-lhe com os auscultadores. Em vez de áudio-guia, sente-se no banco em frente e observe os pés dos personagens. Está tudo ali. O resto do museu, escultura de Leopoldo de Almeida, cerâmica caldense, vê-se em quarenta minutos.

Se quiser fazer isto a sério, o ideal é integrar esta visita numa maratona de museus em Caldas da Rainha que liga o Malhoa ao Museu da Cerâmica e à Casa-Museu de São Rafael. É um dia inteiro, mas é exatamente o dia inteiro que a chuva pede.

A Casa-Museu de São Rafael: a parte que ninguém visita

Esta é a minha opinião impopular do dia: a Casa-Museu de São Rafael é melhor do que o Museu da Cerâmica. Sei que vou ofender alguém. Mas a coleção de Bordalo Pinheiro instalada no antigo solar, com as salas montadas como se a família ainda lá vivesse, faz mais sentido para perceber a estética caldense do que vitrines higienizadas.

Vá às salas do andar superior. O conjunto de pratos com sardinhas, alfaces e gatos amuados é um curso acelerado em humor português. Bordalo, sublinho, era um humorista político antes de ser ceramista, e isso é evidente em cada peça. Saia depois pelo jardim coberto, se a chuva permitir, e tome nota da estufa partida nas traseiras: alguém devia tê-la restaurado há vinte anos, ninguém fez.

Pausa: onde almoçar quando está a cair água

Almoço é a parte em que a maioria dos guias falha. Vou ser direto. Em dia de chuva, evite os restaurantes da Praça da Fruta com esplanadas. Eles vivem da esplanada e o serviço lá dentro, em dia chuvoso e cheio, desmorona.

A regra que sigo: procure casas de comida tradicional sem ambição decorativa. Sopa, prato do dia, pão. Em Caldas, isto custa entre €8 e €12, vinho da casa incluído ou pelo menos não exorbitante. Peça caldo verde se estiver na carta, sempre, e peça-o como entrada antes de qualquer prato de peixe. Se houver cabrito ou ensopado de borrego, prefira o ensopado: é mais difícil de fazer mal.

Para sobremesa, há um detalhe que se aprende em Caldas: o pastel de feijão não é o pastel-rei. O pastel-rei é uma criação local, denso, à base de doce de gila e amêndoa, com uma cobertura de chila. Peça um pastel-rei e um pastel de feijão, compare, e prepare-se para nunca mais querer o de feijão. Custam menos de €2 cada num pastelaria honesta da Rua das Montras.

O Mercado da Praça e o jogo dos vasos

O Mercado da Praça da Fruta funciona de manhã, e em dia de chuva esvazia mais cedo. Vá entre as 9h e as 11h. Tem um cobertura metálica que protege razoavelmente, e as bancadas de cerâmica, sobretudo as de imitação bordaliana, são onde se faz o melhor regateio de Caldas.

O jogo é simples: o preço marcado nunca é o preço final. Um vaso pequeno marcado a €15 sai por €10 se comprar dois. Não estou a sugerir desrespeito; estou a descrever uma prática consolidada. Os vendedores esperam o regateio; quem paga o preço marcado é normalmente um turista estrangeiro, e os vendedores sabem perfeitamente isso.

Dito isto, distinga o que é cerâmica produzida em série em Alcobaça do que é cerâmica caldense autêntica. As pistas: peso (a verdadeira é pesada), brilho do vidrado (a verdadeira tem irregularidades), e preço (uma sardinha bordaliana legítima nunca custa menos de €25; tudo abaixo disso é decoração para casa de praia).

A tarde: cafés que valem a chuva

Os cafés históricos de Caldas dividem-se em duas categorias. Os que servem bons bolos e mau café, e os que servem bom café e bolos comerciais. Não conheço nenhum que faça as duas coisas bem, e desconfio de quem disser o contrário.

O meu método: tomo o café num sítio e o bolo no outro, e atravesso a rua entre eles. Em Caldas isto é literalmente possível. As principais pastelarias estão a menos de cem metros umas das outras na zona da Rua das Montras e Rua de Camões.

Se a tarde for muito longa, há uma alternativa subestimada: levar um livro para o foyer do Centro Cultural e Congressos. Tem sofás, tem aquecimento, tem casa de banho limpa, e ninguém se importa que fique lá uma hora sem consumir nada. É o segredo mal guardado de quem trabalha em Caldas e precisa de um sítio quente entre reuniões.

Quando a chuva abranda: o intervalo dos miradouros

A chuva em Caldas raramente é constante. Há quase sempre janelas de quarenta minutos de céu cinzento mas sem precipitação, e essas janelas têm de ser aproveitadas. Não para passear na cidade, que continua molhada, mas para subir aos miradouros, que ficam mais espectaculares com nuvens baixas.

O melhor para este efeito é o Miradouro de Santa Catarina, que olha sobre a cidade. Em dias secos é apenas bonito; em dias de chuva, com a neblina a subir do parque, parece outra coisa. Está a menos de dez minutos do centro de carro.

Se tiver tempo e o céu der uma trégua maior, vá até ao Miradouro da Foz do Arelho sobre a lagoa de Óbidos. A vista da lagoa sob chuva é uma das melhores coisas que se podem ver no centro de Portugal, e há sempre meia dúzia de aves a mover-se. A propósito, se for um observador de aves sério, há um guia completo de observação de aves na lagoa de Óbidos que vale a leitura antes da visita.

O terceiro miradouro, o Miradouro de Salir do Porto, é o menos visitado e tem a duna gigante por baixo. Em dia de chuva esquecem-no completamente, o que significa que vai estar sozinho. Eu prefiro-o assim.

Atelieres abertos e o que ninguém vos diz

Caldas tem uma escola de artes, a ESAD, e isso significa que há ateliers de cerâmica espalhados pela cidade. Muitos recebem visitas, mas é preciso saber quais. A regra que adoptei: se o atelier tem montra organizada para turistas, é loja; se tem porta entreaberta com sacos de barro à entrada, é atelier verdadeiro.

Pergunte na recepção do Museu da Cerâmica que ateliers estão a receber visitas naquela semana. A informação muda, os artistas viajam, mas há sempre dois ou três disponíveis. Uma visita guiada por um ceramista custa entre €5 e €10 por pessoa, dura cerca de uma hora, e é a coisa mais valiosa que se faz em Caldas. Mais valiosa que qualquer museu.

Para o resto do dia: livrarias, capelas, e o cinema

Sobra ainda algum tempo. Três sugestões:

  • A capela do Senhor dos Passos, no centro, está quase sempre aberta. Não é arquitetonicamente notável, mas tem um silêncio que limpa a cabeça depois de uma manhã de cerâmica e cor. Cinco minutos lá dentro chegam.
  • A livraria do Centro Cultural tem secção de literatura portuguesa decente. Procure autores ligados a Caldas e à Estremadura. Se nunca leu Raul Brandão, leve "Os Pescadores"; é o livro certo para um dia de chuva no centro de Portugal.
  • O cinema do Centro Cultural passa filmes em ciclos. Verifique a programação à entrada. Bilhete na ordem dos €4 a €5, mais barato do que um café em Lisboa.

Se a chuva durar mais do que um dia

Acontece. Em Caldas, dois dias seguidos de chuva são uma desculpa para sair da cidade e fazer excursões cobertas. Há três opções, todas a menos de uma hora de distância.

Uma é Coimbra, e se calhar com a Queima das Fitas em curso a chuva já não interessa porque o programa muda completamente. A segunda é Fátima, que em dia de chuva fica menos turística e mais reflexiva; quem leva isto a sério pode consultar o guia honesto da peregrinação de 13 de Maio. A terceira é ficar mesmo e fazer caminhadas curtas em redor, que mostro num guia de trilhos para a primavera em Caldas, e que funcionam surpreendentemente bem mesmo com bota de borracha e capa.

O fim do dia: a melhor parte

O que sempre digo aos amigos que me visitam em dias de chuva em Caldas é isto: a melhor parte é o fim do dia. Por volta das seis da tarde, com a luz a baixar e as ruas a brilhar, há um café aberto, há fado a tocar num bar pequeno na Rua Almirante Cândido dos Reis, e há pessoas a sair do trabalho e a ocupar os balcões.

Sente-se. Peça uma cerveja imperial, €1,20 se for honesto, €1,50 se não for. Veja a chuva pelo vidro. Em Caldas da Rainha, isto é o que se faz num dia mau. E é, suspeito, o que se devia fazer em qualquer dia.

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