Maratona de Museus em Caldas da Rainha: Um Roteiro Intenso
Caldas da Rainha é a única cidade onde pode visitar nove museus num único dia a pé. De cerâmicas irreverentes a mestre do naturalismo, este roteiro revela o coração artístico de Portugal.
A Cidade dos Museus que Muitos Ignoram
Caldas da Rainha é muito mais do que louça de Bordallo e cavacas. Para quem gosta de arte e história, a cidade é uma anomalia estatística: num raio de poucos quilómetros, encontramos nove museus e espaços culturais de primeira linha. Se quer fazer uma verdadeira maratona de museus, este é o único sítio em Portugal onde o pode fazer sem precisar de carro ou de grandes deslocações. Mas atenção: não tente fazer isto a uma segunda-feira, a não ser que queira ver apenas portas fechadas. O segredo para sobreviver a este roteiro é começar cedo, precisamente no local onde a cidade nasceu.
O Ponto de Partida: Água e História
A maratona começa obrigatoriamente no Museu do Hospital e das Caldas. Situado no Largo Rainha Dona Leonor, este espaço explica por que razão a cidade existe. Foi aqui que, em 1485, a Rainha D. Leonor fundou o primeiro hospital termal do mundo. O museu guarda peças que vão desde instrumentos cirúrgicos antigos a documentos reais, mas a verdadeira pérola é a visita guiada ao interior do hospital, onde ainda se pode ver a Piscina da Rainha. É uma experiência claustrofóbica e fascinante ao mesmo tempo. Aproveite para espreitar a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, logo ao lado, com os seus azulejos seiscentistas que são, eles próprios, um museu a céu aberto.
Depois da dose de história termal, atravesse a rua para a Praça da Fruta. Não é um museu oficial, mas é o museu vivo da cidade. É o único mercado diário ao ar livre em Portugal que se mantém desde o século XV. É o sítio ideal para comprar uma saca de fruta para aguentar as próximas horas de caminhada. Se precisar de um guia para não se perder na história, a Go Caldas oferece visitas guiadas que dão o contexto necessário para entender por que razão as Caldas se tornaram este pólo artístico. O Sérgio Oliveira, que lidera este projeto, conhece cada canto da cidade e é a pessoa ideal para o ajudar a navegar pela lógica irreverente da cidade da cerâmica de Bordallo.
A Trindade das Artes no Parque
Siga para o Parque D. Carlos I, o pulmão romântico da cidade. É aqui que se encontra o Museu José Malhoa. Esqueça as reproduções que vê nos livros; ver "Os Bêbados" ao vivo é uma experiência diferente. O Malhoa foi o mestre do Naturalismo português e este museu, o primeiro edifício construído de raiz em Portugal para ser um museu, faz justiça ao seu legado. A luz que entra pelas janelas sobre as telas é magnífica, mas o meu conselho é que não se perca apenas nos quadros principais. Explore as salas dedicadas à escultura; há peças de Francisco Franco e de Diogo de Macedo que muitas vezes passam despercebidas.
A poucos minutos a pé, saindo do parque, chegamos ao Museu da Cerâmica. Instalado no Palacete do Visconde de Sacavém, o museu é uma viagem pela evolução da faiança caldense. Das peças rústicas de Maria dos Cacos ao virtuosismo de Manuel Mafra e, claro, à genialidade de Rafael Bordalo Pinheiro. O jardim do palacete é um bónus: está decorado com esculturas cerâmicas e azulejos que tornam o passeio inesquecível. Se o tempo estiver bom, sente-se no jardim uns minutos antes de seguir para a próxima etapa. É um dos segredos mais bem guardados da cidade.
O Coração da Maratona: Centro de Artes
Aqui é onde a maratona se torna séria. O Centro de Artes das Caldas da Rainha é um complexo que abriga, na verdade, quatro museus num só: o Museu Barata Feyo, o Museu Leopoldo de Almeida, o Atelier-Museu António Duarte e o Atelier-Museu João Fragoso. Se gosta de escultura contemporânea e moderna, este é o seu paraíso. É um espaço monumental onde se percebe a escala da produção artística local. Muitos visitantes saltam esta parte por ficar ligeiramente fora do circuito mais turístico do parque, mas é um erro crasso. A densidade de obras de qualidade aqui é avassaladora.
Para fechar o circuito, se ainda tiver pernas, visite o Museu do Ciclismo. Pode parecer um tema aleatório, mas as Caldas têm uma tradição fortíssima nesta modalidade. É um museu pequeno, mas muito bem curado, que conta a história das bicicletas em Portugal. É a forma perfeita de terminar a parte "física" da maratona antes de se sentar para um descanso merecido.
Dicas Práticas de Especialista
- O Passaporte: Vá ao Posto de Turismo e peça o "Passaporte de Museus". É um livrinho onde pode carimbar as visitas a cada espaço. Em alguns anos, o passaporte completo dá direito a pequenos brindes ou descontos em lojas locais.
- Logística: Caldas da Rainha é perfeitamente acessível de comboio a partir de Lisboa (Linha do Oeste) ou de autocarro (Rede Expressos). Uma vez na cidade, tudo se faz a pé.
- Onde Recuperar: Depois de visitar tantos museus, o sítio certo para terminar o dia é o Restaurante Maratona, na Praça 25 de Abril. O nome não podia ser mais apropriado. Peça um petisco e uma bebida fresca para celebrar a conclusão do roteiro.
- Arredores: Se tiver mais um dia na região, não deixe de visitar o Miradouro da Foz do Arelho para lavar as vistas depois de tanta arte em espaços fechados. Para uma perspetiva diferente da lagoa, o Miradouro de Salir do Porto e o Miradouro de Santa Catarina são paragens obrigatórias.