Pintar Cerâmica em Caldas da Rainha: o Mundo Bordallo Pinheiro
A Fábrica Bordallo Pinheiro tem loja, outlet e visitas guiadas por marcação (telefone +351 262 839 380), mas não consegui confirmar uma sessão pública de pintura livre lá dentro. Para pintar mesmo a tua peça, os ateliers da cidade são a opção real. Eis o que existe e o que confirmar antes de pagar.
Antes de qualquer coisa, sejamos honestos, porque é isso que faz diferença quando alguém vem de longe só para pintar uma peça de faiança. Procurei, liguei mentalmente todos os pontos e confirmei o que existe de facto: a Fábrica Bordallo Pinheiro, em Caldas da Rainha, tem loja, outlet e visitas guiadas por marcação. O que eu não consegui confirmar é uma atividade aberta ao público em que qualquer visitante entra, paga um bilhete e se senta a pintar a sua própria peça dentro da fábrica. Se alguém vos prometeu isso com preço fechado e link de reserva, peçam para confirmar diretamente com o operador antes de pagar.
Dito isto, a vontade de pintar cerâmica nesta cidade faz todo o sentido, e há formas reais de o fazer. Vou explicar o que vale a pena na própria fábrica e onde se pinta de facto, com as mãos sujas de tinta.
A Fábrica Bordallo Pinheiro: o que existe mesmo
A fábrica fica na Rua Rafael Bordalo Pinheiro, 53, em frente ao Parque D. Carlos I, no centro de Caldas. Não é um museu encenado para turistas: é uma unidade que continua a produzir, com técnicas antigas, as andorinhas, as sardinhas, as couves e as travessas que reconhecem em meia Europa. A loja divide-se em dois pisos. No rés do chão estão as linhas atuais; no primeiro andar está o outlet, com peças mais baratas, muitas com pequenos defeitos que só um inspetor obsessivo notaria.
O meu conselho prático: subam primeiro ao outlet. É lá que se faz negócio, e é lá que se percebe a lógica da casa, esse humor a meio caminho entre o naturalismo e a sátira que explico melhor no guia sobre a lógica irreverente da cidade da cerâmica de Bordallo. Uma couve grande custa o que custa em qualquer loja; no outlet, com sorte, sai por bastante menos.
Visitas guiadas: por marcação, em grupo
A fábrica faz visitas guiadas, mas com regras. Pelo que apurei, é necessária marcação prévia e costuma exigir-se um grupo com um mínimo de pessoas, qualquer coisa como quatro. Não é o tipo de coisa em que se aparece à porta às três da tarde e se entra. O contacto que encontrei publicado é o telefone +351 262 839 380. Liguem, expliquem quantos são e que datas têm, e confirmem condições e eventual custo, porque preços não os encontrei publicados e não os vou inventar.
Vale a pena? Se gostam de ver coisas a serem feitas, sim. A modelação e a pintura à mão são o coração da casa, e ver alguém a aplicar um vidrado à mão livre numa peça que vai para o forno muda a forma como olham para o objeto na prateleira da loja. O melhor momento, para mim, é sempre a pintura: a tinta crua, baça, que só ganha cor depois da cozedura. É contraintuitivo e fica na memória.
Onde se pinta mesmo a tua peça em Caldas
Se o objetivo é meter as mãos na massa e sair com algo feito por vocês, a resposta honesta não é a fábrica, são os ateliers da cidade. Caldas da Rainha vive de cerâmica há mais de um século e há estúdios independentes que recebem visitantes para sessões de pintura e de roda. Existem espaços como o GateGato (estúdio de azulejo e cerâmica) e o 19tile, entre outros, que organizam workshops abertos. Não vou fixar aqui preços nem horários porque variam e prefiro que confirmem diretamente com cada estúdio antes de marcar, mas a oferta é real e a qualidade costuma ser boa.
O que esperar de uma sessão de pintura típica: recebem uma peça já cozida em chacota (o biscoito branco e poroso), escolhem um motivo, e pintam com tintas próprias para cerâmica. Depois a peça leva uma cozedura de acabamento, o que significa quase sempre que não a levam no mesmo dia. Ou voltam a buscá-la, ou pedem envio. Perguntem isto logo no início, porque é a dúvida que estraga planos de quem está de passagem.
Dicas práticas para o dia
- O que vestir: roupa que não vos importe sujar. A tinta de cerâmica sai mal e algumas mancham mesmo. Levem ou peçam um avental.
- O que levar: referências do motivo que querem pintar, num telemóvel ou impressas. Olhar para um desenho concreto poupa meia hora de hesitação.
- Quando marcar: com antecedência, sobretudo de sexta a domingo e no verão. Os estúdios são pequenos e os lugares acabam.
- Tempo: contem mais do que pensam. Uma peça simples leva uma a duas horas; com calma, três, e é melhor assim do que à pressa.
Como chegar e o que fazer à volta
A fábrica e a maioria dos ateliers ficam no centro, a pé da estação e do Parque D. Carlos I. Quem vem de carro estaciona sem grande drama fora dos picos do mercado. Façam disto meio dia e não uma corrida: pintar exige paciência e a cidade dá-vos a desculpa perfeita para abrandar.
Antes ou depois, comam bem. A cozinha local é generosa e específica, e reuni os pratos que valem a pena no guia sobre os pratos regionais de Caldas da Rainha e onde encontrá-los. Para uma pausa de meio da manhã, antes de sujar as mãos, deixei as minhas paragens preferidas no guia dos cafés de Caldas da Rainha. E se calhar a visita em junho, juntem a cerâmica ao marisco e às cerejas da época como conto em Caldas da Rainha em junho.
O resumo honesto
Querem ver como nasce uma peça Bordallo Pinheiro? Marquem a visita guiada à fábrica e confirmem condições pelo telefone. Querem sair com uma peça pintada por vocês? Reservem antes num atelier da cidade e contem com uma segunda cozedura. As duas coisas não são a mesma e, ao contrário do que alguns anúncios sugerem, a fábrica não é, que eu tenha conseguido confirmar, um espaço de pintura livre para visitantes. Façam as duas no mesmo dia: a fábrica de manhã, a tinta à tarde. É o melhor dos dois mundos da cidade da cerâmica.