Cafés de Caldas da Rainha: Onde Parar e o Que Pedir
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Cafés de Caldas da Rainha: Onde Parar e o Que Pedir

· · Caldas da Rainha

Onde tomar a bica das oito, o galão das quatro e o que pedir no meio: um roteiro honesto pelos cafés de Caldas da Rainha, com preços reais, regras não escritas e a verdade sobre o queijinho do céu industrial.

Há uma teoria que partilho com qualquer pessoa que me pergunte sobre Caldas da Rainha: pode julgar-se uma cidade pelo modo como ela toma café antes das nove da manhã. Em Caldas, isto acontece em duas frentes simultâneas. Na Praça da República, debaixo dos toldos do mercado da fruta, os reformados de boina pedem bicas a 70 cêntimos e discutem o preço do peixe que ainda não compraram. A dois quarteirões dali, na Rua de Camões, há gente a trabalhar em portáteis com flat whites de leite de aveia. Nenhum dos dois está errado. E é precisamente esta convivência, sem hostilidade nem ironia, que faz dos cafés desta cidade um exercício de antropologia barato e delicioso.

Não vou fingir que Caldas é uma capital do café de especialidade ao nível do Porto ou de Lisboa. Não é. Mas tem algo melhor: uma escala humana onde se pode tomar três cafés numa manhã em três sítios diferentes, com três humores diferentes, e voltar a casa com a sensação de ter percebido qualquer coisa sobre o lugar. Este é o roteiro que faço quando aqui chegam amigos, com avisos honestos sobre o que pedir e o que evitar.

Começar o dia: a bica e a torrada que ninguém anuncia

Se há ritual matinal em Caldas da Rainha, é o do mercado. Não falo do mercado da fruta como atração turística (embora seja, todos os dias, das 8h às 13h), mas do que acontece à sua volta. Os cafés que orbitam a Praça da República abrem cedo e vivem do tráfego de quem vai comprar nabiças, cherovias e aquela laranja do Algarve que ainda existe em janeiro porque alguém insiste em trazê-la.

O meu conselho não muda há cinco anos: peça uma bica curta e uma torrada com manteiga. A torrada, em Caldas, é levada a sério. Pão alentejano grosso, manteiga com sal, e ponto final. Custa cerca de 1,80€. Se vir alguém a pedir tosta mista às nove da manhã, é turista ou está de ressaca. Os locais comem torrada e leem o Público dobrado em quatro porque a mesa é pequena.

Outra regra: não peça cappuccino antes das 11h. Não por snobismo, mas porque o leite vaporizado num café que serve sobretudo bicas tende a ser tépido e triste. Espere. O cappuccino em Caldas é uma bebida de meio da manhã, idealmente acompanhada por um pastel de feijão de Torres Vedras, que muitas pastelarias da cidade compram à grossista e que é, francamente, melhor do que o pastel local que costumam tentar empurrar primeiro.

O pastel de feijão, o queijinho e o problema da nomenclatura

Aqui chegamos ao assunto sensível. Caldas da Rainha tem o seu próprio doce, o cavaca das Caldas (uma bolacha seca coberta de glacé branco que parece feita para acompanhar chá de tília na casa da avó). É uma especialidade real, com história, e devia ser servida com mais orgulho. O problema é que, na prática, o que se vende mais é pastel de feijão, pastel de nata e o famigerado queijinho do céu, que vem em embalagem industrial e tem o sabor a manteiga de palma a entrar pelas narinas.

O meu pedido honesto: se vir cavacas frescas (e nota-se, são opacas e quase friáveis, não brilhantes nem esponjosas), peça uma. Vai pagar 1,20€ e ter uma pequena experiência geográfica. Se as cavacas tiverem ar de plástico, salte para o pastel de nata, que pelo menos é universal. Evite o queijinho do céu a menos que esteja certificado pela pessoa atrás do balcão de que é feito ali. Quase nunca é.

A pausa do meio da manhã: onde a cidade trabalha

Por volta das dez e meia, a cidade muda de carácter. Os funcionários públicos descem das repartições, os comerciantes da Rua da Liberdade fecham a loja durante quinze minutos, e os cafés mais animados são os da zona pedonal entre a Praça 5 de Outubro e o Parque D. Carlos I. É aqui que recomendo a quem está só de passagem que se sente ao sol numa esplanada e peça uma meia de leite com um croissant misto.

A meia de leite, para quem nunca pediu, é o equivalente português ao café au lait francês: metade café, metade leite quente, numa chávena grande. Custa entre 1,30€ e 1,60€ dependendo da casa. O croissant misto é o croissant brioche português (não o folhado francês) com fiambre e queijo dentro, aquecido na sandwicheira até ficar marcado por riscas pretas. Não é gastronomia. É afeto. Comam-no sem culpa.

Se a manhã estiver bonita e tiver tempo, este é o momento certo para começar a planear uma fuga curta. Caldas funciona muito bem como base. A meia hora de carro estão três miradouros que recomendo a toda a gente, e em cada um deles vai querer ter levado um termos de café: o Miradouro da Foz do Arelho, com a vista sobre a Lagoa de Óbidos a abrir para o Atlântico, é o mais espetacular ao fim da tarde; o Miradouro de Santa Catarina é o que escolho quando quero pensar em silêncio; e o Miradouro de Salir do Porto, com a duna gigante a oeste, é a aposta para quando vem visita de fora e é preciso impressionar sem esforço.

Almoço tardio: o café que serve sopa

Há uma categoria de café em Portugal que merece um capítulo próprio: o café-casa-de-pasto, ou seja, o sítio que serve cafés desde as sete da manhã e, ao almoço, transforma-se em tasca com um prato do dia escrito a giz num quadro junto à porta. Em Caldas há vários, e o que os distingue dos restaurantes a sério é o preço (sete a nove euros pela refeição completa) e a velocidade (entra, come, sai em 35 minutos).

O meu pedido tipo: sopa de feijão verde, bacalhau à brás ou carne de porco à alentejana, meia de vinho da casa, e bica para fechar. Não peço sobremesa porque sei que vou voltar a beber café às quatro da tarde e quero ter espaço. Atenção ao detalhe: a sopa, em Caldas, costuma ser servida muito quente. Se pedir uma colher de pé, vai esperar dois minutos antes do primeiro golo, e isso é parte do contrato.

Para quem prefere uma manhã mais cultural antes de almoçar, vale a pena olhar para a maratona de museus de Caldas da Rainha que organizámos como roteiro. Encaixa muito bem com este ritmo de cafés: três museus de manhã, almoço numa casa de pasto, café no parque, segundo museu à tarde. A cidade aguenta.

O café das quatro: a hora civilizada

Se há uma hora em que recomendo aos visitantes que parem e olhem em volta, é entre as quatro e as cinco da tarde. Os cafés da zona do parque D. Carlos I enchem-se de avós com netos, de senhoras em pausa de bordado, de homens que terminaram o turno e ainda não têm pressa de chegar a casa. Esta é a hora da cavaca a sério, ou de um Bolo Rei fora de época que aparece em algumas pastelarias como uma piada interna entre clientes habituais.

Peça um galão. O galão é meia de leite servido num copo de vidro alto, e está mais para o lado do leite do que para o lado do café. Custa por volta de 1,40€. Acompanhe com uma bola de Berlim simples, sem creme amarelo, se a casa as fizer. O creme amarelo, em 80% dos sítios, vem de saco industrial e estraga o doce. Uma bola de Berlim sem recheio, polvilhada com açúcar, com a massa ainda morna, é uma das melhores coisas que se pode comer por menos de 1,50€ neste país.

Esta é também a hora em que muitas vezes encontro pessoas a planear o dia seguinte ao mapa, e é quando entrego sugestões: se for primavera, aconselho seguir os trilhos de abril à volta de Caldas da Rainha, que misturam paisagem agrícola e bosque sem exigir botas de caminhada a sério; se forem observadores de pássaros, ou simplesmente apreciadores de calma e binóculos baratos, a observação de aves na Lagoa de Óbidos faz-se ao amanhecer e justifica perfeitamente um café duplo às seis da manhã no único sítio aberto naquela hora junto à lagoa.

O café da noite, e a regra dos descafeinados

Caldas não é uma cidade de cafés noturnos, no sentido em que Lisboa tem o A Brasileira até à uma da manhã. Aqui, depois das nove, os cafés vivos são os que servem também imperiais e onde, na televisão suspensa, passa o canal do desporto sem som. É um cenário a que aprendi a render-me. A bica depois do jantar custa entre 0,70€ e 0,90€, e a regra não escrita é que se pede ao balcão, em pé, e se bebe em três goles.

Quanto a descafeinados: peça-os de saqueta. Sei que parece heresia para quem vem de cidades onde o descafeinado é grão moído na hora, mas a verdade é que em quase nenhum café tradicional português o descafeinado de máquina é fresco, porque ninguém o pede com frequência suficiente. A saqueta solúvel, paradoxalmente, é mais consistente. Pague mais 20 cêntimos e bebe melhor.

Atalhos práticos e avisos finais

Caldas da Rainha tem estação de comboios na linha do Oeste (a partir de Lisboa Santa Apolónia, cerca de 1h45, bilhete simples por volta dos 9€) e fica a quarenta minutos da A8 saindo de Lisboa. A cidade percorre-se a pé em vinte minutos, do parque ao mercado. Não há razão para alugar carro a menos que queira fazer base e visitar os miradouros, a praia de Foz do Arelho ou ir mais longe, por exemplo até Fátima se calhar coincidir com a sua estadia o famoso 13 de maio em Fátima, que é uma viagem que se faz em menos de uma hora de carro e que vale a pena pelo menos uma vez na vida, mesmo para os mais céticos.

Se for em maio e gostar de música em ruas estreitas, é provável que esteja a passar perto da época da Queima das Fitas em Coimbra, a uma hora e meia de Caldas, e essa também é uma desculpa válida para uma fuga, embora eu pessoalmente prefira a calma das esplanadas caldenses ao caos da Praça da República coimbrã nessa semana.

Regras finais, em forma de lista, porque a esta altura já bebemos café suficiente para nos darmos ao luxo de bullet points:

  • Bica curta antes das nove, meia de leite a meio da manhã, galão às quatro da tarde. Não inverta.
  • Pague em dinheiro abaixo dos cinco euros. Muitos cafés cobram comissão de cartão até um valor mínimo.
  • Não peça café para levar em copo de papel. Vai pagar igual e perder a experiência de estar parado.
  • Se vir uma cavaca opaca e ligeiramente quebrada na borda, é fresca. Compre dois e leve um para o miradouro.
  • Diga "se faz favor" e "obrigado". Em Caldas, a delicadeza paga descontos invisíveis.

A última coisa que aprendi sobre os cafés desta cidade é que a melhor mesa não é a do meio da esplanada, com vista panorâmica sobre a praça. É a mesa de canto, encostada à montra, de onde se vê quem entra e quem sai sem se ser observado. Sente-se aí, peça o que lhe apetecer, e dê-se uma hora. Caldas faz o resto.

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