Cafés de Peso da Régua: O Que Pedir em Cada Um
Toda a gente vem a Peso da Régua pelo vinho do Porto e quase ninguém repara nos cafés. Erro crasso: aqui ainda se pede a bica em copo de vidro, ainda se molha o pão na chávena, e o pequeno-almoço custa 2,50€.
Há uma verdade desconfortável sobre Peso da Régua: toda a gente vem cá pelo vinho do Porto e quase ninguém repara nos cafés. Erro crasso. Esta cidade pequena, encostada ao rio e atravessada pelo comboio da Linha do Douro, tem uma cultura de café de balcão que sobrevive intacta enquanto Lisboa se converte em terceira vaga e Porto enche de torrefactores com barbas. Aqui ainda se pede uma bica em copo de vidro, ainda se molha o pão na chávena, e ainda há senhores de boné que passam ali a manhã inteira a discutir a vindima.
O que se segue não é um inventário exaustivo. É um percurso, feito a pé, com paragens estratégicas para o pequeno-almoço, para o meio da manhã, para depois do almoço e para aquela última cervejinha que na Régua se chama imperial e custa, em quase todo o lado, menos de dois euros. Se andar com pressa, salte para a secção sobre o que pedir em cada sítio. Se gostar de contexto, fique. Vale a pena.
Porquê os cafés e não as quintas
As quintas do Douro têm relações públicas e enólogos a tempo inteiro. Os cafés da Régua têm uma senhora chamada Dona Conceição que conhece o seu nome ao terceiro café. A diferença importa. Numa quinta paga vinte euros por uma prova e sai a saber mais sobre castas. Num café da Régua paga oitenta cêntimos e sai a saber mais sobre a cidade: quem é que está doente, qual a melhor padeira da semana, onde caiu o último muro de xisto, que estrada está cortada por causa das obras. É a infra-estrutura de informação local, e ainda funciona.
Acrescente-se que o pequeno-almoço numa pastelaria da Régua custa entre 2,50€ e 4€. Comparem isto com o que se paga em Gaia por um cappuccino e uma fatia de bolo industrial. Não há contestação possível.
O percurso, começando pela Avenida
O eixo central da Régua é a Avenida do Douro, paralela ao rio. É aqui que se concentra a maior parte da vida de café, sobretudo entre o Cais da Régua (onde atracam os barcos turísticos) e a estação de comboios. Comece de manhã cedo, idealmente antes das nove, quando os barcos ainda não chegaram e a cidade pertence aos seus.
Pastelaria Avenida: a bica honesta e o pastel de nata morno
Não confunda com cadeias do mesmo nome. A Pastelaria Avenida da Régua é uma instituição de balcão comprido, montra com pastelaria fresca, e uma máquina de café que trabalha sem descanso. Peça uma bica e um pastel de nata, mas o pastel de nata só se chegar antes das dez e meia, quando ainda saem mornos do forno. Depois disso, são iguais aos de qualquer outro sítio.
O que distingue este café é o folar e o bolo de arroz. O folar transmontano, denso, com chouriço e presunto incrustados na massa, custa cerca de 1,80€ a fatia e é um almoço disfarçado de pequeno-almoço. O bolo de arroz aqui é pequeno e levemente queimado em cima, exactamente como deve ser. Beba com galão se quiser durar mais tempo.
Café Império: para o meia de leite das dez
A meio da Avenida, com vista para o rio, o Café Império tem mesas na rua e um pessoal habituado a turistas que pede tudo em inglês. Não se incomode. Sente-se em qualquer mesa, peça uma meia de leite (não diga "café com leite", aqui é meia de leite), e uma torrada. As torradas da Régua, em geral, são feitas com pão de forma fatiado, manteiga generosa e prensa quente. Não é gastronomia, é combustível, e funciona.
Conselho prático: se vier no fim-de-semana entre Abril e Outubro, evite as mesas viradas para o rio entre as onze e a uma. Enchem-se de grupos vindos dos cruzeiros, esperam quarenta minutos por uma sandes mista e depois reclamam. Por dentro, no balcão, o serviço é metódico e rápido.
Casa do Pão: a paragem de meio da manhã
Não é estritamente um café, é uma padaria-pastelaria, e é precisamente isso que a torna útil. Tem broa de milho fresca, tem queijo da Serra (em fatia, vendido ao peso), e tem bolas de Berlim genuínas, com creme amarelo escuro, do tipo que mancha o guardanapo. Uma bola de Berlim na Casa do Pão e um café simples por baixo de 2€ é o pequeno-almoço dos engenheiros do caminho-de-ferro, e ainda hoje vai encontrar três ou quatro deles ao balcão.
A pausa para almoço (e o café que vem a seguir)
Aqui é preciso desviar do percurso de cafés porque, sejamos honestos, em Peso da Régua o que se come ao almoço importa tanto como o que se bebe a seguir. A escolha depende do orçamento e do humor.
Se quiser um almoço sério, com vinho da casa e três pratos por menos de quinze euros, vá ao Restaurante Tio Manel. Cozinha sem rodeios, bacalhau à Tio Manel quando há, posta de vitela à mineira em dias bons. Os funcionários do café da estação almoçam ali e isso diz tudo. Se procura algo mais informal, mais de tasca, peça uma sandes de pernil ou uma dose de tripas à moda do Porto na Tasca da Quinta. Não é grande para casais em lua-de-mel, é grande para quem quer comer bem e barato. E se a viagem for de aniversário, ou se vier alguém de fora a quem queira impressionar, reserve no Castas e Pratos, mesmo ao lado da estação, com cozinha mais elaborada e uma carta de vinhos do Douro a fazer inveja.
Depois do almoço, e isto é importante, o café é em pé, ao balcão. Sentar-se para tomar a bica do pós-almoço é coisa de quem não tem mais nada para fazer naquele dia. Os reguenses tomam-no de pé, em três goles, com um açúcar e meio.
Tarde: os cafés que ninguém recomenda nos guias
Café Central: o que sobreviveu ao tempo
Numa rua paralela à Avenida, longe da fila dos cruzeiros, fica o Café Central. Sem letreiro novo, sem cartão de menu plastificado, sem máquina de cartões em todas as mesas. É onde se reúnem os reformados a jogar à sueca depois das três da tarde, e onde se serve uma bica que custa cerca de oitenta cêntimos. Peça também um copo de moscatel doce, se quiser perceber porque é que o pessoal mais velho desta cidade vive até aos noventa.
Conselho não solicitado: se for jogador de jogos de cartas, esteja preparado. Vão convidá-lo. Aceite. É a melhor maneira de aprender geografia humana da Régua em quarenta e cinco minutos.
O quiosque do Jardim do Cais: para quando o tempo está bom
No Jardim do Cais, junto ao Museu do Douro, há um quiosque pequeno que vende cafés, cervejas e gelados. Não tem nome de café famoso, não tem prémios, e isso é exactamente o ponto. Sente-se num dos bancos com vista para o rio, peça um café duplo e veja os barcos descer. É a forma mais barata de fazer turismo no Douro: dois euros e uma hora de paisagem.
Se vier em Maio ou Junho, o jardim está cheio de jacarandás em flor, e há uma luz às cinco da tarde que torna tudo violeta. Vale o desvio. Se quiser entender o que está a acontecer nas vinhas nessa altura do ano, leia depois sobre o abrolhamento das vinhas na Quinta do Vallado, que coincide exactamente com este período de jacarandás abertos.
Fim de tarde: a imperial das seis
Há um ritual na Régua, e em quase todo o Douro, que se chama "a imperial das seis". Acontece entre as cinco e meia e as sete, conforme a estação. Significa entrar num café qualquer, pedir uma imperial (Super Bock ou Sagres, conforme o sítio), e ficar uns vinte minutos a ver o sol baixar sobre o rio. Acompanhe com tremoços ou amendoins. Não é refeição, é transição.
Os melhores sítios para isto, na minha opinião, são três. O Café da Estação, mesmo em frente à linha férrea, para quem gosta de ver chegar o comboio do Pocinho. A esplanada do Café Império, se conseguir mesa, para quem gosta de ver o rio. E, para quem está disposto a andar dez minutos, o Café do Cais, junto ao novo cais de embarque, mais sossegado, com cervejas mais frias e menos pressa.
Custo total da operação: entre 1,50€ e 2,20€ por imperial. Se pedir uma segunda, vão tratá-lo bem. Se pedir uma terceira, vão lembrar-se de si na próxima vez.
O café da estação: a categoria à parte
O Café da Estação dos Comboios da Régua merece um parágrafo só dele. Não é o melhor café da cidade. Não tem o melhor pastel de nata. O serviço é, por vezes, brusco. Mas é, sem dúvida, o café mais cinematográfico da Régua. Tem mesas viradas para a linha, máquina de bilhetes antiga ao canto, e clientes que são uma mistura impossível de turistas perdidos, ferroviários em pausa e mulheres a vir da feira de Lamego.
Peça um café e uma rissol de camarão. O rissol é industrial, mas frita-se ali na altura e fica crocante. Veja chegar o comboio da Régua para o Pocinho, que parte às horas certas e é uma das viagens mais bonitas da Europa por menos de quinze euros. Mesmo que não vá, vê-lo partir tem qualquer coisa de comovente.
Quando vir e o que evitar
A melhor altura para os cafés da Régua, paradoxo aparente, é fora da época alta dos cruzeiros. De Outubro a Abril, exceptuando a vindima de Setembro, a cidade pertence aos reguenses. Os preços baixam, o serviço é mais conversado, e há tempo para fazer perguntas. De Maio a Setembro, sobretudo aos fins-de-semana, prepare-se para esperar.
Se vier no Verão e quiser fugir aos grupos, há duas estratégias. Primeira: tome o café muito cedo, antes das nove, antes dos barcos. Segunda: faça um desvio para uma das povoações próximas. Pode ir até Sabrosa, com as suas quintas menos conhecidas, ou até mais longe, se calhar com a programação dos Santos Populares de Junho no Douro profundo. Em qualquer destes sítios, os cafés são mais pequenos, mais lentos, e custam menos.
Para quem prefere conjugar o café da manhã com um plano mais estruturado, considere começar o dia com uma prova de vinho na Primavera, sair pela hora do almoço, e regressar aos cafés à tarde para o tal ritual da imperial das seis. Funciona. Está testado.
Como chegar e onde estacionar
A Régua tem estação de comboios na Linha do Douro, com ligações directas a Porto (São Bento e Campanhã) em cerca de duas horas. É de longe a melhor forma de chegar. De carro, vem-se pela A4 até Vila Real e depois pela N2, ou pela N222 desde o Porto (mais paisagem, mais tempo). Há parques de estacionamento perto do Cais e da estação, com tarifas baixas, à volta de 0,50€ a hora.
Se vier de comboio, está literalmente a três minutos a pé de quase todos os cafés mencionados. Se vier de carro, deixe-o e ande. A Régua é pequena, plana junto ao rio, e a vida acontece em quatrocentos metros lineares.
O resumo, para quem está com pressa
- Pequeno-almoço: Pastelaria Avenida (folar e pastel de nata morno) ou Casa do Pão (bola de Berlim e broa).
- Meio da manhã: Café Império, meia de leite e torrada, ao balcão se quiser ser rápido.
- Pós-almoço: bica em pé, em qualquer dos referidos, três goles e segue.
- Tarde: Café Central, para a sueca e o moscatel; ou quiosque do Jardim do Cais para o café com vista.
- Imperial das seis: Café da Estação, Café Império ou Café do Cais.
- Custo total de um dia inteiro de café e pastelaria: entre 10€ e 15€. Sem pressa, sem exagero.
E se ainda lhe sobrar curiosidade para outras paragens, há flora de Primavera espalhada por todo o Douro Superior, com destaque para Torre de Moncorvo em flor. Mas isso é outra viagem, outro artigo, e outro café.