Albufeira a Pé: Trilhos Ordenados por Dificuldade e Vista
Cinco trilhos em Albufeira, do passeio pelos três miradouros do centro até aos 18 km nos Salgados. Com preços reais, autocarros, café a 80 cêntimos e a opinião que poupa tempo a quem vem cá uma semana.
Há uma versão de Albufeira que vive na imaginação de quem nunca cá esteve: bares de karaoke na Oura, pulseiras de tudo-incluído, sangria às nove da manhã. Existe, sim. Mas começa a desaparecer assim que se sai do asfalto e se apontam as botas para os trilhos das falésias. A partir de outubro até abril, antes de o sol bater forte, há quilómetros de caminhos de cabras que servem paisagens melhores do que qualquer pôr-do-sol pago em rooftop. Esta é a minha lista pessoal, do mais fácil ao mais exigente, com a opinião que poupa tempo a quem vem cá uma semana e quer caminhar a sério.
Antes de avançar: leve água a sério (1,5 L por pessoa no verão, mesmo nos trilhos curtos), calçado fechado com piso aderente (as escadas calcárias ficam escorregadias com humidade) e protetor solar 50. Os trilhos são gratuitos e quase todos sem bilheteira ou horário. O risco real não é perder-se: é o desmoronamento das falésias. Não se aproxime da borda, ignore aquelas fotografias do Instagram a sentar nos miradouros suspensos. Já caiu gente. A sério.
Nível 1 (Muito Fácil): Os Miradouros da Cidade Velha
Comece pelo mais óbvio, porque é genuinamente bom e quase ninguém o faz com método. Em vez de saltar de bar em bar na Rua Cândido dos Reis, faça uma volta de uma hora ligando os três miradouros do centro, todos pavimentados, todos acessíveis, todos com bancos para sentar e ver o mar.
Arrancamos no Miradouro do Pau da Bandeira, o postal clássico de Albufeira. Vá ao fim da tarde, por volta das 18h30 no verão, e vai perceber porque é que os pintores do século XX vinham aqui: a luz dourada bate na falésia do Peneco e transforma o ocre em laranja. Cinco minutos a pé chega ao Miradouro Rossio, mais íntimo, com mosaicos calcetados e uma vista que abraça a Praia dos Pescadores. Termine no Miradouro da Rua Latino Coelho, escondido entre casas brancas, ideal para a fotografia sem multidão.
Distância total: cerca de 1,2 km. Desnível: insignificante. Quando ir: tardinha. Custo: zero. Quem vai gostar: famílias com avós, casais que não trouxeram botas, quem quer aquecer pernas antes do trilho sério no dia seguinte.
Nível 2 (Fácil): Praia do Peneco até Praia dos Alemães
É o trilho que mais subestimo nos guias internacionais. Sai-se do túnel da Praia do Peneco, sobe-se a escadaria de madeira e segue-se o passadiço de areia compactada que serpenteia pelas falésias da Oura. Em duas horas de passo lento chega-se à Praia dos Alemães e regressa-se. Os primeiros 800 metros têm corrimão, depois é trilho de terra batida com troços expostos ao vento.
O que torna isto especial não é a distância (uns 5,5 km ida e volta), é a sucessão rápida de cenários: pinhal, falésia vermelha, calas escondidas, e duas ou três quintas com figueiras que sobreviveram à pressão imobiliária. Pare na Praia do Inatel para um café no quiosque (cerca de 1,50 €, abre por volta das 9h fora de época) e siga adiante. Evite domingos: enche.
Dica honesta: se trouxer fato de banho, a Praia da Oura Leste, a meio do percurso, é onde os locais nadam quando os turistas estão na Oura principal. Areia mais grossa, ondulação maior, mas zero música a bombar.
Nível 3 (Moderado): Olhos de Água a Falésia, pela costa
Aqui começa a Albufeira séria, a que faz valer a pena guardar dias para caminhar. Apanhe o autocarro 56 da Vibus na rotunda da Guia (cerca de 2,75 €, frequência horária na época baixa, confirme localmente) até Olhos de Água. Comece a caminhar para nascente, em direção à Praia da Falésia, pelas escadarias de madeira que sobem e descem entre dunas de pinheiro-manso e arribas vermelhas que parecem o Grand Canyon em miniatura.
São cerca de 6 km só de ida, com declives constantes e troços onde a passadeira de madeira já cedeu e foi substituída por caminhos de terra paralelos. Calcule três horas com paragens fotográficas. Os pinheiros oferecem sombra contínua até quase ao fim, o que torna este trilho viável até em julho se sair às 7h.
A meio, vale a pena descer à Praia da Falésia pela escadaria do Alfamar para um mergulho. A areia é fininha e clara, o mar fica esverdeado quando o sol bate. Volte ao topo pela mesma escada (lamento, não há atalhos honestos) e continue para o farol. No regresso, o autocarro também passa em Falésia, evitando que faça os 12 km todos a pé.
Onde parar para comer: nada de restaurantes nas falésias, leve sanduíches. Mas na Aldeia das Açoteias, a uns 400 metros do trilho, há padarias com queques de cenoura que custam 1,20 € e fazem o serviço.
Nível 4 (Moderado-Exigente): Os Sete Vales Suspensos (do lado nascente)
Tecnicamente, o famoso Trilho dos Sete Vales Suspensos começa no Carvoeiro, não em Albufeira. Mas a quem se hospeda em Albufeira aconselho vivamente o seguinte: ignore a porção que começa na Praia da Marinha (sempre cheia, ranking de tripadvisor no topo) e arranque pela ponta oposta, na Praia do Vale Centeanes. Vai estar quase sozinho na primeira hora.
De Albufeira ao Carvoeiro são uns 25 minutos de carro, ou táxi de cerca de 30 €. Há também o autocarro Vamus 28, mas demora mais de uma hora e os horários são pouco amigos de quem caminha. Trilho linear de 5,7 km, calculado em três horas, com sobe-e-desce constante. A vista da Praia da Marinha é o que toda a gente fotografa, mas o melhor instante, para mim, é a Algar Seco visto de cima: o calcário esculpido pelo mar parece uma catedral submersa que se elevou.
Recompensa no fim: o restaurante O Castelo, no Carvoeiro, serve cataplana de peixe a preço justo (cerca de 22 € para duas pessoas, confirme localmente) e tem esplanada com vista para a praia. Se a fila estiver enorme, atravesse para o Boneca Bar, mais simples, mas o polvo grelhado é bom.
Para quem caminha com crianças mais velhas e quer um dia inteiro de descoberta, depois do trilho proponho continuar para o interior. Tenho aliás escrito sobre isso no guia honesto de Silves para famílias, que combina perfeitamente com este lado do Algarve: Carvoeiro de manhã, Silves à tarde.
Nível 5 (Exigente): Salgados, Pêra e a Lagoa dos Salgados
Este é o trilho que separa caminhantes ocasionais de quem leva a coisa a sério. Não pela dificuldade técnica (o piso é maioritariamente plano), mas pela distância total: 18 km ida e volta entre a Praia dos Salgados e a Praia Grande de Pêra, com pouca sombra e zero serviços a meio. Já se perdeu turistas com insolação por aqui em agosto. Não faça isto entre maio e setembro sem sair antes das 7h.
A graça? A Lagoa dos Salgados é a melhor zona de birdwatching do Algarve costeiro. Levante manhã cedo, leve binóculos baratos (uns 25 € na decathlon servem), e vai ver flamingos a 50 metros, garças, e em fevereiro até colhereiros. Caminhe pelo passadiço de madeira do lado nascente da lagoa, depois pela praia até Armação de Pêra. O brunch no centro de Armação compensa: há pastelarias antigas onde o galão custa 1,40 € e o pão com chouriço sai a 2,50 €.
Confesso que faço este trilho duas vezes por inverno só para reorientar a cabeça. Não tem postais. Tem horizonte.
Quando trocar o passo pelas duas rodas
Se já caminhou três dias seguidos e as canelas pedem tréguas, mude para uma bicicleta elétrica. O tour de e-bike pela Bikesul faz, em três horas, um circuito que a pé exigiria dois dias: centro histórico, falésias e três praias. Boa solução para quem está em Albufeira só 48 horas e quer ver muito sem sofrer.
O que comer depois de caminhar
Vou direto ao assunto: a maioria dos restaurantes no centro histórico de Albufeira que tem ementa em sete línguas é para evitar. Saia dos eixos. Procure tasca com mesa de fórmica, ementa só em português, dono na cozinha. Coma sardinhas no verão (junho a setembro são as boas), carapau alimado, choco frito, e no inverno cataplana ou xerém com conquilhas. Beba vinho branco da casa, recusem-vos garrafa, e gastem 15 € por pessoa.
Se quiserem levar para casa a habilidade de fazer estes pratos, recomendo a aula de cozinha portuguesa no MIMO Algarve. Aprendem a cataplana e a açorda de marisco com produtos do mercado, e ficam com o jantar resolvido. É a melhor experiência de chuva no Algarve, e dura entre três e quatro horas.
Para alargar o raio: dois roteiros que cruzam bem com Albufeira
Se ficarem mais de uma semana, façam um dia em Faro e outro em Lagos. Faro pelo lado da cultura local, mercados, igrejas, a Ria Formosa; Lagos pela arquitetura e pelos bairros menos óbvios. Tenho descrito ambos em pormenor no guia da cultura local em Faro e no guia dos bairros de Lagos. Ambos a menos de uma hora de carro do centro de Albufeira.
Conclusão sem floreado
Albufeira merece mais do que a reputação que tem. Quem sai do quadrilátero da Oura e se mete pelas falésias, mesmo na curta volta dos três miradouros, encontra uma cidade que ainda tem pescadores a remendar redes às seis da manhã e cafés onde a bica custa 80 cêntimos. Os trilhos são o atalho mais rápido para essa Albufeira. Calcem botas, levantem cedo, e tragam de volta histórias melhores do que pulseiras de plástico.