Levada do Caldeirão Verde em Santana: Guia do Caminhante
13 km de levada, quatro túneis escuros e uma cascata de mais de 100 metros no fim. A Madeira Best organiza saídas guiadas a partir de 47€, com pickup no Funchal e guia de montanha certificado.
A Levada do Caldeirão Verde, classificada como percurso PR9, é provavelmente a caminhada mais conhecida da Madeira, e por boas razões. São 13 quilómetros de ida e volta a partir do Parque Florestal das Queimadas, em Santana, com uma queda de água esmeralda no fim que justifica cada passo. Não é difícil, mas também não é uma caminhada de domingo: há quatro túneis estreitos onde se entra de cabeça baixa e lanterna na mão, troços com a levada de um lado e um precipício do outro, e cerca de seis horas de andamento se for sem pressas.
Se quiser fazer este percurso com alguém que conheça os ritmos da floresta laurissilva, a operadora Madeira Best, em parceria com a Adventure Kingdom, organiza saídas diárias com guia de montanha certificado a partir de 47€ por pessoa. Reserva-se em madeira.best ou directamente pelo telefone +351 291 648 620. O preço inclui transporte desde o Funchal, guia profissional e seguro obrigatório. A taxa de entrada no parque (4,50€) paga-se à parte, em dinheiro, no posto das Queimadas.
O que é a Levada do Caldeirão Verde, na prática
As levadas são canais de irrigação construídos a partir do século XVI para levar água das encostas húmidas do norte às plantações do sul. A do Caldeirão Verde foi escavada no século XVIII e ainda hoje transporta água. Andar ao lado dela significa andar quase sempre em curva de nível, com pouca subida acumulada, mas com uma exposição constante à floresta laurissilva, classificada como Património Mundial pela UNESCO desde 1999. Os til, vinháticos e folhados que crescem aqui só existem na Macaronésia.
O percurso tem 13 km lineares (ida e volta), aproximadamente 6 horas de marcha efectiva, e uma altimetria modesta entre os 890 e os 980 metros. A dificuldade está nos detalhes: trechos sem vedação onde o caminho mede menos de um metro, pedra molhada quando chove (e chove muitas vezes nesta vertente), e os tais túneis. Para quem nunca atravessou um, é a parte mais memorável e a que mais surpreende.
Os quatro túneis
Não tem escapatória: para chegar ao Caldeirão Verde tem de passar por quatro túneis escavados na rocha. O mais longo tem cerca de 200 metros, é húmido, escuro como breu e tem o tecto baixo o suficiente para dar uma cabeçada se andar distraído. Leve uma lanterna frontal (não use o telemóvel, vai precisar das duas mãos para se equilibrar) e um casaco impermeável: a água escorre do tecto e do chão. As pessoas costumam rir alto dentro dos túneis, e o eco torna o momento divertido. É a melhor parte da caminhada, ponto.
Quando ir e como apanhar a melhor luz
A época ideal é entre Abril e Outubro, mas mesmo no Verão pode apanhar nevoeiro cerrado ao chegar à cascata. Eu prefiro a saída das 8h30 com pickup no Funchal: chega-se às Queimadas perto das 10h, evita-se o pico dos autocarros que despejam grupos pelo meio-dia, e a luz que entra na floresta a meio da manhã é diferente, com feixes amarelos a caírem entre os til. À tarde, o vale enche-se de nuvens e a queda de água perde definição.
Em dias de chuva intensa o percurso pode ser encerrado por questões de segurança. Confirme directamente com o operador 24 horas antes. Se estiver hospedado em Santana, pode dispensar o transporte do Funchal e ir directamente às Queimadas, mas avise a Madeira Best na altura da reserva para ajustarem o ponto de encontro.
O que levar (e o que deixar em casa)
- Calçado de trail com sola aderente. Ténis urbanos não chegam, a pedra é escorregadia.
- Lanterna frontal com pilhas carregadas. Esta é a peça que mais gente esquece.
- Casaco impermeável leve, mesmo em dias de sol. Os túneis pingam sempre.
- 1,5 litros de água por pessoa e snacks. Só há um bar nas Queimadas, no início e no fim.
- Calças compridas finas para proteger das urtigas em alguns troços.
- Dinheiro para a entrada no parque, 4,50€ por pessoa.
Deixe em casa mochilas grandes, tripés volumosos e qualquer coisa que precise de duas mãos para gerir. Os túneis e os trechos estreitos exigem mobilidade.
O Caldeirão Verde propriamente dito
Depois de seis quilómetros e meio chega-se a um curto desvio à direita, sinalizado, que desce até ao Caldeirão Verde. É uma lagoa circular com cerca de 30 metros de diâmetro, com uma queda de água de mais de 100 metros a alimentá-la. A água é gelada, ronda os 12 graus mesmo em Agosto, e poucas pessoas se atrevem a entrar até aos joelhos. A maioria dos caminhantes faz uma pausa de 20 minutos, almoça uma sandes e regressa pelo mesmo caminho. Não há circuito circular.
O melhor momento da caminhada, para mim, não é a cascata. É o regresso, quando já se conhece o terreno, os túneis deixam de ser surpresa e a floresta abranda. É aí que se ouve o pica-pau do Madeira (uma subespécie endémica), o cheiro a folha molhada fica mais denso e finalmente se percebe porque é que esta floresta sobreviveu aqui em vez de ter desaparecido como quase toda a laurissilva da Europa continental.
Onde ficar e o que combinar com a caminhada
Se quiser dormir em Santana e fazer da Levada o ponto alto de uma estadia mais longa, o Aldeamento Turístico Casas de Campo do Pomar fica a 15 minutos do trilho. Para um dia mais lento depois da caminhada, vale a pena consultar o roteiro de 24 horas em Santana e talvez levar para casa peças do artesanato local que justifica a viagem.
Quem ficar com energia para mais natureza pode aprofundar a Reserva da Biosfera de Santana ou trocar a montanha pela costa com as praias selvagens da freguesia. A Levada do Caldeirão Verde encaixa bem num plano de três dias, sem ser o único cartão da estadia.